Traída e falida. O enredo do atual best seller americano vai virar filme

Traída e falida. O enredo do atual best seller americano vai virar filme

O livro do momento nos EUA é um alerta para as mulheres que delegam completamente suas vidas ao marido — e já está sendo adaptado para o cinema

A história do livro sensação nos EUA, Strangers: A Memoir of Marriage, parece um clichê do Upper East Side de Manhattan.

O marido, um profissional bem-sucedido do mercado financeiro, e uma mulher de família aristocrata, que abandonou a carreira para criar os filhos do casal, sustentam a imagem de um casamento perfeito. Depois de duas décadas, ela é surpreendida quando o marido revela um affair e abandona abruptamente a família. 

A autora, Belle Burden, estudou Direito em Harvard e trabalhou em um dos maiores escritórios de advocacia de Nova York. Vinha de uma das famílias mais tradicionais da elite americana. Por parte de mãe, era neta de Babe Paley — lendária socialite considerada a principal swan de Truman Capote. Pelo lado paterno, pertence à família Vanderbilt, símbolo da aristocracia americana do século XX. Suas credenciais sociais aguçam a curiosidade em torno da história. Inicialmente, o memoir virou o talk of the town em Nova York, mas rapidamente rompeu as barreiras para se tornar um best seller em todo país, com uma adaptação para os cinemas com Gwyneth Paltrow no papel de Belle.

Belle reconhece repetidamente seus privilégios: casas em Martha’s Vineyard e Nova York, clubes privados, praias exclusivas, mas nada disso a protege do abandono, nem da punição social que ocorre quando expõe o ex-marido, exigindo sua responsabilização. Muitas pessoas próximas (as mães da escola e as amigas do clube) ficaram do lado do ex-marido e a acusaram de promover uma vingança  pública contra um homem considerado exemplar por ter permanecido vinte anos casado e ser pai dos seus três filhos. Curiosamente, poucas o condenaram pelo abandono da prole ou pela frieza com que tratou a esposa.

O que impressiona no livro não é a traição ou o divórcio em si, mas como uma mulher inteligente, sofisticada e altamente instruída pôde delegar completamente sua vida a outra pessoa. Também chama atenção do leitor como os traços de personalidade do marido - que é capaz de abandonar a família com a máxima frieza - passaram despercebidos em 20 anos de convívio. 

Belle conheceu o marido, chamado de James no livro, no escritório de advocacia em que ambos trabalhavam. Ela abandonou o escritório após ter filhos e entregou ao marido o controle da vida financeira do casal. Não houve sequer uma conversa explícita sobre divisão de papéis; tudo aconteceu naturalmente. No livro, Belle admite que nunca soube quanto o marido ganhava ou quanto ele tinha investido ao longo de duas décadas de casamento.

O aspecto financeiro é central para entender o choque do divórcio e o sucesso do livro - o que deveria funcionar de alerta para todas as mulheres. Os termos do acordo pré-nupcial foram acordados contra a recomendação de sua própria advogada. Belle achava que sua advogada não entendia o amor e a relação de confiança do casal. Com eles seria diferente e nunca precisariam olhar aquele pedaço de papel. Pois bem. 

O contrato assinado determinava que apenas os bens registrados em conjunto seriam divididos em caso de separação. Os rendimentos e investimentos acumulados pelo marido durante o casamento permaneceriam exclusivamente dele. Belle usou quase toda a sua herança para comprar os imóveis da família e os colocou em nome dos dois - o que considerava o certo a fazer. Pelo acordo, o ex-marido teria direito à metade dessas propriedades, enquanto a fortuna construída por ele ao longo de vinte anos ficaria preservada.  Ele não gastou um centavo para adquirir tais imóveis, nem foi responsável pelo pagamento da escola das crianças, que eram pagas pela madrasta dela. O tema foi objeto de litígio nas cortes de Nova York. 

“Eu não me protegi quando escolhi conforto em vez de conflito, ignorância em vez de conhecimento. Coloquei a mim mesma naquela situação, uma decisão de cada vez”, escreveu Belle. 

As mulheres ainda não são educadas para ter uma vida com independência emocional e financeira. Parece que paira uma ideia de que a mulher nasce incompleta e que encontrará segurança ao fundir sua vida a um homem que administrará sua vida e patrimônio, garantindo sua segurança, mesmo à custa de sua liberdade e autonomia.

A ideia de que mulheres devem ocupar uma posição passiva e coadjuvante dentro da própria vida parece saída de um romance de Jane Austen. No século XIX, as alternativas femininas eram limitadas; hoje, em países democráticos, não são. Enquanto autonomia feminina - emocional e financeira - não for tratada como condição sine qua non da existência feminina, as relações continuarão assimétricas. Se pararmos de trabalhar para cuidar dos filhos, temos que debater abertamente a compensação financeira que teremos. A mulher precisa aprender a pensar e falar de dinheiro, avaliando os riscos de suas escolhas. No dia em que for prioritário, outras mudanças estruturais vão ocorrer, como mais mulheres em posições de poder e menos discrepâncias salariais entre os gêneros. 

No fim, o livro é menos sobre traição e mais sobre reconstrução de identidade. A ruptura não destruiu a vida de Belle, fulminou o personagem de mãe e esposa dedicada e ela precisou descobrir quem era fora desses papéis. Ela reconhece que nunca teria saído daquele casamento por conta própria. O colapso a obrigou a se tornar uma pessoa mais completa e preparada para a vida, e como bônus, uma escritora e palestrante de sucesso, que em breve terá sua história nas telas do cinema.

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