Rock in Rio: do perrengue aos bilhões

Rock in Rio: do perrengue aos bilhões

Do lodaçal da primeira edição aos bilhões movimentados hoje, o festival se transformou em uma máquina de entretenimento

O Rock in Rio está para os amantes da música como a cidade de Meca está para os muçulmanos: é obrigatório visitar pelo menos uma vez na vida. 

Mesmo que essa participação acarreta situações tragicômicas como seu par de tênis afundar no lodaçal que virou o gramado da primeira edição, em 1985; presenciar o acesso de fúria dos chamados metaleiros, que “saudaram” o roqueiro Lobão com latas de cerveja, em 1991, e o multiartista Carlinhos Brown com copos e garrafas de água mineral, em 2001; de esperar por horas pelo Guns N’Roses — que entrou quase ao amanhecer — e testemunhar o surto psicótico de um fã da banda quando Axl Rose, vocalista e dono do conjunto, saudou a plateia com um “bom dia”. 

Os perrengues fazem parte da experiência e rendem, no mínimo, boas histórias para serem contadas para filhos e netos.

A edição 2026 do evento traz, para variar, números pantagruélicos. São nada menos que 190 shows e mais de 1.300 artistas, sendo que 45 de cantores e grupos internacionais, esparramados por uma área total de 385 mil metros quadrados (o equivalente a 54 Maracanãs); 65,85 toneladas de cenografia dos palcos, 5.136,50 m² de painéis de LED e 120 quilômetros de fios elétricos, o suficiente para dar 16 voltas na Lagoa Rodrigo de Freitas. 

Os sobreviventes da primeira edição lembram da dureza que era encontrar banheiros e bebedouros. Mas, parafraseando a personagem de um programa humorístico, “isso já não pertence mais ao Rock in Rio”. São nada menos que 1.314 sanitários e 168 espaços para beber água.

Ah, sim, e as atrações. O festival tem de agradar a todas as tribos e de faixas etárias diversas. E o showbiz de hoje está mais multifacetado do que nas edições anteriores do evento. Então, nada mais natural do que contemplar essa diversidade. 

O Palco Mundo, por exemplo, é reservado às atrações de grande porte. O Sunset, por sua vez, também traz nomes de alta patente, mas privilegia encontros musicais. Outros espaços são de estilos musicais e filosofias específicas: o New Dance Order é para a tribo da música eletrônica, o Espaço Favela traz atrações voltadas ao “som das comunidades” — em geral, samba, funk carioca e hip hop —, o Supernova apostas em prováveis talentos da cena pop e o Global Village é voltado para os sons do mundo.

A escolha dos palcos, contudo, não diminui o status e a importância deste ou daquele artista. Por exemplo, o Global Village traz desde a MPB sofisticada de Paulinho Moska aos urros do grupo de thrash metal Korzus, além da cantora Mãeana e a bossa nova de Wanda Sá, Joyce Moreno e Leila Pinheiro, o sensacional João Bosco e as atualidades nordestinas do sanfoneiro Mestrinho e da cantora e sanfoneira Lucy Alves.

O Espaço Favela tem como atração o celebrado rapper Xamã, o reggae do cantor Rael e o samba de Belo e Mart’nália, ao passo que o New Dance Order tem os celebrados DJs superstars Fatboy Slim e Alok (que toca ao lado da família) e o Supernova traz desde promessas como Zeca Veloso a Supercombo, ícone do rock alternativo.

O Rock in Rio é conhecido por apresentar uma escalação, digamos, pragmática. Toca quem o público pede e seja também garantia de retorno financeiro. Ainda que as primeiras edições tenham dado prejuízo, o line-up foi marcado pelas regras do mercado. 

