Tripulação, 10 mil pés: o aviso do piloto no sistema de som do avião marca o momento em que o voo realmente começa. A decolagem foi bem sucedida, os sinais luminosos do cinto de segurança acabam de apagar e a convivência com a equipe e as outras centenas de passageiros passa a acontecer de verdade.
O avião talvez seja o único lugar do mundo onde escolhemos ficar trancados por horas ao lado de um estranho — sem poder sair, sem poder pedir para ele sair e, pior, sem qualquer garantia de bom comportamento alheio.
Em 2025, nos EUA, a Federal Aviation Administration registrou uma média de 4,5 incidentes por dia com passageiros desordeiros (ou sem noção mesmo), apesar da política de tolerância zero implementada nos últimos anos.
A maioria dos casos era relacionada ao consumo excessivo de álcool, abuso verbal e até a busca por engajamento nas redes sociais. Por lá, desde a pandemia, os passageiros já foram multados em mais de US$ 20 milhões.
Nos céus brasileiros, o relatório da Associação Brasileira das Empresas Aéreas registrou 1.764 casos em 2025 — 66% a mais do que no ano anterior, uma curva que só tem crescido.
Os episódios mais graves incluem agressões físicas, tentativas de invadir a cabine do piloto e casos de importunação sexual. A resposta da ANAC veio em março deste ano, com aprovação de uma resolução que prevê punições pesadas a partir de setembro de 2026: multas que podem chegar a R$ 17.500 e suspensão do direito de embarcar em voos domésticos por até 12 meses.
Lembra do piolho do portão de embarque? Pois saiba que a tripulação a bordo também tem um código secreto para registrar a presença de um passageiro irritante ou mal-educado. Se a equipe te apelidar de Philip, pode esperar que o serviço não será dos mais atenciosos.
Que tal evitar?
• O embarque na aeronave é um momento crucial: mesmo que o voo não esteja atrasado, cada segundo conta. Organize-se para seguir a regra tripla: entrar, guardar, sentar. Não bloqueie o corredor enquanto reorganiza a bolsa, procura o cabo do celular, tira o casaco e encaixa a mala no bagageiro como se não houvesse uma fila atrás de você.
• Sim, bolsas e mochilas ficam embaixo do assento à sua frente. Não é hora de discutir regras que nem são novas, apenas obedeça. Se o voo estiver mais vazio, é possível que os comissários liberem o uso do bagageiro após a decolagem.
• Por falar nisso, a posição ideal para sua mala de bordo é com as rodinhas para dentro e deitada — ou, se o bagageiro permitir, virada de lado, como um livro na prateleira. Assim, economiza-se espaço e a retirada é facilitada.
• Se não há lugar nos bagageiros próximos ao seu assento, peça ajuda da tripulação. Não é legal tentar reorganizar as malas alheias por conta própria. Em voos lotados, é perfeitamente normal que sua bagagem viaje algumas fileiras à frente ou atrás de você. Não transforme isso num conflito diplomático.
• Nas últimas décadas, a largura média das poltronas da classe econômica encolheu — e isso vale para praticamente qualquer companhia aérea do mundo. Ou seja, não é exatamente confortável para ninguém. Mas isso não abre o direito de invadir o espaço do vizinho com joelho, cotovelo ou bolsa. Ocupe apenas o seu espaço.
• Essa regra vale nas laterais mas também para a frente: ao esticar as pernas, vigie para não chutar o tornozelo do outro passageiro.
• Para quem tem cabelo comprido, vale atenção extra para que ele não invada por cima do encosto. Acredite se quiser, é uma queixa bem comum ter que lidar com um rabo de cavalo selvagem que cobre a tela do entretenimento a bordo.
• Está na econômica? Não tente dar o truque e sentar naquelas fileiras que custam um valor a mais ou invadir a executiva. Os comissários têm a lista de passageiros e você pode ser convidado a se retirar.
• Já reparou que todo mundo vira um pouco contorcionista na hora de tentar ficar mais confortável durante um voo longo? Lembre-se que os pés ficam no chão. Não é legal apoiá-los na parede, no apoio de braço, no encosto da poltrona à frente, na coxa do passageiro ao lado.
• Não é exatamente um crime tirar os sapatos para ficar mais confortável. Porém, as meias ficam.
• Vai circular? Calce os sapatos. Especialmente se for ao banheiro.
• Não ocupe a cabine do banheiro para trocar o look, fazer make completo ou qualquer ritual que demore mais do que poucos minutos.
• Se o banheiro da econômica estiver com fila, não tente usar o toalete da executiva. Invadir essa divisão só vale em caso de emergência.
• A divisão do apoio de braço é uma discussão eterna. Mas a regra é (mais ou menos) clara: o passageiro do meio tem prioridade.
• Quem senta na janela controla a persiana. Não se estique por cima do vizinho para fechar ou abrir sem pedir (a não ser que a tripulação peça, claro).
• Dito isso, leia o ambiente. Se todos os outros passageiros fecharam as persianas num voo noturno e a sua é a única aberta, o clarão está incomodando a todos.
• O vizinho colocou fone, está de óculos escuros, abriu o livro ou fechou os olhos? Claramente não está a fim de papo.
