Culturalmente, a comida de avião é associada a ingredientes pouco criativos, que em quase nada aguçam os sentidos. E isso não se restringe apenas à classe econômica.
A qualificação dos pratos e lanches servidos com frequência faz alusão à escassez de frescor, a um gostinho simbólico de papelão. That was then… A experiência a bordo alçou novos patamares ao trazer a culinária como parte da cultura do destino final.
É assim que funciona o projeto Sabor à Brasileira, da Latam, que reúne chefs mulheres daqui e de outros locais da América Latina para criar menus inspirados nas culturas locais. As profissionais trabalham em dupla para enriquecer a oferta alimentar nos ares. Os voos entre Guarulhos e Lima, por exemplo, contam com elaborações da chef brasileira Debora Shornik (do restaurante Caxiri, em Manaus) e da peruana Andrea Suárez.
Nada mal saborear batatas assadas com salsa huancaina, um molho da pimenta ají amarillo, originário de Huancayo, terra dos pais de Andrea, no Peru.
O pirarucu, típico da região amazonense brasileira, com farofa molhadinha e quinoa, grão fortemente consumido no país andino, formam um dos um dos pratos mais elogiados do trajeto. “O menu é atualizado a cada três meses para abranger bem a América Latina,” diz Ana Youssef, gerente sênior de experiência de viagem da Latam.
A Latam conta com chef próprio que constrói os pratos com os parceiros, sejam eles as chefs da América Latina ou os serviços de catering. “Trabalhamos com ingredientes selecionados em uma estrutura de cozinha internacional,” explica Diogo Lotito de Carvalho, gerente sênior de tripulação de cabine da companhia.
Apesar do cuidado na concepção, há ainda pontos que diferenciam a comida de avião da preparada em um restaurante, afinal um voo internacional decola com mais de 38 pratos na classe executiva e 410 na econômica. “Criamos em volume. Não é todo ingrediente a bordo que fica perfeito, por isso não trabalhamos com batata frita, por exemplo. As condições de cabine não dariam a crocância esperada.”
A boa comida servida a 30 mil pés também é entregue pelas técnicas culinárias da Air France e suas adaptações cuidadosas. São utilizados métodos como o cozimento sous-vide (com sacos plásticos submersos em água quente, abaixo do ponto de ebulição) e o controle das temperaturas de serviço. A primeira classe da companhia francesa conta com um menu exclusivo criado pelo renomado Alain Ducasse, chef que acumula 21 estrelas Michelin. A proposta combina tradição a um toque contemporâneo, com clássicos como coquillettes com presunto e trufa negra e o icônico baba au Armagnac, sobremesa consagrada de Monte Carlo.
Traduzir a arte de comer como um local fez com que a americana Delta Airlines fechasse uma parceria com a chef Mashama Bailey, conhecida por se inspirar na culinária do Sul do país. A primeira classe de voos domésticos que partem de Atlanta é servida com torta hashbrown (batatas finamente cortadas e fritas até dourar) com molho de salsicha de frango e fritata com molho de tomate condimentado. Nos voos internacionais para as classes Delta One e Delta First, o chef espanhol José Andrés é quem prepara tortilla com queijo Manchego e vegetais cozidos, e o frango com molho de xerez e frutas secas. Deu água na boca aí?
















