“As mulheres não estão apenas participando, elas estão liderando a cena vínica portuguesa”. A frase é de James Suckling, um dos três críticos de vinhos mais influentes do mundo, cravada em 2025. Ele cita produtoras de vinhos excepcionais, como Filipa Pato, Rita Marques e Joana Maçanita, dentre outras. Joana é irmã de António Maçanita, uma grife contemporânea que alia identidade e ciência para produzir vinhos de personalidade com baixa intervenção. Eles começaram juntos em 2006. Hoje o negócio é grande, envolve vários sócios e abrange cinco marcas.
Joana lidera a do Douro, além de ser sócia na consultoria e gerenciar toda logística e distribuição da região Norte do país. Mas quando abrimos o site da empresa, Joana não aparece em nenhuma linha. Nem outras líderes estratégicas que posicionam a companhia no topo do mercado. “Isso já não me incomoda mais. Sabemos que temos que fazer dez vezes mais para termos o mesmo reconhecimento. O lobby masculino é uma questão social, mas as ligações afetivas é que garantem a confiança e a reputação,” diz. Foi preciso um ou mais olhares externos para dizer aquilo que já era evidente.

Jancis Robinson é crítica de vinhos do inglês Financial Times desde 1989 e vem destacando, tanto no jornal como no seu site pessoal, a contundente atuação feminina na enologia portuguesa — superior a da maioria dos países europeus. O mesmo acontece com Tim Atkin, Master of Wine britânico que já elevou algumas das enólogas portuguesas ao topo das suas listas. Sandra Tavares da Silva gabarita todas. Douro Wine & Soul e Quinta da Chocapalha em Lisboa, são geridos por ela. “Meu maior desafio é criar vinhos únicos que despertem os sentidos e memórias, com grande equilíbrio e longevidade,” diz. Para atingir seus objetivos ela conta com uma equipe que é 40% representada por mulheres.
A mudança já é inevitável: elas ainda não são maioria, mas quando aparecem, lideram na qualidade da entrega – ou seja, estão no pódio. Dados de 2024/2025 da APE, Associação Portuguesa de Enologia, apontam 35% mulheres para 65% de homens na produção e 45% mulheres para 55% homens somelières; na gestão (ou seja, na tomada de decisão) elas são apenas 16%. Mesmo que ainda desproporcional, o crescimento dos números desde os anos 90 é galopante.

Maria João de Almeida é um ícone premiado da comunicação e formação na área com vários livros publicados, dentre eles o best-seller O Vinho na Ponta da Língua, no qual traduz o “vinhês” para leigos e interessados. Mas quando começou, lá naqueles anos 90, era uma estranha no ninho. “Lembro-me de entrar numa sala de prova e ver aquele círculo de senhores sem entender quem era eu e que raios fazia ali”. Como se fosse proibido uma mulher, e ainda por cima jovem, adentrar naquele seleto grupo de cavalheiros sem pedir licença. De lá para cá foi um longo percurso. Apesar das adversidades, construiu uma carreira de sucesso e conquistou o respeito dos colegas de profissão. E como se não bastasse, para além do jornalismo e da formação, ela criou e preside a APENO, Associação Portuguesa de Enoturismo. Outra área, aliás, que vem sendo prestigiada pela gestão feminina.
Se você ama vinhos e enoturismo, já deve ter ouvido falar da Herdade da Malhadinha Nova, um símbolo da nova hospitalidade portuguesa gerida por dois casais. Destacam-se, porém, a enóloga Paula Rijo e a hospitalidade e o senso estético aguçado de Rita Andrade Soares. Rita eleva a visita às unidades, adega e restaurante (uma estrela Michelin) ao patamar de experiência memorável, com a distinção Relais Châteaux. E a lista de brasileiros que descobriu esse recanto de glamour pé no chão do Alentejo é vasta. Para além disso, ela viaja meio mundo para representar os vinhos da marca. “Vejo a luta de várias mulheres que merecem reconhecimento e sinto-me uma sortuda por sempre ter tido o apoio total dos homens à minha volta”.

Ali pertinho, no Alentejo mesmo, está Vila de Frades, uma vila romana com ruínas de dois mil anos onde ainda são produzidos os vinhos da Talha em ânforas, um método ancestral que voltou à moda com a tendência dos vinhos naturais. Teresa Caeiro é uma “miúda” de 32 anos que veio pôr ordem na própria casa e, depois, na casa dos produtores da vila. “Quando decidi largar a universidade em Lisboa para assumir o negócio da família, todos ficaram surpresos. Era algo impensável na geração da minha avó, que sequer podia entrar na sala dos vinhos. Era um assunto dos homens,” diz.
Ela criou o Geraçōes da Talha, com vinhos que ganharam reputação internacional. Mas ainda era pouco. Então, criou e preside a Associação dos Vinhos da Talha do Alentejo. Sua visão de negócio não passou despercebida e mereceu um perfil no site de Jancis Robinson, que valoriza exatamente os métodos de baixa intervenção, tão em alta hoje mas que, até outro dia, estava praticamente abandonado pelos homens da família de Teresa.