O primeiro festival, por exemplo, foi conhecido pela presença maciça de bandas de heavy metal porque o gênero vivia um período de alta popularidade. O cantor Ozzy Osbourne, os grupos Scorpions e AC/DC e as apostas Iron Maiden e Whitesnake estavam passando pelo auge de suas carreiras. O quinteto de rock progressivo Yes, por seu turno, era primeiro lugar nas paradas americanas e Queen e Rod Stewart tinham alta popularidade no Brasil. Por outro lado, apostou no jazz pop de George Benson e no folk de James Taylor. 

“Eu sempre soube que para atingir um público de 1,5 milhão de pessoas, era necessário que fosse um projeto transversal em idade e estilo de música. Ou seja, sempre existiu essa diversidade musical no festival,” diz Roberto Medina, mentor do festival, em entrevista em agosto de 2023 para este que vos digita. “Mas a minha principal preocupação é fechar a conta e deixar o público satisfeito.”

A aposta no certo, contudo, continua sendo a marca do Rock in Rio. A edição de 2024 contou com astros da música sertaneja como Chitãozinho & Xororó, Simone Mendes e Ana Castela. Este ano a aposta está no K-Pop de Stray Kids e no funk estilizado de Pedro Sampaio, além da música eletrônica do onipresente Alok e no pop de Luísa Sonza e Demi Lovato. 

O rock pesado, outrora um cavalo de batalha das edições anteriores — o Metallica fez um show memorável em 2011 — tem perdido espaço no line-up. Isso porque os principais nomes do gênero estão se aposentando e os grupos atuais são adeptos da mistura de distorção de guitarra e berros com outros elementos — caso do Avenged Sevenfold e do Bring me the Horizon, que tocam no dia mais pesado do evento. Mas pelo menos tem o grupo Sepultura, maior banda de thrash metal do Brasil (e quiçá do mundo), que faz sua despedida do Rock in Rio — o grupo vai encerrar suas atividades.

Os superastros, contudo, estão presentes no Palco Mundo. O maior deles é o cantor e pianista inglês Elton John, que interrompeu sua aposentadoria apenas para se apresentar no evento. Ele faz companhia a velhos parceiros como Foo Fighters e seu rock revisionista, o pop dançante do Maroon 5 e o eterno sacolejo de Ivete Sangalo.

O Palco Sunset, por seu turno, celebra a arte dos encontros. O grupo brasiliense Capital Inicial convida o guitarrista Dado Villa-Lobos para prestar um tributo à Legião Urbana (antiga banda de Dado), o Roupa Nova debuta no festival em show com participação de Guilherme Arantes e o forrozeiro João Gomes toca ao lado da Orquestra Sinfônica Brasileira. Para os amantes da black music, o Jota Quest estreia o show no qual tocam Tim Maia e o sambista Péricles decifra o repertório da Motown, principal gravadora de soul music de todos os tempos.

Os perrengues do passado estão praticamente resolvidos. Há linhas especiais de trem e ônibus para levar o público, a praça de alimentação tem uma grande variedade de comidas (a primeira edição era somente hambúrguer do McDonald's). Seis postos médicos estarão à disposição dos espectadores. O lodaçal de tempos atrás virou ainda uma Disneylândia, com direito a roda gigante e vôos de tirolesa — que pode demorar horas porque é uma das atrações mais cobiçadas do local.

O Rock in Rio, acima de tudo, é um sopro na economia. O impacto econômico estimado pela FGV (Faculdade Getúlio Vargas) é de R$ 3,36 bilhões e 33,9 mil postos de trabalho gerados pelo festival. A rede hoteleira planeja uma ocupação de 95% de turistas que vêm principalmente de São Paulo, Belo Horizonte e Brasília.

As aprimorações que o festival tem tido nos últimos anos, contudo, não impedem contratempos de última hora. Um evento que conta com um público de 100 mil pessoas por dia sempre tem um empurra empurra, algum dissabor aqui ou acolá. Mas nada que possa tirar o prazer de comparar a um festival dessa grandeza. No máximo, rende uma história e tanto para contar para filhos e netos.

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