Conheça 9 curiosidades divertidas e improváveis que você nunca imaginou sobre o País Basco, um dos destinos mais sofisticados da Espanha, com uma concentração incomum de restaurantes premiados, arquitetura de vanguarda e tradição vinícola centenária.
1 - Museu preserva mais de cinco mil peças de Balenciaga
O museu dedicado a Cristóbal Balenciaga, em Getaria, preserva mais de cinco mil peças sob rígido regime de conservação e reforça a sua obsessão pelo equilíbrio entre tecido, corpo e vazio. Uma breve visita revela um estilista reservado, que concedeu apenas duas entrevistas ao longo da vida e registros raros de sua produção e bastidores de ateliê.

Suas coleções, com cerca de 200 criações por temporada, eram concebidas com precisão milimétrica — o processo de trabalho envolvia centenas de peças, costureiras e padrões técnicos. Nas salas dedicadas a exposições temporárias, trava diálogos inesperados com outros criadores, como Givenchy — seu discípulo direto — e homenagens a artistas como Joan Miró e Eduardo Chillida.

Este último, aliás, assina o logotipo da fundação Balenciaga. A relação entre os dois não se limita a essa homenagem. É apresentada pelas instituições que preservam seus legados como uma afinidade de pensamento: ambos partem de uma lógica de depuração extrema, onde a forma é reduzida ao essencial e a matéria é tratada com rigor quase arquitetônico.
2 - Um jardim de esculturas de grande escala
Eduardo Chillida foi um escultor basco importante do século XX, cuja ligação com Balenciaga, a quem considerava humilde, sensível e inteligente, remonta à sua primeira infância.
A obra que fez em homenagem ao estilista, em que transforma chapas monumentais de aço corten em uma espécie de manto abstrato, está exposta no jardim do Museo Chillida Leku, a cerca de 10 km de San Sebastián.

Entre os planos metálicos surge uma silhueta feminina sugerida pelo vazio, numa tradução escultórica daquilo que Balenciaga fazia com o tecido: criar volume, elegância e espaço por meio da forma.
Chillida, admirador de Mozart e Vivaldi, buscou esse espaço verde e amplo ao ar livre para que suas obras, entre carvalhos e magnólias, pudessem ser apreciadas durante um passeio pelo bosque.

Quem diria que, antes de se dedicar às artes, foi goleiro da Real Sociedad? Chillida e seus mediadores costumam evocar essa atividade como parte de uma relação precoce com o espaço, o corpo e a noção de limite — temas que mais tarde se tornaram centrais em sua obra escultórica.
3 - Milhares de garrafas de vinho no fundo do mar
Se a paisagem verdejante complementa as obras de Chillida, as particularidades do fundo do mar são indispensáveis ao trabalho da Crusoe Treasure, que desenvolveu um método de envelhecimento de vinho que ainda é raro no mundo, a maturação subaquática em estruturas de concreto e aço, que funcionam simultaneamente como adega e recife marinho.
A cerca de 20 metros de profundidade, estão armazenadas milhares de garrafas organizadas em jaulas submersas no mar Cantábrico, na costa do País Basco, nas proximidades da praia de Muriola, usada como locação de Game of Thrones na cena do desembarque de Jon Snow em Pedra do Dragão.

Os primeiros experimentos, há mais de 15 anos, testaram como variáveis extremas, como pressão, escuridão total, temperatura estável e movimento constante da água, poderiam alterar a evolução do vinho em garrafa.
Degustações comparativas indicam diferenças consistentes em relação ao mesmo vinho envelhecido em terra: maior intensidade de cor, perfil aromático mais fresco e textura mais integrada, com sensação de maior untuosidade.

A megaoperação de retirada dos vinhos exige uma logística pouco convencional. Mergulhadores localizam as jaulas no fundo arenoso, nas quais as garrafas estão envolvidas por um rico microcosmo com centenas de espécies marinhas registradas, e as conectam a um barco equipado com guindaste, capaz de içar de uma só vez estruturas com cerca de 500 garrafas e centenas de quilos de sedimentos acumulados.
O resultado é um sistema híbrido que combina produção enológica, pesquisa científica e regeneração marinha — uma das propostas mais incomuns do universo do vinho contemporâneo.
4 - O Gran Reserva da região de Rioja mais vendido do mundo
Nascido em uma vinícola familiar de mais de 160 anos, cercada por vinhedos no norte da Espanha, o Gran Reserva da Rioja mais vendido do mundo é produzido pela Bodegas Faustino.
O Faustino I tornou-se um dos rótulos mais reconhecidos do vinho espanhol e ajudou a levar a marca a mais de 140 países. A operação é gigante: são mais de 60 mil barricas, cerca de nove milhões de garrafas armazenadas e exemplares de safras históricas, como a de 1955, ainda preservados em sua adega.

Por trás desse sucesso está uma empresa que continua nas mãos da quarta geração da família Martínez Zabala e que recentemente passou por uma profunda transformação.
Em 2024, a vinícola inaugurou um novo complexo desenhado por Norman Foster, um dos arquitetos mais celebrados do mundo. O projeto combina soluções de eficiência energética, captação de água da chuva e integração à paisagem da Rioja.

Nem a icônica garrafa do Faustino I escapou da história. Embora seu rótulo exiba um retrato pintado por Rembrandt em 1641, elementos visuais que ajudaram a tornar a marca reconhecível em todo o mundo seguem presentes em sucessivas atualizações de design.

