Fui um menino sortudo. Passei a infância na roça, entre cidadezinhas pacatas e a zona rural ainda cheia de bichos, gente e histórias do arco da velha. Foi “bão dimais”, expressão ainda usada lá, hoje senha do Wi-Fi que ofereço aos amigos que me visitam na cidade grande.
Remixado nas metrópoles que vivi — Rio, Nova York e São Paulo — guardo a origem caipira com muito orrrgulho, com direito aos erres arrastados no capricho.
O lugar onde nasci fica há exatos 410 Km da capital. É a penúltima cidade paulista à beira da Anhanguera antes da rodovia atravessar a divisa sobre o Rio Grande e seguir Minas Gerais adentro. A divisa é mero detalhe. A região chamada de Triângulo Mineiro é uma panela farta de gente de tudo quanto é canto do Brasil e do mundo.
Junto com os caipira, assim sem esse no plural de propósito, você encontra japoneses, libaneses, nordestinos... Caso do meu avô João Athayde, segundo o próprio, um baiano cansado. A família dele descia da Bahia de caminhão pau de arara em direção a São Paulo. No meio do caminho, a turma cansou e ficou por ali mesmo, espalhada na fronteira difusa paulista x mineira, numa pacata cidadezinha chamada Ituverava.
O locutor da rádio local sussurrava ao microfone o prefixo da emissora com pausas solenes e voz aveludada: “ZYK8... Rádio Cultura de Ituverava... uma cidade a caminho do progresso.” Havia no ar uma excitação visível com a inauguração de Brasília, a capital federal 600 km mais à frente pela Anhanguera. O nome da rodovia, claro, é homenagem ao bandeirante que passou por lá abrindo caminhos, escravizando afrodescendentes e espoliando indígenas que lá já estavam muito antes de todo mundo.
À noite, pelas ondas curtas do rádio, minha cabeça de criança explodia ao ouvir locutores do Rio, São Paulo e até da BBC de Londres. Me sentia longe de tudo. Desconfiava, com razão, que um mundo imenso estava acontecendo lá fora. Enquanto eu, jacu do mato, estava ali parado perdendo tudo.
Esta angústia virou combustível para impulsionar meu plano de virar adulto. Um belo dia, como um sol que surge depois da chuvarada, o meu objetivo número um na vida ficou claro: tirar carteira de motorista! Sim, claro, preciso começar a circular com mais autonomia por esse mundão. O problema é ter que esperar completar 18 anos para o exame da autoescola.
No interior, os dias são longos, intermináveis e terrivelmente previsíveis. As 24 horas demoram para passar, escorrem lentas, sem pressa... Aumentando a minha ansiedade pelo futuro adulto sobre rodas.
Diante da impossibilidade de acelerar o tempo, recorri à uma importante base filosófica da cultura caipira. Quando bate o desejo de comer um prato de mingau quente, que acabou de sair do fogo, para não queimar a boca você deve começar pelas bordas.
Se o meu prato de mingau é guiar automóvel, não preciso começar por um carrão tipo o do Batman, né? A velha camionete do vô João já tá bão dimais. Do alto dos meus 11 ou 12 anos de idade, coloquei um plano em marcha: vou aprender a pilotar com o vô João!
Na antiga fazenda de café já decadente onde começou como carroceiro, depois conferente, administrador... o baiano cansado analfabeto comprou uma parte da terra onde plantava milho, algodão, arroz... e criava umas cabeças de gado de leite. Atualmente, a monocultura de cana-de-açúcar transformou a paisagem.
A região virou um oceano verde onde raramente se vê um ser humano. O povo sumiu da zona rural. Agradeço a papai do céu o privilégio da infância na roça cercado de gente com saberes que não se aprendia na escola. Com os peões da roça aprendi a vacinar bezerro, tirar leite, amansar cavalo e manejar o facão para podar planta.
O objetivo principal, claro, era o meu hiperfoco: pilotar a camionete. Fui me envolvendo em múltiplas atividades, virando uma espécie de office boy, ou seria agro boy?, do vô João. Depois de alguns treinamentos nas estradinhas internas da fazenda, um dia, finalmente, ele me confiou o volante da camionete na volta da roça para a cidade.
Mudei de fase no joguinho. Era um piloto de verdade. Me sentia um Amyr Klink navegando a grande barca sobre rodas que gemia com os solavancos da estrada e os latões de leite metálicos pulando na carroceria. Na chegada do laticínio acontecia a manobra mais difícil do dia. O desafio era aproximar a camionete o máximo possível da esteira metálica onde os latões eram retirados do veículo, enfileirados e despejados em gigantescos tanques de alumínio em movimentos coreografados. O cheiro do líquido branco fresquinho invadindo o ambiente sinalizava o sucesso da jornada que tinha começado na madrugada sonolenta, antes do dia nascer.
Um dia, aquele adulto germinando em mim recebeu uma missão especial. Vô João estava de cama, coisa rara, com uma gripe forte. Mandou me chamar para que eu assumisse, além do volante da camionete, as funções dele no dia de trabalho na fazenda. Fiquei muito feliz, me senti prestigiado e preparado. O que poderia dar errado? Acordei bem cedo para receber as recomendações finais.
Mal cheguei na roça para o meu primeiro dia de chefinho e uma má notícia me esperava: a vaca leiteira predileta do vô João tinha passado a noite atolada no brejo. Ainda estava lá, na verdade, correndo risco de vida, sofrendo com os membros paralisados pelo frio, umidade e cansaço.
Acionei o adulto, convoquei a peãozada e partimos para o resgate. Depois de muito pelejar, improvisamos uma traquitana com paus e cordas e conseguimos içar o animal exausto para cima da camionete. Aliviados, ajeitamos a vaca dentro do curral para ela passar a noite.
Voltei ansioso para fazer o relato completo do meu dia de adulto. Vô João ouviu atentamente e disparou: você tá pensando que fez tudo certo, né? Amanhã a vaca estará morta. Como assim? O lugar de deixar o animal protegido da friagem não é o chão frio de cimento do curral. A vaca precisa ter contato com um chão de terra, debaixo da mangueira que fica bem em frente o curral, por exemplo.
Não deu outra. No dia seguinte, a vaquinha tinha partido. Conheci uma nova dor, a de me sentir responsável pela morte de um ser. Na pressa de ser adulto, assumi que o novo status viria com a direção de um carro. Ou de uma empresa, ou da própria vida.
Percebi o tamanho da minha ignorância sobre o novo território onde o vô João, analfabeto e autodidata, guardava tantos saberes. Aprendi que adulto não é o que sabe tudo. Ao contrário, é alguém que sabe que não dá para saber tudo. Que armazenar informação não vale nada sem a curiosidade da criança dentro da gente perguntar “por quê?” e disparar novos liga pontos para abraçar o imenso desconhecido.














