Seria possível libertar a humanidade da guerra? Pondé responde

Seria possível libertar a humanidade da guerra? Pondé responde

Em novo livro, Luiz Felipe Pondé analisa cartas entre Einstein e Freud para refletir sobre questões contemporâneas

Para buscar respostas a questões tão presentes e contemporâneas, o filósofo Luiz Felipe Pondé foi estudar um texto publicado há mais de nove décadas. 

Não é um texto qualquer. Trata-se do encontro de duas das figuras mais importantes e fundamentais do século passado: o cientista alemão Albert Einstein (1879-1955) e o austríaco Sigmund Freud (1856-1939), fundador da psicanálise.

Em 1932, Einstein vendo que a Europa já sentia os sinais da ascensão do nazifascismo e poderia sofrer o impacto de um novo conflito global enviou uma carta a Freud em que lançava uma questão tão objetivamente simples quanto filosoficamente complexa: “Seria possível libertar a humanidade da ameaça da guerra?”.

A relação epistolar que se estabeleceu a partir de então mostra como os dois intelectuais compreenderam e se posicionaram a respeito dos acontecimentos. 

E também, como o futuro imediato demonstraria, as perspectivas eram ainda piores do que todos os diagnósticos analisados pelos dois. 

O conteúdo dessas conversas está agora reunido no livro Einstein Pergunta, Freud Responde, Pondé Comenta (Editora Amarilys). A edição é ampliada pelas notas técnicas do psicanalista Julio Affonso Branco e por um ensaio escrito por Freud em 1915, logo após a eclosão da Primeira Guerra Mundial. 

Responsável pela organização dos textos e pelo prefácio crítico, Pondé vê pontos de contato entre aquele período dos anos 30 e os dias atuais. 

Às vezes pessimista, Pondé — que chegou a afirmar recentemente ao Brazil Journal, “que o intelectual pode vir a se transformar numa figura irrelevante” — recupera em uma de suas respostas na entrevista a seguir o pensamento do inglês Thomas Hobbes (1588-1679). 

Para Hobbes, a teoria central, descrita em sua principal obra, o Leviatã, é de que a humanidade, em seu “estado de natureza”, viveria em um caos de guerra e medo constante.

Ou seja, tanto antes, quanto agora, os conflitos armados não podem ser entendidos apenas como acidentes de percurso ou falhas diplomáticas. 

Como Freud argumentou, a destrutividade não é uma anomalia conjuntural, mas uma força pulsional e constitutiva da experiência humana. A seguir, a entrevista: 

Como foi para você ler (ou reler) esses textos e elaborar uma reflexão a partir dos pensamentos desenvolvidos por Albert Einstein e Sigmund Freud?

Foi muito tranquilo porque conheço bem o pensamento do Freud e a carta do Einstein pressupõe expectativas iluministas das quais o Freud não partilha. Portanto, localizei os dois na história da filosofia moral e, com relação ao Freud, estabeleci um esboço da sua antropologia filosófica ou concepção de natureza humana.

O que a troca de ideias entre Albert Einstein e Sigmund Freud tem a nos ensinar quase um século depois? O que mudou nesse período?

Não mudou muita coisa com relação às expectativas iluministas do Einstein. Muitos de nós continuamos a alimentar essa utopia do progresso moral humano. Mas a verdade é que não tivemos nenhuma guerra da magnitude das duas mundiais, o que significa, de alguma forma, um voto de confiança para o conselho de segurança da ONU. A instituição que o Einstein sonhava existe numa menor medida, mas funcionou até aqui.

Quanto ao Freud, seu ceticismo com relação à disposição humana para a violência continua valendo, inclusive em termos de guerras de menor proporção e todas as formas de crime organizado internacional.

As guerras passaram nesse período por uma série de avanços tecnológicos, mas a essência parece ser permanente. Qual seria essa essência?

Segundo Freud essa “essência” é a pulsão de agressividade. Ela, como a erótica, é permanente. A civilização em alguma medida a acomoda, mas nunca a extermina, e se isso acontecesse, deixaríamos de ser humanos, sem esportes, sem sexo, sem alimentação. As duas pulsões, Eros e Thanatos, atuam misturadas, mesmo na guerra que também produz prazer onde pessoas encontram vivências de virtudes como coragem e resiliência.

E como essa agressividade se consolida a partir do aspecto específico da polarização, sobretudo nas redes sociais e na militância digital mais agressiva?

Política é o território da violência, disse Francis Fukuyama. Portanto, as redes sociais reproduzem e multiplicam a prática dessa violência na polarização. O erro foi assumirmos que somos seres prioritariamente racionais, quando somos muito mais dominados por pulsões. A adesão aberta à militância sempre tendeu a violência, não há novidade nisso, as redes ampliaram esse exercício, antes de tudo, na forma verbal, mas ainda poderá disparar eventos hobbesianos.

A pergunta direta feita por Einstein a Freud se mantém: seria possível libertar a humanidade da guerra?

Acho muito difícil. Mas, talvez, guerras mundiais por enquanto me parecem inviáveis.