5 - O mais basco dos vinhos é leve, fresco e jovem
Se os vinhos de Rioja, primeira região da Espanha a se consolidar internacionalmente, são tintos de grande capacidade de envelhecimento, o txakoli, vinho mais tradicional do País Basco, é o extremo oposto. Trata-se de um branco leve, de alta acidez, com uma suave efervescência, que deve ser bebido jovem e fresco.

Historicamente produzido de forma doméstica e associado ao consumo local, à mesa e em copo, seu nome é frequentemente ligado à expressão em euskera etxeko ain, algo como “suficiente para a casa”, refletindo sua origem camponesa e artesanal.
Feito a partir de uma uva autóctone, a ondarrabi zuri, destaca-se pela acidez marcante, mineralidade e salinidade, resultado direto do clima atlântico úmido e da proximidade do mar.
Essa imagem começou a mudar nas últimas décadas graças a novas gerações de produtores up to date e trabalhos modernos como o da Bodega K5, que pertence a cinco amigos bascos, dos quais um ator e apresentador famoso na televisão, Karlos Arguiñano.

Parte da identidade gastronômica basca contemporânea, o txakoli foi impulsionado pelo turismo culinário e pela associação com a alta cozinha da região. Hoje, vive um processo de revalorização e diversificação, com estilos que vão do vinho jovem a versões capazes de evoluir por anos em garrafa.
6 - Filme inspirou a gilda, o mais clássico dos pintxos
Os pintxos, pequenas porções servidas sobre pão ou espetadas por um palito, são uma das expressões mais características da cultura gastronômica basca. Sintetizam um modo de convivência que mistura gastronomia, sociabilidade e identidade local, a ponto de muitos bascos considerarem impossível dissociá-los dos bares e do contexto em que são consumidos.

Desde que começaram a se popularizar, nos anos 1920, em San Sebastián, nenhuma receita alcançou o status da gilda. Formada por uma combinação simples de azeitona, anchova e pimenta guindilla atravessadas por um palito, ela se tornou o símbolo máximo da tradição dos pintxos.
Seu nome foi inspirado no filme “Gilda”, estrelado por Rita Hayworth, e ajudou a transformar uma receita elementar em um ícone gastronômico. Hoje, a gilda permanece como referência obrigatória nos balcões bascos e é vista como a essência da cozinha local: poucos ingredientes, técnica mínima e equilíbrio preciso entre salinidade, acidez e picância.
7 - Comer estrelas
San Sebastián, aliás, se consolidou como um dos epicentros da gastronomia mundial. Em um perímetro reduzido ao redor da cidade, concentra-se a maior densidade de estrelas Michelin por quilômetro quadrado do planeta, segundo dados do turismo oficial de Gipuzkoa.

Essa relevância se explica por um ecossistema singular e não somente pela excelência dos restaurantes — os mais influentes da alta cozinha contemporânea no mundo, como o Arzak, há mais de um século sob o comando da mesma família.

Tradição doméstica enraizada, forte cultura de sociedades gastronômicas (txokos), acesso a produtos do mar Cantábrico e uma rede institucional de formação e inovação, hoje simbolizada pelo Basque Culinary Center. Juntos, esses elementos fazem da cidade um território onde a alta gastronomia faz parte estruturante da vida cultural e social.
8 - Fábrica de sal mais antiga do mundo atrai chefs estrelados da Espanha
Muitos desses chefs estrelados da Espanha usam o sal do Valle Salado de Añana, a salina mais antiga do mundo, em operação contínua há pelo menos 7.500 anos no País Basco. E como pode existir produção de sal a quase 100 quilômetros de distância do mar? O mineral é extraído de uma salmoura ultraconcentrada de nascentes que são resquícios de um mar evaporado há cerca de 200 milhões de anos, cuja água ficou aprisionada no subsolo.

Hoje, a chuva atravessa esses depósitos e retorna à superfície em forma de salmoura hipersalina, com concentração próxima à do Mar Morto, um dos corpos d'água mais salinos do planeta. Seu produto mais raro e valorizado pela nata da alta gastronomia espanhola é o chuzo, uma estalactite de sal que cresce lentamente sob os canais de madeira das salinas ao longo do verão, cujo quilo pode custar até € 300.
Durante décadas, essas formações foram descartadas ou usadas como brinquedo pelas crianças do povoado.

9 - A garrafa mais antiga de Rioja
Por falar em antiguidades, a vinícola Marqués de Riscal, fundada em 1858 na pequena vila medieval de Elciego, em Rioja Alavesa, guarda a garrafa mais antiga preservada da Rioja, da safra de 1863, e ajudou a projetar os vinhos da região para o mercado internacional.

O que se impõe na vinícola, porém, são as curvas de titânio do hotel de luxo do complexo, a “cidade do vinho", que reúne spa, restaurantes e adegas históricas. Desenhado por Frank Gehry, o mesmo arquiteto do Museu Guggenheim Bilbao, converteu-se em símbolo audacioso do enoturismo europeu.
Gehry revestiu a estrutura com lâminas metálicas douradas, rosadas e prateadas, cores inspiradas em elementos da histórica garrafa da vinícola. O dourado remete à antiga malha metálica que envolvia as garrafas, o rosa ao vinho e o prata à cápsula que sela a bebida.














