Sua avó fala rimado, como quem vive a poesia nas falas do dia a dia. Seu pai, advogado e seguidor ávido das normas ortográficas, escreve petições impecáveis dignas de ensaios literários. Eliana Alves Cruz sempre esteve destinada às palavras, embora tenha demorado a se reconhecer como escritora.
“Um amigo até me disse recentemente: ‘Eliana, nós somos iorubás. A palavra é tudo para a gente’,” diz ela, que também é jornalista, roteirista e apresentadora. Para a tradição e a filosofia iorubá, pensamento ancestral originário da África Ocidental, a palavra falada não é apenas um meio de comunicação, mas um catalisador capaz de transformar a realidade.
Seguindo de forma um tanto inconsciente esse conceito, a carioca também faz com que a sua palavra escrita seja uma força da natureza. Algo que impacta a sua vida e a dos leitores que vem conquistando. Seus livros abordam questões como racismo e desigualdade social, trazendo para o centro da narrativa histórias frequentemente marginalizadas.
Seu trabalho como escritora já lhe rendeu importantes reconhecimentos, como o Prêmio Jabuti de 2022, na categoria Contos, por A Vestida, e o Prêmio Guimarães Rosa, concedido pela Academia Brasileira de Letras em 2026 ao romance Meridiana, publicado no ano anterior. Pela mesma obra, Eliana conquistou agora — dia 28 de outubro — o Jabuti de Melhor Romance Literário. A narrativa acompanha uma família negra que deixa a favela e ascende socialmente, passando a confrontar os dilemas do racismo estrutural. Sua bibliografia inclui ainda obras como Água de Barrela (2015), O Crime do Cais do Valongo (2018) e Solitária (2022).

O catálogo é extenso e Eliana promete aumentá-lo ainda mais nos próximos anos. A questão é que a sua literatura é feita de perguntas e os questionamentos parecem nunca cessar. Material quase infinito para uma autora que, por muito tempo, não se permitiu escrever de forma literária.
“Com onze anos eu escrevia um diário. Com dezoito finalizei meu primeiro livro infantil, O Desenho do Mundo, mas com dezenove passei por uma grande tragédia, que foi a morte da minha mãe. Sinto que ali eu entrei em um modo de sobrevivência automático e acreditei que a literatura não pagaria minhas contas,” diz a autora. “Minha família sempre me apoiou, mas traumas agem de formas que não entendemos. Esse tirou o meu sonho da escrita.”
No jornalismo, ela encontrou uma forma de continuar trabalhando com palavras e vislumbrar uma carreira. Como sempre gostou de esportes, acabou se especializando em jornalismo esportivo e atuou por mais de 25 anos na área de comunicação da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, onde trabalhou com assessoria de imprensa e cobertura de competições internacionais, como os Jogos Olímpicos.
“Vivi momentos irreais. Jantei com imperadores, chefes de Estado e grandes atletas. Expandi minha visão de mundo e, sobretudo, de mim mesma,” diz.
“Eu me lembro de ficar em um limbo de pertencimento. Os africanos olhavam para mim e sabiam que eu não era africana. A América Latina também não me reconhecia como parte. Brasil, zero. Ninguém nunca me achou brasileira. Às vezes, me tomavam por caribenha ou norte-americana; muitas vezes, jamaicana. Acabei assistindo a todas as provas do Usain Bolt porque tinham certeza de que eu era da Jamaica. Me chamaram até para desfilar, mas não fui,” diz, com humor.
As situações fizeram com que Eliana se tornasse mais consciente de seu próprio corpo e da página que ele ocupa no mundo. Também a levaram a olhar para o Brasil como um lugar magnífico, mas ingênuo em determinada medida. Assim como ela, ele parece ter dificuldade em encontrar pertencimento, seja pela aparência diversa de seu povo ou pela língua e pela cultura, que flertam com outras nações.
“Talvez essa questão de não entender que lugar ocupa faça com que o Brasil não saiba a cobiça que desperta. É um País que também não se deu conta de muitas coisas, como a existência de estruturas básicas para que algumas pessoas tenham tudo e outras tenham nada.”
Foram muitas vivências e aprendizados até que Eliana decidisse, como forma de passar o tempo e fugir da rotina, voltar a escrever um livro. Água de Barrela, da editora Malê, nasceu como um romance inspirado na história da própria família da escritora, reconstruindo a trajetória de gerações desde a escravidão no Brasil até o início do século XX.
A narrativa acompanha especialmente as mulheres que encontraram no trabalho como lavadeiras uma forma de sustentar suas famílias. Para a construção da narrativa, Eliana passava horas pesquisando e conversando com familiares.
“Eu escrevi sem pressa e, quando me dei conta, tinha um material muito robusto em mãos. Quando li, me deu vontade de publicar.” O contato inicial com as editoras não rendeu retornos, então ela decidiu inscrevê-lo em um concurso. O resultado foi o 1º Prêmio Literário Oliveira Silveira, promovido pela Fundação Cultural Palmares em parceria com o Ministério da Cultura, em 2015. A premiação reconheceu a obra em primeiro lugar, antes de sua publicação em 2016. “Voltei a olhar a literatura com olhos de quem escreve e me autorizei a ser escritora. No fim, essa é a única autorização que precisamos.”
Após tantos anos trabalhando com esporte, em algum momento ele será seu objeto de estudo? “Olha, o esporte é uma metáfora para muita coisa na vida. Muitos colocam no mérito próprio algo que depende de uma estrutura enorme. Para pular mais alto e ir mais longe, você precisa de uma estrutura. Ainda não usei isso literariamente, mas tenho certeza que uma hora vai aparecer.”
Algumas pesquisas apontam uma queda nos índices de leitura no Brasil, mas, ao mesmo tempo, vemos surgir nomes incríveis na literatura nacional. Como você enxerga o momento editorial que vivemos no País?“Na minha vivência, vejo eventos literários sempre cheios. A leitura é um objeto de desejo, assim como a educação. Que pai ou mãe não quer um filho bem-educado? É algo que ninguém tira de nós. Acho que as pessoas querem ser leitoras, mas se frustram quando não conseguem. E, quando alguém se sente frustrado nesse lugar, acaba desdenhando daquilo que gostaria de alcançar. Também nos iludimos com os números: o Brasil é tão grande que mesmo uma porcentagem que parece pequena representa milhões de pessoas, mais gente do que a população de muitos países inteiros. O foco é continuar incentivando a leitura, sempre.”
Qual a importância da literatura?“Poder imaginar sua vida fictíciamente. Conhecer outras realidades e, a partir disso, conseguir fabular sua própria existência. Imaginar passado, presente e futuro. A partir do momento que você consegue montar cenários, está adubando o terreno para sonhar uma sociedade. Abrir mão disso é um pouco de suicídio, apequenar a existência, se entregar a desesperança…”
Qual pergunta tem ocupado mais os seus pensamentos atualmente?“Bom, 'quem somos nós?’ é uma pergunta perene que nunca é respondida, até porque a resposta muda, mas ando me perguntando muito sobre o talento. Afinal, isso existe? Ou é algo que você trabalha e consegue construir? É inato? É induzido? Ando pensando muito sobre o assunto.”













