A curadoria silenciosa e revolucionária de Amanda Carneiro

A curadoria silenciosa e revolucionária de Amanda Carneiro

Uma das principais curadoras da nova geração, Amanda Carneiro revela os bastidores de um ofício que redefine narrativas históricas

Amanda Carneiro não se lembra da primeira obra de arte que a impressionou. A memória mais antiga que guarda de um museu é outra.

Tinha cerca de sete anos quando visitou o MASP pela primeira vez e voltou intrigada com os cavaletes de vidro desenhados por Lina Bo Bardi que deixavam os quadros suspensos no espaço. Não era exatamente um encantamento pelas peças, mas pela maneira como eram apresentadas. “É uma lembrança muito mais pelo estranhamento do que pelo arrebatamento,” conta.

Trinta e três anos depois, ela define o percurso de milhares de visitantes dentro de uma exposição. Curadora do MASP, pesquisa artistas e arquivos, acompanha empréstimos, escreve textos, participa da montagem e desenha trajetos. Mas prefere que ninguém perceba. “Quando uma exposição é muito boa, tudo parece natural. Você trabalha muito para parecer que não fez nada.”

Foi por um caminho improvável que a menina nascida no Capão Redondo, periferia de São Paulo, chegou às artes visuais. Durante muito tempo, interessou-se mais por dança e cinema. Formada em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, imaginava um futuro ligado à pesquisa.

A mudança começou em Moçambique. Durante um intercâmbio, passou pelo Museu de Arte de Maputo e voltou ao Brasil certa do rumo que a carreira tomaria. Insistiu até conseguir uma vaga no Museu Afro Brasil. Começou como educadora, coordenou a área educativa e migrou para a pesquisa.

Foi ali que o repertório mudou. “Aprendi que existem muitas outras linguagens que compõem as artes visuais, além da pintura e escultura. Algumas, inclusive, negligenciadas ou marginalizadas pela história da arte.” Bordados, roupas, música, religiosidades, performances e textos passaram então a fazer parte do novo universo. “Isso me conectou a uma arte que participa das discussões do presente e usa materiais do nosso tempo.”

No mesmo período, percebeu que a curadoria podia ser uma forma de construir narrativas. Era uma maneira de criar relações entre obras e abrir novas leituras para o público.

O artista plástico Ayrson Heráclito viu tudo isso de perto quando conheceu Amanda no MASP, durante Histórias Afro-Atlânticas. “Ela tem um olhar aguçado, muito sensível à pesquisa histórica e curatorial, mas também à relação de humanidade,” diz. Para ele, essa característica aparece sobretudo na maneira como ela aproxima obras, arquivos e artistas. “A gente vê relações muito técnicas nesse meio, principalmente quando se trabalha com acervos diversos. E ela consegue criar conexões,” diz. “Conheço várias instituições no mundo que sonhariam em tê-la como curadora.”

O MASP não desperdiçou a oportunidade. No mesmo dia em que defendeu a dissertação de mestrado na USP, Amanda recebeu a notícia de que havia sido aprovada para a vaga de curadora-assistente do museu.

“Ela construiu uma trajetória sólida em importantes espaços da arte, sem ceder aos apelos do mercado,” diz Hélio Menezes, curador e antropólogo que a convidou para colaborar com o Programa de Exposições do CCSP quando era responsável pela área de arte contemporânea da instituição. Ele destaca ainda sua sofisticação conceitual e rigor analítico. “Não há achismos em seu trabalho, e isso produz um efeito revigorante.”

Mulher negra em posição de destaque em um dos principais museus do país, ela rejeita a ideia de que sua trajetória seja resultado apenas do mérito. “Acho que a sorte só alcança quem trabalha,” diz. “Mas a gente precisa dela também. Tem muita gente boa que se dedica muito e não consegue.”

Pouco interessada em respostas, ela prefere as peças que continuam existindo depois da visita. Não necessariamente as mais bonitas, mas aquelas que reaparecem dias mais tarde, quando uma luz atravessa a janela ou uma cena cotidiana faz lembrar uma instalação vista semanas antes. “Parece um fantasminha, que vem atrás da gente,” diz. É esse efeito que busca provocar no público.

Entre suas preocupações está tornar uma exposição acessível sem esvaziar seu conteúdo. O desafio, diz, é escrever para quem estuda arte há décadas e, ao mesmo tempo, para quem entra num museu pela primeira vez. “É um trabalho de tradução, não de simplificação.”

Depois de integrar a organização artística da 60ª Exposição Internacional de Arte da Bienal de Veneza, em 2024, Amanda se prepara agora para outro grande desafio. Ao lado de Raphael Fonseca, assumiu a curadoria-chefe da 37ª Bienal de São Paulo, prevista para o segundo semestre de 2027. Enquanto começa a desenhar a próxima edição da mostra, acompanha a reta final de Histórias Latino-Americanas, uma das maiores exposições já organizadas pelo MASP, e prepara uma individual dedicada à britânica Madge Gill, prevista para março do ano que vem.

Durante uma viagem ao Newham Archive, em Londres, encontrou uma carta escrita por Madge a um amigo. Conhecia profundamente sua produção, mas era a primeira vez que tinha acesso à sua voz. A lembrança ainda a emociona. “Essa é uma das coisas mais bonitas que eu faço. Dar visibilidade ao que antes estava restrito a um espaço privado.”

Nem sempre, porém, o encontro com uma obra acontece ao vivo. Muitas vezes, ela passa anos convivendo com fotografias, cartas, fichas de catálogo e textos. Quando a peça finalmente chega, a sensação é de reencontro. “É como ver um velho amigo que nunca abracei.”

Das 187 obras reunidas em Histórias Latino-Americanas, muitas ela viu pela primeira vez quando as caixas começaram a ser abertas. “Seria impossível conhecer cada coleção,” diz. A frase ajuda a entender seu ofício. Antes que uma sala seja aberta, há anos de pesquisa, negociações, visitas a acervos, empréstimos entre instituições, leituras, viagens e conversas com artistas. Algumas mostras começam em um ateliê. Outras, em um arquivo. No caso de Amanda, todas começam do mesmo lugar. “O que me interessa sempre são as perguntas.” 

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