São tantas mulheres que encabeçam e revigoram projetos assim que Rita Nabeiro, CEO da Adega Mayor e representante da terceira geração de uma das famílias mais bem-sucedidas no ramo empresarial português, fundou o D’Uva Portugal Wine Girls. “O grupo surgiu de uma vontade muito natural de partilha e de colaboração. Todas já sentíamos a necessidade de trabalhar em rede, de trocar experiências e de pensar o vinho português de forma mais coletiva,” diz. Um dos frutos desta parceria é o Amálias 100 da colheita de 2020, ano em que se celebrou o centenário do nascimento do ícone do fado português, Amália Rodrigues. Elas criaram um blend de Portugal, elaborado a partir de várias castas e de vinhos provenientes de diferentes regiões do país — Alentejo, Lisboa, Dão e Douro —, resultando numa garrafa magnum que celebra a diversidade, a identidade e a riqueza do vinho local. E o fato de ser unida a outras grandes players do mercado, impõe naturalmente uma voz feminina que já não é possível calar. “Há uma nova geração de mulheres no vinho — enólogas, gestoras, produtoras — que não pedem mais espaço, ocupam-no naturalmente,” diz.

Elisabete Fernandes é Diretora de Vinhos do The Yeatman, que detém uma das maiores cartas de vinhos portugueses do mundo, além de duas estrelas Michelin no restaurante. São trinta mil garrafas e 1.700 referências diferentes nas caves do hotel que fica em Vila Nova de Gaia, no Porto. Na empresa desde 2010, Elisabete é conhecida por uma curadoria que dá espaço para enólogas mulheres, projetos de vinhas velhas, baixa intervenção e castas autóctones. Aos 43 anos, ela é uma referência para quem quer se aventurar no mercado. “Vejo isso com muita responsabilidade. Se o meu percurso puder inspirar outras mulheres a acreditarem que é possível construir uma carreira sólida e apaixonante no setor do vinho e hotelaria, então sinto que isso tem um verdadeiro significado”.
E quem a inspirou? “Antónia Adelaide Ferreira, um nome incontornável na história dos vinhos em Portugal”. Sim, essa coisa das mulheres no vinho português não é de hoje. A empresária pioneira que ela cita assumiu os negócios da família aos 26 anos, depois de perder o pai e o marido em 1853. Inovadora, replantou vinhas após uma praga do século XIX, investiu em técnicas de vinificação, defendeu qualidade e denominação de origem. Era conhecida por cuidar dos trabalhadores, fundou escolas, hospitais e distribuía alimentos nos anos de baixa colheita, recebendo o título de “Dama do Douro”. Morreu em 1896, mas seu legado abriu caminhos inimagináveis para a época, refletidos hoje no desabrochar de tantos nomes e talentos. A notícia é tão boa e consistente que já é possível fazermos um roteiro riquíssimo de enoturismo em Portugal, prestigiando só essas mulheres maravilhosas do vinho tuga. Que tal embarcar nessa? Saúde!
6 dias de vinho em Portugal, do Norte ao Alentejo
Reserve com duas ou três semanas de antecedência
Dias 1 e 2
Porto, The Yeatman
Base: The Yeatman Hotel, Vila Nova de Gaia.
Foco: a carta e a visão da Elisabete Fernandes, Diretora de Vinhos.
Por que começa aqui: é o melhor lugar para entender a diversidade de Portugal antes de se aventurar pelo país.
Dia 1: check-in, jantar no restaurante Michelin. Peça pela prova de vinhos portugueses de guarda, boa chance de provar brancos do Dão/Bairrada com mais de 10 anos.
Dia 2: manhã na The Yeatman Wine School. Tarde livre em Gaia para visitar caves de Porto. No jantar, peça um tinto da produtora da carta própria para entrar no clima do roteiro.
Dia 3
Douro, Joana Maçanita
Distância: 1h45 de carro do Porto.
Foco: Joana Maçanita, enóloga e viticultora de São João da Pesqueira.
Agende uma visita à Quinta da Urze ou à Maçanita Vinhos. O projeto dela é conhecido por:
Vinhas velhas em altitude, agricultura de precisão
Brancos com mineralidade e tintos finos do Douro
Abordagem técnica e muito foco em terroir
Dica: peça para provar o Curto Circuito branco e um tinto de vinha velha. Reserve o almoço na Quinta.
Dia 4
Lisboa, Belcanto Lisboa
Distância: 3h30 de carro do Douro.
Foco: curadoria de Pâmela Pontes, head sommelière.
Não produz vinho mas é parada obrigatória para ver uma carta de excelência, com 40% dos vinhos produzidos por enólogas. Na cidade, aproveite para visitar a Garrafeira Nacional para boas compras.
Dia 5
Alentejo, Malhadinha Nova
Distância: 2h de Lisboa.
Foco: Rita Soares (hospitalidade) e Paula Rijo, enóloga e diretora de produção da Malhadinha Nova, em Albernôa.
A Malhadinha é referência em enoturismo de luxo no Alentejo. Na visita, passeie pelas vinhas e adega com foco em vinhos de talha e tintos de lote, prove os vinhos topo de gama com a Paula ou a sua equipe e fique para o jantar na Herdade, que tem vista para a vinha e usa produtos da quinta.
Dia 6
Alentejo, Gerações da Talha e Adega Mayor
Base: Região de Campo Maior/Évora Monte.
Foco: Duas gerações de mulheres a trabalhar talha.
Na parte da manhã, conheça a Gerações da Talha, com Teresa Caeiro. Vinhos de talha 100% familiar em pequena escala, com castas tradicionais do Alentejo. A visita é caseira, direto na adega, um contraste perfeito com a Malhadinha. Na parte da tarde, vá para a Adega Mayor, em Campo Maior, com projeto arquitetônico de Siza Vieira e liderada por Rita Nabeiro. Prove o Alentejo branco e o Grande Escolha, tinto. A visita foca na relação entre arquitetura, paisagem e vinho.

