• Nem adianta negar: todo mundo sabe que você olhou o filme da tela ao lado. Mas resista à vontade de comentar sobre. Em um ambiente sem privacidade, nos agarremos ao mínimo que temos.
• Decidiu levar um snack por conta própria? Tenha bom senso e pense que avião não tem vento: estão todos respirando o mesmo ar. Portanto, opte por comidas sem odor.

• No mesmo quesito, não abuse de perfumes. Eles tendem a ficar mais fortes em um ambiente pressurizado.
• Fones de ouvido valem para tudo, em qualquer hipótese.
• Isso vale também para as crianças. Colocou Galinha Pintadinha? Sem fones, a galinha precisa estar muda.
• Bebês choram. Não constranja os pais: eles estão mais em pânico com os altos decibéis infantis do que você.
• Intolerável mesmo é a criança que chuta o encosto da poltrona à frente. Não normalize nem espere o passageiro virar e pedir ajuda: essa responsabilidade é de vocês, mom & dad.
• Caminhar alguns minutos durante um voo longo é ótimo para a circulação. Só não transforme o corredor do avião em calçadão. Evite ficar parado conversando, fazendo alongamento ou formando uma rodinha perto da galley (a cozinha do avião). Além de atrapalhar o serviço de bordo, aquele espaço é a área de trabalho da tripulação, não um lounge.
• Roncar é involuntário, acontece. Tem histórico? Vale avisar o vizinho, que vai poder te dar uma cutucada sem drama.
• Pode acontecer, mas cair no sono no ombro de um estranho não é fofo. Se ganhou uma cotovelada discreta, peça desculpas e reforce o apoio da cabeça.
• Se você escolheu a janela, cedo ou tarde vai precisar acordar alguém para ir ao toalete. Sem drama: um toque leve, um “com licença” e pronto. Da mesma forma, quem está no corredor não deve bufar toda vez que precisar levantar. Faz parte do contrato social do assento.
• Há quem prefira sofrer em silêncio a acordar os passageiros ao lado. Não seja essa pessoa. Pedir licença é infinitamente menos constrangedor do que tentar escalar duas pessoas adormecidas como se estivesse atravessando uma trilha.
• Outra polêmica no ar: a troca de assento. Sem constrangimento, você sempre pode dizer não. Ponto. Exceto se o pedido venha da equipe de voo — então, eles terão um bom motivo para tal.
• Quer pedir para trocar? Explique o motivo (válido) e tente um assento equivalente. Não ache que é razoável oferecer uma poltrona do meio, no fundo do avião, para alguém na janela da fileira 10. Ganhou um não como resposta? Vida que segue.
• Não ocupe o assento alheio esperando que a pessoa vá trocar.
• O botão para chamar a tripulação de cabine pode ser ardiloso a depender da cultura. Em companhias asiáticas, é tratado como protocolo. Nas ocidentais, costuma ser encarado como ligeira emergência — e o seu pedido vai ser mal recebido se você não tiver um problema sério. Se vai só pedir uma água ou o fone de ouvido, tente um contato visual antes.
• Não cutuque, puxe ou toque fisicamente o comissário para chamar atenção. Evite apelidos como “querida” ou “boneca”. Lembre-se sempre que ninguém do staff de voo está à sua disposição exclusiva, nem na primeira classe: eles têm um avião inteiro para cuidar com segurança.
• Básico: obedeça ao sinal de afivelar os cintos a qualquer aviso da equipe de bordo. Não seja o passageiro que insiste em levantar durante uma área de turbulência ou resolve ir ao banheiro na hora errada. Um avião é um lugar de leis rígidas — para o bem de todos.
• Aliás, quem manda dentro do avião é a tripulação. Não é o caso de bate-boca: nessa situação de poder, você sempre estará errado. Evite problemas que podem chegar a situações mais sérias, como a Polícia Federal te esperando no desembarque.
• Na hora do desembarque, deixe a afobação de lado. Ninguém vai sair mais rápido por ficar em pé enquanto a porta nem foi destravada. E aguarde a vez da sua fileira, afinal a regra é simples e não existem atalhos: quem está à frente, sai primeiro.
Vai de executiva ou primeira classe? Então anota essas dicas:
• Chinelo e bermuda de praia são roupas inadequadas em qualquer classe, mas aqui não há necessidade de envergar um terno para impressionar o ambiente. Um smart casual é um bom mínimo.
• A companhia ofereceu pijamas para um voo longo? Espere o serviço de boas-vindas antes de se trocar — no banheiro, não na poltrona.
• Na primeira classe, a expectativa de privacidade é ainda maior do que na econômica ou na executiva. Foto da poltrona e da refeição está liberada; do vizinho ao lado, fora de cogitação.
• Não tente beber o preço da passagem em champanhe. Além do óbvio risco de embarque negado no próximo voo, é um pouco constrangedor (e você sempre pode acabar passando mal).
• O mesmo vale para a comida. É mais que aceitável provar o menu, mas exageros não são necessários. Se o avião tiver a possibilidade de servir um docinho a mais, com certeza eles farão.














