
A Burrice do Demônio traz de volta o humanismo radical de Hélio Pellegrino
Coletânea de artigos do psicanalista mineiro, que cruza reflexões sobre saúde mental com flagrantes do cotidiano carioca, ganha reedição pela Rocco
Republicano exilado no Brasil durante a ditadura do general Francisco Franco, o garçom espanhol que servia os turistas em um restaurante em Copacabana era, na expressão de um cronista, “um monstro de delicadeza”. Para sustentar a família, trabalhava de 14 a 16 horas por dia, sempre ouvindo impropérios do gerente. Ainda assim, recebia os clientes com um sorriso solícito.
Até que um dia chegou a seu limite:
“Violentado na íntima substância de seu ser, o pobre homem teve lá um dia um repelão de anormalidade sublime. Sem prévio, sem ao menos saber o que estava fazendo, atirou para o ar — ou para o diabo — a bandeja carregada de pratos e, espumando de cólera, pôs-se a chutar quantas mesas e pessoas encontrasse pela frente.”
Em A Sublime Loucura do Garçom, artigo publicado em 1986, essa história carioca ilustra as considerações do mineiro Hélio Pellegrino — médico psiquiatra e figura de proa da psicanálise no Brasil — sobre a antipsiquiatria, movimento dos anos 1970 e 1980 que buscava inserir o paciente “na circunstância social e existencial em que vive”, em vez de reduzi-lo a categorias diagnósticas.
Esse é um dos 59 artigos do autor reunidos em A Burrice do Demônio. Lançada pela Editora Rocco em 1988, a coletânea ganha agora sua merecida reedição, pela mesma editora, com uma nova introdução da psicanalista Larissa Leão de Castro.
A obra reúne artigos publicados no Jornal do Brasil e na Folha de S. Paulo entre 1982 e 1988 (a exceção é um ensaio de 1968 sobre A Metamorfose, de Franz Kafka, que abre o livro). Pellegrino fez a seleção dos textos, mas não chegou a ver o livro pronto. Morreu de problemas cardíacos em 23 de março de 1988, aos 64 anos, dias depois de publicar na imprensa o texto que fecharia A Burrice do Demônio.
O cruzamento de reflexões sobre antipsiquiatria com um vívido flagrante do cotidiano carioca demonstra a versatilidade do autor. Sua prosa tempera a ironia com sutis alusões literárias (“monstro de delicadeza” ecoa o modo como um personagem de A Tempestade, de Shakespeare, se refere a Caliban, criatura que é meio homem, meio peixe: “most delicate monster”).
Na descrição ao mesmo tempo compadecida e bem humorada do surto do garçom, transparece a solidariedade que Pellegrino voltava aos oprimidos. Ele foi um dos fundadores de uma clínica que buscava levar a psicanálise às classes mais pobres do Rio.
Com Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, formou “os quatro de Minas”, grupo que deixou sua marca na cultura brasileira da segunda metade do século XX. Radicado no Rio de Janeiro em 1952, o psicanalista de esquerda também foi um “amigo fundamental” de Nelson Rodrigues, seu perfeito antípoda ideológico (o autor de Vestido de Noiva assumia-se como reacionário e não tinha muito respeito pela psicanálise).
Pellegrino esteve na linha de frente da oposição à ditadura militar de 1964. Discursou na Passeata dos Cem Mil, foi preso pela repressão e colaborou com O Pasquim. Em uma polêmica que abalou os meios freudianos brasileiros, entrou em conflito com a Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro por sua conivência com um membro que prestava assistência a sessões de tortura — tema, aliás, de dois ensaios do livro.
As esperanças e receios da transição democrática estão no centro da coletânea. Dois artigos sobre mortos recentes delineiam os polos daqueles anos decisivos. O presidente eleito Tancredo Neves, que morreu em 1985, antes que pudesse tomar posse, encarnou a “verdade republicana” e os “valores democráticos”. Morto dois anos depois, o general Golbery do Couto e Silva “foi homem da ditadura, pela ditadura — e para a ditadura”.
O ideário do autor abrigava equívocos em contradição com sua fervorosa convicção democrática. É um “óbvio ululante” (para usar uma expressão de Nelson Rodrigues) que Joseph Stalin e Fidel Castro foram ambos ditadores. Pellegrino, no entanto, criticava o primeiro e admirava o segundo, e via no capitalismo um sistema que perpetua “uma injustiça visceral”: a exploração do proletariado.
A Burrice do Demônio percorre temas variados — a filosofia de Albert Camus, a literatura de Clarice Lispector, a repressão sexual, a pena de morte. Com frequência, porém, os textos convergem para a tentativa de conciliar os três pilares de sua formação: catolicismo, marxismo e psicanálise. Vem daí o entusiasmo pela Teologia da Libertação, ponte precária entre a fé cristã e o socialismo.
Marx, Freud e a Igreja Católica, acreditava Pellegrino, poderiam se irmanar no socorro aos pobres, aos oprimidos, aos injustiçados — aos garçons que sofrem colapsos mentais mundo afora. As diferenças entre os três, porém, são maiores que essa duvidosa convergência.
Será difícil encontrar espaço para a luta de classes na epifania narrada em um dos mais belos textos do livro, “A Nudez sem Pecado”, em que Pellegrino descreve o “sentimento oceânico” que o invadiu na visita a um santuário católico no alto da Serra da Piedade, em Minas Gerais.
O profundo humanismo do autor resgata-o dos equívocos de seu tempo. É o que se percebe no ensaio sobre A Metamorfose. Pellegrino emprega a linguagem marxista em sua leitura, mas a revolução que descobre em seu protagonista — Gregor Samsa, o caixeiro viajante que se transforma em inseto — é mais pessoal que social. Sua metamorfose seria “um grito de autenticidade em meio a um mundo inautêntico”. Vale dizer: é quando lhe roubam a humanidade que Samsa se proclama humano.


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