A loucura de construir um castelo medieval em 2026

A loucura de construir um castelo medieval em 2026

O Château de Guédelon resgata a Idade Média ao reconstruí-la pedra por pedra diante do público

LYON, França –  Esqueça museus silenciosos e ruínas estáticas. No coração da Borgonha, o Château de Guédelon resgata a Idade Média ao reconstruí-la pedra por pedra diante do público, utilizando as mesmas técnicas, ferramentas, transportes e ritmos do século XIII. Trata-se de um dos maiores ensaios de arqueologia experimental do mundo, atraindo mais de 300 mil visitantes por ano na floresta próxima a Treigny.

Por trás desse feito estão Michel Guyot e Maryline Martin. Guyot, proprietário e restaurador de castelos, é a mente criativa e o idealizador do projeto. Em 1979, ele adquiriu as ruínas do Château de Saint-Fargeau e descobriu fundações medievais sob a estrutura, inspirando-se para construir um castelo do zero com métodos do século XIII. Maryline Martin, cofundadora e diretora do projeto, possui vasta experiência em empreendedorismo social. Ela se juntou a Guyot em 1997 e foi a responsável por transformar a ideia em uma realidade financeira e operacional viável, viabilizando o bem-sucedido modelo de autofinanciamento do parque.

A empreitada funciona sem motores, eletricidade, betoneiras ou o sistema métrico moderno. Durante a temporada de atividades (que vai de março a novembro), mais de 40 artesãos e especialistas, entre pedreiros, carpinteiros, ferreiros, tecelões e ceramistas, trabalham vestidos com trajes de linho e couro para testar a ergonomia real da época.

Florian Renucci, arquiteto do projeto, é quem desenha os planos, garantindo que cada detalhe respeite rigorosamente os conhecimentos medievais. "Trabalhamos sem as facilidades modernas, assim como faziam nossos antepassados, que não tinham acesso ao cimento ou ao petróleo, por exemplo. Usamos apenas o cavalo e a força humana," diz Renucci. "Trabalha-se à mão e organizamos cavalos para o transporte dos materiais. Foi preciso reestruturar o canteiro e reaprender a conduzir os animais, além de aprender a cortar uma árvore para transformá-la em viga, descascando-a como uma cenoura."

Renucci lembra que, desde a Antiguidade até o século XIX, absolutamente nenhuma grande obra, seja o Château de Versailles ou a Catedral de Estrasburgo, utilizou tecnologia moderna. O içamento dos pesados blocos de rocha em Guédelon é feito por guindastes de madeira conhecidos como "rodas de andar", e as medições utilizam dimensões corporais calibradas por um padrão do próprio canteiro.

O impacto científico desse canteiro vivo vai muito além de suas fronteiras. A experiência prática acumulada na Borgonha foi fundamental na reconstrução da Catedral de Notre-Dame de Paris, após o trágico incêndio de 2019. Diante da perda histórica dessas artes manuais na Europa, a equipe de restauração de Notre-Dame recorreu a Guédelon para recuperar a autenticidade das técnicas medievais."Para obter a autenticidade em Notre-Dame, era preciso esculpir vigas específicas, mas restavam pouquíssimos carpinteiros no mundo com essa técnica, que havia praticamente desaparecido," diz Renucci.

Em Guédelon, os ferreiros foram encarregados de forjar os machados artesanais e as ferramentas adequadas, enquanto os carpinteiros do projeto treinaram as equipes responsáveis por refazer a secular estrutura de madeira da catedral parisiense. Ali não se utiliza cimento industrial: a liga das pedras é feita com argamassa de cal queimada no próprio local.

O projeto busca reconectar a construção civil com a natureza. Os artesãos realizam um duplo papel: a produção técnica e a mediação cultural, construindo o castelo 100% diante dos olhos do público. Mais do que um ponto turístico, Guédelon tornou-se uma escola e um laboratório vivo, um local que transmite a futuros operários, arquitetos e urbanistas gestos que não são mais ensinados hoje.

"Quando se quer colar pedras, usa-se cimento. Mas antigamente, comprava-se a pedra calcária e produzia-se a cal. Em 2011, mestres calceiros espanhóis vieram ao canteiro para nos ensinar a fazer essa queima. Todos os muros e materiais dos castelos medievais foram queimados no próprio canteiro de obras," diz o arquiteto.

Essa busca prática pela verdade histórica também gerou descobertas arqueológicas que mudaram o entendimento de especialistas. Um dos maiores desafios do canteiro foi entender como os construtores medievais posicionavam a chave de abóbada em uma estrutura de cruzaria de ogivas. "Os historiadores e especialistas do patrimônio acreditavam que a chave de abóbada era colocada por último, como um fecho. Mas percebemos na prática que isso era impossível," diz Renucci. "A chave de abóbada, que recebe as várias nervuras, é colocada em primeiro lugar sobre os moldes de madeira. Em seguida, são ajustados os elementos que vão em cada direção."

Outra grande realização do canteiro foi o moinho hidráulico de farinha, fruto de uma parceria de três anos com arqueólogos do Inrap (Instituto Nacional de Pesquisas Arqueológicas Preventivas). O moinho foi reconstruído a partir de vestígios de uma estrutura do século XII e hoje produz farinha diariamente no coração da floresta.

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