
O Brasil virou laboratório da alta joalheria. E o mundo está prestando atenção
Com um mercado que cresce quatro vezes mais rápido que a média global, o país redefine o luxo através da autoexpressão. Piti Vieira conversou com Elodie Thellier, presidente da Bvlgari para a América Latina e Caribe, sobre as tendências para 2026
A palavra-chave para 2026, segundo os especialistas e as passarelas da Paris Fashion Week, é “autoexpressão”. E ninguém parece entender melhor esse movimento que o consumidor brasileiro. No universo da alta joalheria, essa busca por identidade está redefinindo as regras do jogo. Enquanto o mercado global flerta com a discrição do quiet luxury, o Brasil aposta em cores vibrantes, peças que contam histórias e um design que funciona como extensão da personalidade. O resultado é um mercado que cresce quatro vezes mais rápido que a média mundial, impulsionado por um consumidor que vê na joia menos um símbolo de status e mais um veículo de expressão pessoal.
Essa intencionalidade se reflete nas cinco principais motivações de compra identificadas pelo estudo “A nova era do mercado de luxo no Brasil”, divulgado em outubro pela consultoria americana Bain & Company, que vão da celebração de conquistas (memória afetiva) à demonstração de influência (autoridade) e à integração social (pertencimento). Em um país onde o mercado de joalheria deve saltar de US$ 15,3 bilhões em 2025 para US$ 21,8 bilhões em 2030, a autoexpressão não é apenas uma tendência estética, mas um pilar de negócios.
A autoexpressão se desdobra em cinco grandes tendências que estão moldando o que veremos nas vitrines e nos cofres nos próximos anos. A primeira é a transformabilidade. Peças que se adaptam, que mudam de função – um colar que vira bracelete, um pingente que se torna um broche –, são a resposta da alta joalheria a um estilo de vida que exige versatilidade.
A segunda é a personalização e o storytelling. O consumidor não quer apenas uma gema preciosa; ele quer uma história. Medalhões que guardam fotografias, pendentes com símbolos de proteção, anéis que marcam conquistas pessoais – cada peça se torna um capítulo de uma narrativa individual. “O futuro da alta joalheria continuará a focar em personalização, versatilidade e, em última análise, em um storytelling significativo”, aponta Elodie Thellier, presidente da Bvlgari para a América Latina e Caribe, em entrevista ao Brazil Journal.
As cores vibrantes e as gemas como protagonistas formam a terceira tendência, um contraponto direto à paleta neutra do quiet luxury. Verdes intensos, azuis profundos e roxos marcantes ganham o centro das atenções, com a criatividade do design partindo da própria pedra. “Para nós, muito da criatividade vem das gemas que encontramos na natureza”, diz Thellier.
A sustentabilidade, quarta tendência, deixou de ser um diferencial para se tornar um padrão da indústria. Com consumidores cada vez mais conscientes, a rastreabilidade da cadeia de suprimentos e o uso de materiais certificados são inegociáveis. “A sustentabilidade é um pilar-chave. Clientes na América Latina estão valorizando cada vez mais as marcas que demonstram cuidado com o meio ambiente”, afirma Thellier.
Por fim, a expansão da joalheria masculina solidifica-se como a quinta grande tendência. O que antes era território quase exclusivo dos relógios agora se abre para anéis, braceletes e até colares de gemas. O interesse dos homens por peças que vão além dos relógios cresce em toda a América Latina, com nuances regionais. “No Brasil, a tendência é mais sutil, com foco em anéis. Já no Caribe, vemos homens interessados em grandes colares com gemas”, detalha a executiva.
O que torna o Brasil um mercado tão particular e influente nesse cenário está em uma combinação de fatores econômicos, culturais e comportamentais que fazem do país um laboratório único para a indústria global. Além do crescimento exponencial, a mudança de comportamento do consumidor é um fator-chave. A pandemia acelerou uma tendência de compras locais, com os brasileiros adquirindo peças de luxo no próprio país, em vez de comprá-las em viagens ao exterior. Isso forçou as marcas a investirem em experiências mais sofisticadas e personalizadas em solo nacional.
O perfil do consumidor de luxo aqui também é distinto: mais jovem (na faixa dos 42-43 anos, segundo dados da Bvlgari) e com maior equilíbrio de gênero em comparação com a média global. “O luxo na América Latina está evoluindo para um modelo mais sofisticado, experiencial e profundamente pessoal”, analisa Thellier. “Os clientes buscam mais do que bens materiais: eles querem significado, experiências que ressoem emocionalmente.”
Esse movimento explica a expansão de grandes marcas para além do eixo Rio-São Paulo, com novas lojas em cidades como Goiânia e um crescimento robusto nas regiões Centro-Oeste e Nordeste. A Tiffany abriu sua maior flagship da América Latina em São Paulo em dezembro de 2024 e inaugurou uma loja em Goiânia em novembro. A Chanel inaugurou uma butique de perfumes e beleza na mesma cidade. A Hermès está relocando sua operação no Rio para o Village Mall, também previsto para este ano ainda.
O Brasil, que já responde por 45% do mercado de joalheria da América Latina, ainda é visto como um mercado em amadurecimento, com enorme potencial de crescimento. “Há muito espaço para crescimento comercial”, afirma Thellier. “Se analisarmos os últimos quatro anos, a participação brasileira em nossos negócios aumentou significativamente e continuará assim. Tenho muita confiança no futuro do Brasil.”
Nos próximos cinco anos, a indústria da alta joalheria será definida pela capacidade das marcas de conectar seus produtos a narrativas pessoais e valores como a rastreabilidade completa da cadeia de suprimentos, do garimpo à butique, que deixará de ser um diferencial para se tornar uma exigência básica. O luxo e a responsabilidade, como diz Thellier, “podem e devem coexistir”. A autoexpressão, seja através de uma gema colorida, de uma peça transformável ou de um design que conta uma história, será a moeda mais forte.


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