BASILEIA, Suíça — Durante anos, os PDFs enviados antes das feiras deslocaram progressivamente o centro de gravidade do mercado: as melhores obras podiam ser reservadas antes mesmo da abertura, reduzindo muitas vezes a visita presencial a uma simples confirmação de transações já negociadas.
Com o Basel Exclusive, a Art Basel tenta inverter essa lógica. Pela primeira vez, as galerias participantes foram convidadas a manter determinadas obras inteiramente confidenciais até a abertura VIP: sem imagens, preços ou previews digitais.
Para ter acesso a elas, havia apenas uma solução, vir aqui a Basileia.
Criada em 1970 pelos galeristas locais Ernst Beyeler, Trudl Bruckner e Balz Hilt, a Art Basel busca, assim, restaurar o valor comercial da presença física. Trata-se de uma resposta indireta à crescente força de Paris, mas também a um sistema de previews digitais que há mais de uma década passou a reservar progressivamente as melhores oportunidades aos colecionadores mais “conectados”, em vez daqueles que realmente se deslocavam até a feira.
Em teoria, o programa prometia recriar escassez e urgência. Em diversos casos, funcionou.
A Fortes D’Aloia & Gabriel reservou uma sala inteira para obras de Marina Rheingantz, Antonio Társis, Marcia Falcão e Sophia Loeb. Todas foram vendidas nas primeiras horas do dia VIP, por valores entre US$ 10 mil e US$ 80 mil.
O resultado confirma que quando os preços permanecem acessíveis e os artistas apresentam trajetórias institucionais consistentes, os colecionadores estão dispostos a tomar decisões rapidamente.
Esta rapidez é menos evidente no caso de obras históricas, que geralmente exigem um período maior de reflexão.
A Gomide&Co havia reservado para o Basel Exclusive uma seleção neoconcreta de primeiro nível, incluindo Forma Objeto (1952), de Geraldo de Barros, oferecida por US$ 850 mil, e Metaesquema MET 112 (1957), de Hélio Oiticica, estimada em US$ 500 mil.
A venda mais expressiva da galeria durante os ‘VIP days’ acabou sendo uma pintura de Amadeo Lorenzato incluída no programa exclusivo e negociada por US$ 220 mil, um resultado particularmente impressionante e um sinal da expansão de seu mercado internacional.
Outro indicador importante foi a estreia da Almeida & Dale no setor Galleries, após três participações nos setores curatoriais da feira. O investimento já parece dar resultados. Uma obra importante de Tunga foi vendida por US$ 400 mil, um Leonilson entrou para uma coleção americana, e um Lorenzato foi negociado por US$ 150 mil.
A galeria também vendeu cinco obras de Chen-Kong Fang — oferecidas por valores entre US$ 20 mil e US$ 80 mil — a colecionadores internacionais, incluindo compradores em Hong Kong e Nova York. Duas obras de Rayana Rayo, por US$ 16 mil cada, foram adquiridas respectivamente por uma coleção americana e outra espanhola.
Vale destacar que essa primeira participação no setor principal acontece enquanto a Almeida & Dale prepara um show solo de Tarsila na Art Basel Paris, em outubro, e planeja inaugurar seu espaço parisiense no início de 2027. A aposta europeia, portanto, é tanto comercial quanto estratégica.
A frequência observada este ano na feira parece ter sido majoritariamente europeia. Os colecionadores brasileiros estavam em menor número do que em Miami ou Paris, enquanto a presença americana e asiática pareceu mais reduzida que nas edições anteriores.
Essa geografia torna os resultados ainda mais significativos. A arte brasileira já não se vende apenas graças ao apoio dos colecionadores nacionais: ela conquista progressivamente uma posição autônoma em coleções europeias e internacionais.
Esses resultados ganham uma dimensão particular em um contexto cada vez mais difícil para as galerias: após uma retração prolongada do mercado global, ao menos 14 galerias encerraram suas atividades em 2025, somando-se a uma série de fechamentos importantes desde 2024.
O movimento não atingiu apenas pequenas estruturas vulneráveis, mas também galerias consolidadas, algumas em atividade havia várias décadas.
Mais recentemente, a reestruturação abrupta anunciada pela Pace poucos dias antes da Art Basel deu uma nova medida dessa pressão. A megagaleria decidiu reduzir seu roster de aproximadamente 135 para 85 artistas e espólios, além de eliminar cerca de 50 postos de trabalho.
O CEO Marc Glimcher reconheceu que o modelo baseado na expansão contínua das equipes, dos espaços e do número de artistas já não era sustentável – e chegou a classificar o atual modelo das megagalerias como “quebrado” e impossível de ser reparado em sua forma atual.
Essa redução, no entanto, não atingiu Marina Perez Simão, mantida entre os artistas representados pela Pace — e por um motivo evidente. Sua liquidez comercial voltou a ser confirmada em Basileia com a venda de uma pintura de grande formato (200 × 100 centímetros), por US$ 195 mil, provavelmente ainda durante a preview.
Este dinamismo também ajuda a explicar o crescente interesse das galerias internacionais por artistas e espólios brasileiros. A White Cube representa o espólio de Lygia Pape desde 2023, enquanto a Lisson Gallery assegura a representação mundial do espólio de Hélio Oiticica desde 2019.
Em Basileia, a Lisson apresentava em seu estande um espetacular Relevo Espacial amarelo, oferecido por cerca de US$ 2,2 milhões. A galeria também disse que vendeu, já na abertura VIP, um notável Metaesquema azul sobre papel por US$ 500 mil.
O mercado de Oiticica é atualmente impulsionado pelo envolvimento de grandes colecionadores americanos, entre eles Ken Griffin, o bilionário da Citadel e um importante apoiador da Dia Art Foundation. Neste contexto, Griffin adquiriu uma obra de grande relevância, Núcleo Grande (1960), por US$ 7,8 milhões, e doou uma parte para a Dia.

Atualmente, os diferentes núcleos que compõem a instalação estão vinculados ao Art Institute of Chicago, à Dia Art Foundation e à Kenneth C. Griffin Collection, evidenciando a consolidação institucional de Oiticica nos Estados Unidos.
O mesmo colecionador também teria adquirido uma das pinturas a óleo sobre tela da série Metaesquema por US$ 3 milhões. Um importante disco de Mira Schendel, oferecido por US$ 850 mil, encontrava-se on hold, indicando que obras históricas dessa categoria despertam uma demanda concreta, mesmo quando a decisão exige mais tempo.
A Art Basel 2026 reúne neste ano seis galerias brasileiras em seu setor principal, um recorde. Em um mercado difícil, o Brasil surpreende e demonstra sua capacidade de resistência.
Sophie Su é consultora de arte e marchand especializada em arte brasileira. Mais análises no site da autora.














