Médica aposentada, Emma decidiu pôr para alugar o apartamento que tem na Recoleta, bairro afluente de Buenos Aires, para viver com sua mãe em um arrabalde decadente.
De volta à varanda do que foi seu lar na infância, ela ouve gritos vindos do conjunto de prédios que agora dominam o horizonte. Emma tampouco encontra descanso no interior da casa: sua mãe doente geme sem descanso.
Na verdade, porém, a mãe não está mais doente. Morreu há três semanas.
As vozes desesperadas que parecem vir do projeto habitacional de Piedrabuena tampouco pertencem aos vivos. São lamentos das vítimas fatais desse lugar violento, dominado por gangues.
Meus Mortos Tristes (Mis Muertos Tristes), minissérie em quatro episódios da Netflix, é uma singular e perturbadora história de fantasmas. Singular pela forma como suas almas desencaminhadas se comportam: não derrubam objetos, não batem portas, não clamam para que suas mortes sejam vingadas. Elas apenas andam, invisíveis, por ruas, parques, quintais.

O elemento perturbador é a repetição: os fantasmas revivem inúmeras vezes seus momentos de trauma. Jovens assassinadas por um traficante tombam de novo e de novo no parque onde foram baleadas. Só Emma, personagem construída com firmeza feroz por Mercedes Morán, é capaz de ver e ouvir os mortos. E, às vezes, de apaziguá-los.
A fotógrafa Carolina (Dolores Fonzi), filha de Emma, não herdou a rara habilidade da mãe, mas sua prima Julie (Carolina Sánchez Álvarez), adolescente obesa e solitária, tem uma ligação íntima com os fantasmas – o que lhe rendeu sucessivas internações psiquiátricas nos Estados Unidos, onde vive com os pais.

Uma visita da família de Julie à Argentina precipita um evento mórbido (e, digamos, insalubre) que instaura o pânico na área de Piedrabuena: os moradores passam a ouvir as vozes dos mortos que os cercam. E ouvir o que não se vê é uma experiência de enlouquecer.
A linha narrativa central de Meus Mortos Tristes ampara-se no conto homônimo incluído na coletânea Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria (compre aqui), da escritora argentina Mariana Enriquez. Desse conto, vêm Emma, sua vizinhança barra-pesada, seus fantasmas sofredores.

Produtor, co-roteirista e diretor da minissérie, o chileno Pablo Larraín, dos filmes Jackie e Spencer, incrementou a história com personagens e elementos de outros contos, para melhor representar o universo gótico da autora.
No episódio final, o enredo se dispersa entre tantos atores e dramas. Ainda assim, Meus Mortos Tristes envolve o espectador em um pesadelo no qual as mazelas sociais de Piedrabuena, bairro real onde foram realizadas as filmagens, avançam sobre o reino sobrenatural. Larraín não recorre ao jump scare – aquele susto súbito que tenta fazer o espectador pular do sofá. O horror aqui é construído lentamente, até fazer parte do ar que se respira.
Mariana Enriquez, aliás, gosta do ar dos cemitérios. A Intrínseca, editora que vem publicando os contos e romances da escritora portenha no Brasil, lançou há pouco uma incursão dela na não ficção: Alguém Caminha sobre o seu Túmulo – Minhas Viagens a Cemitérios (compre aqui).

Ao contrário do que o tema poderia sugerir, trata-se de um livro vibrante, divertido, luminoso. A autora divide com o leitor a sua paixão pelas necrópoles – por seus inquilinos célebres ou curiosos, por suas histórias reais e suas lendas.
Mariana relata, por exemplo, como as ossadas do extinto Cemitério dos Inocentes, em Paris, foram transportadas para as catacumbas do bairro de Montmartre (de onde, aliás, ela roubou um pequeno souvenir: um pedaço de osso humano). E reconstitui o acidentado percurso que o cadáver embalsamado de Eva Perón percorreu antes de ser definitivamente enterrado no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires.
O primeiro capítulo narra uma aventura erótica que Mariana viveu com um músico de rua no Cemitério Monumental de Staglieno, em Gênova. Diz ela que foi esse episódio, em 1997, que suscitou seu interesse por cemitérios.
Também parece ter despertado uma apurada sensibilidade para os elementos mais sensuais da arte funerária. Um exemplo dessa vertente é O Beijo da Morte, escultura do ateliê do catalão Jaume Barba que está no Cemitério de Poblenou, em Barcelona. Eis como Mariana a descreve: “a Morte, descarnada, com a caveira à mostra, sem capuz nem foice, alada como um anjo sombrio, beija um homem jovem, de braços fortes e torso delicioso, que se deixa morrer, ajoelhado e seminu”.
O livro tem 24 capítulos, cada um deles dedicado a uma cidade (em algumas delas, Mariana visitou mais de um cemitério), mais um epílogo breve sobre cemitérios que a autora ainda não conhece, mas deseja visitar.
Os lugares já visitados vão de capitais da cultura, como Paris e Londres, a lugarejos na província argentina de Entre Ríos, na Argentina. Com exceção de um cemitério em uma ilha na costa da Austrália (o marido de Mariana é australiano), os demais se dividem entre as Américas e a Europa.
A escritora segue a forma digressiva do ensaio, com frequência desviando dos túmulos e mausoléus para temas paralelos. Em Praga, ela observa que o turismo de massa esmaga o espírito das cidades históricas sob os imperativos do comércio – e admite que ela mesma faz parte do fenômeno que critica. Em Barcelona, visitando amigos exilados, ela explica como é fazer parte de uma geração que, premida pela crônica crise econômica argentina, se sentia quase obrigada a deixar o país.
O livro registra lendas urbanas associadas aos cemitérios. Nos anos 1960 e 1970, relatos de criaturas estranhas no cemitério londrino de Highgate levaram a abiloladas expedições de caça a um vampiro. Em Savannah, no estado americano da Geórgia, agências de turismo promovem passeios guiados a casas mal-assombradas.
A necroturista argentina, porém, raramente sentiu medo em suas viagens. Em um passeio noturno por um cemitério no País Basco, um ruído estranho levou-a a “imaginar seres de sombra escondidos entre os mortos,” e o Mausoléu Preto, no cemitério de Greyfriars, em Edimburgo, pareceu-lhe “um lugar repulsivo”. De resto, cemitérios são parte inescapável da experiência humana.
No capítulo mais tocante, Mariana Enriquez narra a história de sua amiga Marta Dillon, jornalista e filha de uma mulher assassinada pela repressão em 1977, durante a ditadura. Em 2011, o crânio e parte da ossada de sua mãe foram identificados.
Marta pôde afinal enterrar sua mãe “onde seu epitáfio possa ser lido.” “Que belos são os cemitérios,” conclui Mariana Enriquez. “Onde ficam o nome e a data, uma voz que diz: estive, fui. Talvez ninguém mais saiba meu nome, mas algum dia eu fui lembrado.”













