O Vaticano une santidade e ícone do rock na Bienal de Veneza

O Vaticano une santidade e ícone do rock na Bienal de Veneza

Cardeal responsável pela mostra acredita em uma Igreja ligada à arte e às complexidades do nosso tempo e reuniu músicos, cineastas, poetas e artistas para criar experiência que conecta, por meio do som, a alma e o mundo

Nos primeiros dias da 61ª edição da Bienal de Veneza, esta cidade mais parecia o proverbial “purgatório da beleza e do caos”.

Houve conflitos, renúncia do júri responsável pela premiação, protestos, excesso de eventos, de imagens e pessoas – tudo entre chuvas torrenciais num dia e sol escaldante no outro.

O desafio começou bem antes da sua inauguração, com a morte prematura da curadora Koyo Kouoh cinco meses depois de sua indicação. A decisão da Bienal foi manter o projeto curatorial de Koyo, tocado por sua equipe.

Intitulada Minor Keys, a ideia da curadoria foi de estimular a audição das notas sutis em resposta ao ruído contemporâneo.

O pavilhão da Santa Sé foi o que melhor seguiu o desejo de Koyo, executando uma proposta focada na escuta e na contemplação. Intitulada The Ear is the Eye of the Soul, a mostra ocupa dois espaços do Vaticano em Veneza — o Giardino Místico dos carmelitas descalços, em Cannaregio, famoso por suas ervas e produção da "acqua di Melissa" desde o século XVIII, e a Igreja semi-restaurada de Santa Maria Ausiliatrice, em Castello. 

Por trás das iniciativas culturais do Vaticano está um dos intelectuais mais interessantes da atualidade: o cardeal português José Tolentino de Mendonça. Poeta, teólogo e escritor, o cardeal tem uma obra poética respeitada fora dos meios religiosos, e hoje ocupa o cargo equivalente ao Ministério da Cultura dentro da Cúria do Vaticano.

“O fio condutor da minha trajetória é a importância da atenção à cultura, ao diálogo e ao poder do conhecimento e da ciência.” disse o cardeal Tolentino.

De uma sensibilidade ímpar, ele acredita em uma Igreja mais ligada à arte e atenta às ambiguidades do mundo contemporâneo do que à condenação moral.

Sob seu patrocínio, o Vaticano tem organizado iniciativas artísticas de alta qualidade, como o pavilhão da Bienal de Veneza de 24 e este agora em 26.

Depois do sucesso do primeiro pavilhão do Vaticano sob sua direção, o famoso curador Hans Ulrich Obrist procurou o cardeal para pensarem juntos uma futura colaboração.

“Concebido por Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers em resposta à proposta curatorial de Koyo Kouoh para a Biennale Arte 2026, o pavilhão responde ao convite da curadora para desacelerar e sintonizar registros mais silenciosos como prática e oferenda.” Explica o texto oficial do Pavilhão da Santa Sé.

O projeto foi desenvolvido pelos curadores em colaboração com o coletivo sonoro Soundwalk Collective, e reúne músicos experimentais, cineastas e poetas em torno da atenção como experiência espiritual, inspirado na Santa da Hildegard of Bingen.

Dentro dos muros do jardim carmelita, poucas vezes aberto ao público, os visitantes recebem fones de ouvido e entram numa procissão sonora. As obras fazem parte de uma única composição contínua dentro do jardim. Tudo é sútil: o som nos fones se altera conforme o ponto da caminhada, vozes, piano, silêncio, pássaros e insetos misturam-se em tempo real.

O Soundwalk Collective criou um sistema que absorve o som do espaço continuamente e os inclui nas gravações dos artistas. Com os fones no ouvido e caminhando pausadamente, a sensação de paz permite uma experiência mística.

A Santa Hildegard of Bingen foi uma abadessa beneditina, compositora, filósofa, cientista, escritora e mística do século XII. Em uma época em que mulheres não tinham acesso aos estudos, Hildegard escreveu sobre botânica e cosmologia, compôs música litúrgica e descreveu visões espirituais.

Apesar de sua influência extraordinária, Hildegard demorou mais de oito séculos para ser oficialmente canonizada pela Igreja Católica. O processo começou no século XIII, poucas décadas após sua morte, mas foi interrompido por falhas burocráticas ou por Hildegard ter sido uma mulher singular demais para sua época.

A curadoria não se deteve somente à Santa Hildegard e adicionou uma mulher extraordinária e múltipla do nosso tempo: Patti Smith.

“Para Hildegard, o som era uma forma de conhecimento, uma ligação entre a alma e o mundo”, explicam os curadores Hans Ulrich Obrist e Ben Vickers, acrescentando que “a obra de Patti Smith sempre carregou a mesma inspiração”.

Desde os anos 1970, Patti Smith construiu uma obra que mistura poesia, música e política. Os curadores afirmaram que “não havia outra voz possível” para o projeto.

Vale uma ressalva: a fala de Patti no Giardino Místico poderá soar transgressora demais para a ala mais conservadora da Igreja e certos fiéis. O Vaticano não interfere na decisão dos curadores ou dos artistas escolhidos.

No segundo espaço da mostra, em Castello, perto do Arsenale da Bienal, a atmosfera é totalmente diferente.

A Igreja de Santa Maria Ausiliatrice — parcialmente restaurada desde a Bienal de Arquitetura de 2025 — virou um arquivo vivo dedicado ao legado de Hildegard. Andaimes, paredes expostas de obra estão visíveis, onde papéis impressos com textos de Hildegard ou sobre ela estão colados em tapumes de forma aparentemente improvisada.

Os artistas do pavilhão da Santa Sé provavelmente estão distantes da religião católica ou do Vaticano, mas, como explicou Ben Vickers: “Todos os envolvidos compartilham a crença na capacidade da música de criar um interior transformador.”

A curadoria conseguiu entregar uma experiência artística e espiritual original e única.

“Minha visão como homem da Igreja, como crente, como cristão, é, em última instância, uma visão poética e acaba sendo minha maneira de habitar a realidade”, disse o cardeal Tolentino.

Ainda este ano, o Vaticano lançará também a Art Cut — Trienal de Arte das Universidades Católicas, um projeto inédito voltado à relação entre arte, cultura e espiritualidade. Sob curadoria do português Nuno Crespo, a primeira edição, intitulada “Exercícios de Empatia”, acontecerá simultaneamente em cerca de dez cidades ao redor do mundo, incluindo a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde o cardeal Tolentino mantém ligações acadêmicas há anos.

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