Rose di Primo: um curto circuito em forma de beleza
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Rose di Primo: um curto circuito em forma de beleza

A mulher que encarnou e eternizou a essência do Rio Babilônia em cenas que ficaram na história

Ela tinha um corpo devastador, daqueles que já nascem pecando antes mesmo de aprender o próprio nome. Bronzeada, insolente, com aquele ar de quem já errou e decidiu não pedir desculpa, atravessava a Visconde de Pirajá como uma tentação em horário comercial. Rose di Primo não passava, insinuava. Não olhava, comprometia. E quem cruzasse seu caminho saía menor, mais fraco, mais humano.

Hot pants mínimas, quase uma afronta costurada às pressas. Aquilo não cobria, denunciava. Pernas longas, perigosas, com cheiro de Coppertone e perdição. Pernas que não caminhavam, convocavam. Pela manhã, reinava no Píer como uma verdade inconveniente: o desejo em carne viva, sob o sol, sem culpa, sem álibi, sem vergonha.

No BB Lanches, no Leblon, era uma liturgia pagã. O balcão virava altar, o suco de melancia escorria como um pecado doce, e ela sorria daquele jeito que não pede, cobra. Ao lado do surfista ítalo-carioca Arduíno Colasanti, dois corpos em acordo silencioso — cúmplices da mesma desordem elegante.

À noite, não entrava, acontecia. Vestido branco colado na pele tostada, atravessava a boate New York City Discotheque (a pioneira na era disco no Brasil) como um delírio de luz baixa e desejo alto. Chegava perto do DJ como quem confessa um segredo indecente à madrugada. E o cheiro não era perfume. Era memória antes do fato. Suor com poesia, maresia com segundas intenções, sabonete com malícia.

O biquíni não vestia, sugeria. Uma tira aqui, um fio ali, e o resto era imaginação em combustão. Não era moda. Era provocação. Um pedaço de tecido fazendo mais barulho que muito discurso. O verão carioca, despido de vergonha, rindo da moral alheia.

Ela explodiu em capas, olhares, fantasias. Virou símbolo, virou debate, virou desejo coletivo com CEP no Leblon. Uns tentavam explicar, outros só queriam tocar com os olhos — e fracassavam, como sempre.

Em uma madrugada quente, saiu com o fotógrafo Antônio Guerreiro como quem assina a própria sentença. Tirou o vestido sem teatro, como quem se livra da última mentira, e correu para o mar. Não havia inocência ali, havia escolha. E isso é mais perigoso. O clique veio seco, quase um flagrante de crime consentido. Nascia uma imagem que ninguém encara duas vezes sem perder um pouco da compostura.

O mais perturbador não era o corpo. Era a permissão. Diante dela, o sujeito de família vacilava, o moralista engasgava, o apaixonado virava caricatura. Porque Rose não despertava desejo: escancarava a ausência dele na vida dos outros.

Rio Babilônia não era um lugar: era um estado febril. Pegava pelo olhar, descia pelo sangue e se instalava onde a decência costumava dormir. Ali ninguém era fiel às próprias regras. E quem era, mentia.

E Rose… Rose di Primo não era mulher. Era um curto-circuito moral em forma de beleza. A prova viva de que a virtude, quando endurece demais, vira só desejo mal resolvido. Tinha no corpo uma sinceridade obscena, dessas que fazem qualquer caráter hesitar. Quem olhava, julgava. Quem julgava, desejava. E quem desejava… já tinha perdido.

Porque no fim, meu caro, não era ela que se despia para o Rio, era o Rio inteiro que se despia por dentro só de olhar para ela.

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