Em “Filhos da mãe gentil”, uma ficção com os pés no Brasil real

Em “Filhos da mãe gentil”, uma ficção com os pés no Brasil real

Livro mistrura ficção e realidade ao cruzar bicheiros, políticos e startups no Brasil contemporâneo

Filhos da Mãe Gentil – a estreia de Roberto Feith na ficção – parte do encontro de um jornalista veterano, decadente e em crise emocional e financeira com um carioca mimado de vinte e poucos anos, filho de um grande bicheiro, e que fracassa diariamente na tentativa de se provar ao pai. (Compre aqui)

A esses protagonistas juntam-se outros, como o fundador de uma startup de AI que quer revolucionar o investimento de varejo no mercado de capitais, seus sócios na empresa – milionários, poderosos e arrogantes – e uma jovem executiva que venceu todas as barreiras sociais e, aos 30 anos, tem uma ótima posição em uma multinacional de tecnologia mas despreza seus superiores.

Esses e outros personagens que vão surgindo ao longo da trama, e os inúmeros encontros e desencontros entre eles, esmaecem pouco a pouco a fronteira entre ficção e realidade.

Para envolver o leitor, Feith une sua pena afiada de jornalista e correspondente internacional da TV Globo à capacidade do editor que transformou a Objetiva em uma das maiores editoras do País, e ainda à vivência do empresário que, cerca de 20 anos depois, vendeu o negócio para a Prisa-Santillana.

Para mim não foi surpresa.

Conheci Feith em 2020, quando ele criou o selo de não-ficção História Real, em parceria com a Intrínseca. Ele me convenceu a escrever um livro, editado por ele, sobre minha aventura eleitoral em 2018, como candidato ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Testemunhei, então, a sucessão de pequenos prodígios que a sensibilidade e a paciência de um grande editor podem realizar.

Filhos da Mãe Gentil é dividido em três partes. Na primeira, Feith apresenta os protagonistas e estimula a percepção da potencial conexão e das primeiras tensões entre eles. Na segunda, a ficção vai desnudando a realidade brasileira, no que parece ser  seu verdadeiro leitmotif. É irresistível buscar nos personagens os protagonistas da vida real.

O fora-da-lei tradicional – o bicheiro do Rio – ganha a companhia de bandidos legalizados, empresários sem limite moral, políticos corruptos, lobistas corruptores e muitas manifestações do infinito amor-próprio de todos eles.

É a essa altura, aliás, que surge no livro a Comissão de Valores Mobiliários. A CVM não é a única entidade real mencionada entre tantos personagens, mas aparece muito. A estranheza de dar com o nome daquela instituição cinquentenária na boca de lobistas me obrigou a uma pausa. Mas em pouco tempo retomei a leitura, conformado. Era ficção, mas não era exagero.

A parte final do livro é um thriller, e dos bons. Ganha-se completa intimidade com os protagonistas, para o bem e para o mal. A humanidade de cada um – seus melhores desejos e piores sentimentos – é testada em meio ao suspense quanto ao desfecho. Uns saem-se bem; outros, nem tanto. Mas a ficção, como deveria, deixa o julgamento moral ao leitor.

Mesmo sob a tensão da sucessão dos acontecimentos finais do livro, da curiosidade sobre o desfecho, da irritação com a burrice de um personagem ou a torcida pelo sucesso de outro, ainda assim é impossível ao leitor não se enxergar um pouco em cada um deles.

Mergulhados nos acontecimentos da ficção, ainda assim os sentimos como se fossem reais – porque já os vimos e continuamos a ver, mais de perto ou mais de longe, como bons filhos que somos da mesma mãe gentil.

Marcelo Trindade é advogado, professor de Direito na PUC-Rio, e foi presidente da CVM.