Onde mais um trio desta espécie pisaria sem parecer ficção? Talvez apenas na Saint Tropez dos anos 70. Aquela Saint Tropez insolente, onde o sol parecia patrocinado pelo excesso e as tardes tinham cheiro de cigarro francês, bronzeador barato e champagne caro. Ibrahim Sued desfilava por ali como um diplomata da malandragem carioca, correntes de ouro no peito, frases afiadas no bolso e um bronzeado que faria um pescador grego parecer burocrata de repartição. Ibrahim não entrava nos lugares. Ibrahim inaugurava atmosferas.
Ao lado dele, Elton John ainda tinha mais noites do que memória, sentado de boné entre gargalhadas e cinismo inglês, enquanto Jean Paul Belmondo carregava aquele rosto de homem que parecia ter sobrevivido a um duelo, um romance e um acidente de Ferrari na mesma semana. Em volta, duas mulheres impossivelmente belas, dessas que não acompanhavam homens: acompanhavam épocas.
Lenços Pucci tremulavam como bandeiras de um império hedonista. O bronzeado era irresponsável, os cigarros infinitos e os copos jamais chegavam vazios à mesa do Sénéquier. Depois, vinha a procissão pagã da madrugada: Les Caves du Roy, Papagayo. Luzes vermelhas, corpos suados, perfumes caros, milionários entediados e artistas tentando se perder de si mesmos antes do amanhecer.
Ibrahim estava hospedado na villa de Eddie Barclay, o imperador das noites tropeziennes, um homem tão rico e exagerado que transformava festas em pequenos golpes de Estado emocionais. As festas de Barclay não terminavam, elas apenas perdiam a roupa. Entre luzes psicodélicas, champagne derramado e gente nua atravessando piscinas às quatro da manhã, acabava tudo misturado: gênios, canalhas, artistas, príncipes, álcool e solidão disfarçada de euforia.
Em determinado momento da noite, porque as grandes noites não têm hora, têm capítulos, surgiu um balde de ouro da Cartier escoltando uma Dom Pérignon edição limitada, dessas que parecem ter sido produzidas não para beber, mas para humilhar discretamente os outros convidados. A garrafa brilhava mais do que muita socialite da Riviera.
E então alguém, já profundamente alcoolizado de dinheiro e verão, teve a ideia genialmente inútil de ir até a Suécia fazer sabrage na neve. Porque os milionários dos anos 70 não viajavam atrás de experiências. Viajavam atrás de absurdos.
Ibrahim adorava aquilo. Abria champagne de camisa aberta até o umbigo, correntões sambando no peito cabeludo, enquanto repetia, orgulhoso, que aquele bronze era “made in Copacabana”. Dizia isso como quem carrega um brasão. E carregava mesmo. Ibrahim tinha o talento raro de transformar vulgaridade em charme internacional. Era um malandro tropical infiltrado entre príncipes europeus entediados.
A crescente não noticiava. A crescente acontecia. E quando menos se esperava, surgia o casal dourado da Riviera: Philippe Junot e Caroline de Mônaco. Ele aparecia como aparecem certos homens perigosamente charmosos, sempre atrasado, sempre bronzeado, sempre com a expressão de quem havia dormido pouco e vivido demais. Playboy legítimo, herdeiro de banqueiros, mulherengo profissional e notívago disciplinado, Junot tinha aquele talento raríssimo de fazer mulheres rirem sem parecer que estava tentando.
Caroline chegava luminosa, aristocrática e levemente entediada, como toda princesa inteligente cercada de bilionários previsíveis. Ao lado de Junot, porém, ria alto. Ria como uma mulher que finalmente encontrou um homem mais inconsequente do que ela própria gostaria de admitir. Os dois atravessavam Saint Tropez como um incêndio elegante. Quando apareciam, os garçons endireitavam a postura, os milionários observavam discretamente e as mulheres fingiam não olhar para ele.
Ibrahim adorava aquilo. Dizia que Junot tinha “cara de homem que perde fortuna no cassino e ainda sai bonito na fotografia”. E tinha mesmo. Enquanto Elton John gargalhava, Belmondo fumava em silêncio cinematográfico e Eddie Barclay distribuía excessos como um imperador romano distribuía pão, Saint Tropez seguia vivendo seu auge moralmente duvidoso e esteticamente irretocável.
Enquanto isso, o destino continuava funcionando como um delírio coletivo financiado pelo petróleo árabe, pela indústria fonográfica e pela irresponsabilidade emocional do Ocidente. O Sénéquier fervia de risadas altas, o Papagayo parecia um cassino montado dentro de um pecado e, nas festas de Eddie Barclay, as pessoas acabavam nuas com a mesma naturalidade com que hoje desbloqueiam celular por reconhecimento facial.
E talvez o mais elegante daquela época fosse justamente a falta completa de preocupação em parecer elegante. Ninguém fazia pose para fotografia. As pessoas apenas viviam, perigosamente, exageradamente, deliciosamente. Outros tempos. Outro mundo. Hoje existe luxo demais e vida de menos.

















