Quase nunca uso terno. A última vez havia sido no casamento de uma de minhas filhas.
E não é que minha mãe me pediu para usar um no casamento dela?
Sim. Ontem acompanhei minha mãe – fazendo o papel do pai da noiva – em seu casamento.
O noivo era meu pai, prestes a completar 91 anos!
Não foi a primeira vez que eles se casaram. Nem a primeira vez um com o outro.
Minha mãe começou a namorá-lo aos 19 e se casou com ele aos 21. Depois de 25 anos de casamento, divorciaram-se.
Meu pai voltou a se casar e viveu outros 25 anos com sua segunda esposa. Minha mãe teve dois relacionamentos importantes. Cada um seguiu sua vida e construiu outra história.
Até que, há cerca de 15 anos, se reencontraram e voltaram a namorar.
No início, cada um continuou morando em sua própria casa. Viajavam juntos, saíam juntos e frequentemente dormiam na casa um do outro.
Há alguns anos, voltaram a morar juntos.
E ontem decidiram se casar novamente.
No livro de mensagens da cerimônia, meu pai escreveu que as palavras deixadas pelos convidados seriam:
“Um presente que guardaremos para sempre.”
O que mais me chamou a atenção foi o verbo: guardaremos.
Não é a linguagem de quem está encerrando uma história. É a linguagem de quem ainda se sente no meio dela e espera viver muitos outros capítulos.
Talvez essa disposição para o futuro venha de família.
Meu avô materno chegou ao Brasil vindo da Itália, aos 18 anos, apenas com a roupa do corpo. Passou a fazer sapatos à mão e tornou-se um grande e reconhecido sapateiro.
Quando completou 100 anos, levei-o para passear pela Praça da República, onde havia morado, criado a família e mantido sua loja.
As lembranças eram maravilhosas, mas ele não vivia preso ao passado. Naquela época, estava procurando uma nova companheira.
Aos 101 anos, casou-se pela segunda vez. Ao assinar os documentos, comentou:
“É a última vez que me caso. Dá muito trabalho.”
Viveu feliz com ela até os 102 anos, quando morreu em casa, segurando sua mão e sorrindo.
Meu pai parece ter essa mesma disposição de olhar para a frente.
Aos 86 anos, projetou e começou a construir a casa para quando se aposentasse. É nessa casa que hoje ele e minha mãe vivem felizes.
Aos 90, escreveu seu segundo livro - não necessariamente o último.
Minha mãe, por sua vez, continua planejando novas viagens e animadas festas - sempre com disposição e algo novo no horizonte.
Talvez longevidade não seja apenas viver muitos anos.
Talvez seja continuar conjugando a vida no futuro.
Construir outra casa.
Escrever outro livro.
Planejar outra viagem.
Retomar um amor.
Dizer “sim” novamente.
Ontem, meus pais não celebraram apenas tudo o que já viveram.
Disseram sim ao que ainda pretendem viver.















