
VESÚVIO: HONRA E HORROR NO COTIDIANO DE NÁPOLES
Entre enquadramentos primorosos e fotografia elegante, Pompeia: Sob as Nuvens, documentário premiado pelo Festival de Veneza, sintetiza as forças opostas do vulcão que amedronta e conserva quem vive a sua sombra
Maria Morisco abre o portão de ferro e guarda as chaves no bolso do jaleco branco. “Aqui estamos entrando na eternidade”, diz a arqueóloga veterana à jovem colega que a acompanha em silêncio reverente.
A eternidade que se estende diante das duas pesquisadoras é uma sequência de corredores sombrios entulhados de artefatos e obras de arte da Roma Antiga. Trata-se da reserva técnica do Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (MANN). Com uma lanterna, Maria ilumina uma estátua de mármore — um homem de expressão solene, antebraços à frente do corpo como quem gesticula durante um discurso, toga com dobras bem talhadas. A arqueóloga recorda que, antes de ser recolhida ao depósito subterrâneo, essa peça esteve exposta ao público: “Agora ela aguarda o momento de voltar lá para cima, para emergir do esquecimento a que foi involuntariamente relegada”.
No documentário Pompeia: Sob as Nuvens (Sotto le Nuvole), disponível na MUBI, o subsolo do museu tem um gêmeo perverso na rede de túneis que os ladrões de objetos antigos cavam para chegar aos vários sítios arqueológicos ao redor de Nápoles. Conhecidos como tombaroli (palavra italiana para “ladrões de túmulos”, embora eles não se restrinjam a atacar cemitérios), esses criminosos esbanjam ousadia: chegaram a arrancar um afresco inteiro das paredes de um templo. O filme acompanha o trabalho de Nunzio Fagliasso, promotor público de Nápoles que combate essa pilhagem da história antiga. Também apresenta o cotidiano de outros tantos personagens, como os atendentes de uma central telefônica do corpo de bombeiros e os marinheiros sírios de um navio atracado na cidade italiana.

Sem pressa, o diretor Gianfranco Rosi vai desvendando relações insuspeitas entre essas pessoas tão diversas. Sua narrativa ressalta um ponto em comum: todas elas vivem à sombra do Vesúvio, vulcão que, no ano de 79 d.C, arrasou as cidades de Pompeia, Herculano e Estábia – e que ainda hoje segue ativo.
Pompeia: Sob as Nuvens foi filmado em um preto e branco carregado de contrastes. Essa fotografia elegante avoluma as formas dos gases que sobem do vulcão até o céu. Compreende-se assim a frase do poeta e cineasta francês Jean Cocteau que ocupa a tela no início do filme: “O Vesúvio fabrica todas as nuvens do mundo”.
As comunidades de americanos miseráveis no deserto da Califórnia, as guerras do Oriente Médio e as viagens do papa Francisco estão entre os temas dos documentários anteriores de Rosi, cineasta que é cidadão da Itália e dos Estados Unidos. Para filmar Pompéia: Sob as Nuvens, ele morou três anos em Nápoles. Contemplado com o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza do ano passado, o filme foge às convenções do documentário. Não há narração: só os personagens falam, e sempre uns com os outros, nunca com a câmera. Tampouco aparecem na tela as tradicionais legendas para identificar as pessoas em cena — seus nomes figuram apenas nos créditos finais.
O espectador aprende muito sobre o patrimônio histórico napolitano nesse filme, mas seu objetivo primordial não é transmitir informação, e sim convidar à contemplação. A câmera está quase sempre parada, em enquadramentos primorosos dos edifícios e ruínas de Nápoles e arredores. O compositor inglês Daniel Blumberg, vencedor do Oscar com a impetuosa trilha sonora de O Brutalista, fez para o filme de Rosi uma música suavemente atmosférica. O silêncio impera.

As sequências mais ruidosas se dão na central telefônica dos bombeiros, que recebe todo o tipo de chamadas: uma criança tenta passar um trote, um homem telefona só para saber que horas são, uma mulher aflita pede socorro porque seu marido ameaça espancá-la. Nesse retrato concentrado do cotidiano, o Vesúvio tem um lugar de honra e horror. Dos bairros mais próximos ao vulcão, chegam aos bombeiros pedidos de socorro quando a lava causa pequenos incêndios. Em uma noite de abalo sísmico — 3,5 pontos na escala Richter —, a central explode com chamadas angustiadas.
Na ausência de um narrador, algumas explicações são trazidas pelo cinema. Uma cena extraída de Viagem à Itália (1954), filme de Roberto Rossellini estrelado por sua então mulher, Ingrid Bergman, mostra como se fazem os famosos moldes dos mortos de Pompeia: o espaço oco que os corpos deixaram na lava endurecida é preenchido com gesso. Obtém-se assim a forma de um ser humano no momento de sua morte, há quase vinte séculos.
No documentário, esta e outras cenas de filmes antigos são exibidas na tela de um cinema abandonado de Nápoles. Com paredes caídas e cadeiras quebradas, o lugar é uma ruína moderna, que só não é saqueada pelos tombaroli porque não guarda nada de valor.
A delicada dialética entre a preservação e a destruição da história está no centro do melancólico filme de Rosi. O Vesúvio sintetiza essas duas forças opostas: guarda o poder de arrasar cidades, mas também de conservá-las sob a lava solidificada.
Na entrevista à MUBI, Gianfranco Rosi diz que pensa em Nápoles como “uma imensa máquina do tempo”. Pompeia: Sob as Nuvens nos traz as imagens mais deslumbrantes que essa máquina projeta sobre as ruínas.


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