A França conta com mais de 40 mil castelos, dos quais 11 mil são oficialmente tombados pelo patrimônio histórico.
Como cerca de 80% dessas propriedades pertencem ao setor privado, os castelos viraram fonte de receita de herdeiros e proprietários que enfrentam dificuldades para arcar com os altos custos de manutenção dessas propriedades históricas.
“As despesas são colossais: aquecimento, manutenção dos telhados, segurança, seguros contra incêndio e acidentes, jardinagem, restauração e pessoal,” diz Christophe Tailleur, proprietário do Château de Collias. “Sem atividade econômica, torna-se quase impossível conservar um patrimônio desse porte em boas condições. Cada euro gerado pelas locações é reinvestido na melhoria e preservação constante da propriedade.”
Aluga-se o château e l’argent preserva o patrimônio, gera receita e mantém viva a tradição familiar.
Ou seja, todo mundo ganha. Principalmente o turista que tem à disposição uma larga escolha de estilos e épocas para vivenciar o seu próprio conto de fadas: desde fortalezas robustas da Idade Média e palacetes ornamentados da Renascença até as elegantes propriedades erguidas no século XIX.
“Há novas tendências em curso,” diz Marie de Varax, proprietária, junto com seu marido Xavier de Varax, do Château de Collanges, localizado na rica região da Saône-et-Loire, na Borgonha. “Os hotéis absorvem mal certas dinâmicas, e as residências secundárias comuns já não respondem mais ao desejo dos clientes. Vemos um movimento forte de grupos que querem interagir, mas em um lugar funcional e que proporcione intimidade,” diz.

Essa percepção é compartilhada por Christophe Tailleur. Ele observa que o fenômeno reflete a própria globalização das famílias modernas.
“Muitas famílias hoje estão frequentemente dispersas pelo mundo: filhos, pais e avós vivem em países ou até continentes diferentes. O castelo surge, então, como a oportunidade perfeita para reunir todos em um único local, com o charme e o espírito de uma grande casa de família,” diz Tailleur, cujo modelo de negócios evoluiu de um hotel clássico para uma residência privada de alto padrão, alugada em sua totalidade para estadas, casamentos e seminários.
A quebra do preconceito de que o aluguel de um castelo é um produto financeiramente inatingível também impulsiona o setor. Segundo Estelle André, gerente da plataforma especializada na privatização de castelos para casamentos, finais de semana e férias, Votre Château de Famille, o setor registra um crescimento anual de 5% a 6% nas plataformas de locação por temporada, impulsionado fortemente por estrangeiros (Estados Unidos, Canadá, Suíça, Bélgica e Inglaterra), com pouca demanda da América Latina – por enquanto.
Na prestigiada plataforma Le Collectionist, especializada no aluguel de propriedades de alto luxo e de perfil ultrapremium, o reflexo desse boom é nítido: o número de estadias em castelos dobrou entre os anos de 2020 e 2025.
“As pessoas costumam achar que é algo exclusivo para milionários, mas quando dividem os custos entre grupos de 15 a 40 pessoas, percebem que o acesso a espaços tão amplos, internos e externos, compensa muito,” diz Estelle.
A estrutura comercial se adapta a diferentes orçamentos através de uma oferta variada. Na plataforma Votre Château de Famille, os castelos que podem acolher entre 12 a 15 pessoas, o preço médio é de € 4 mil por semana. Para castelos maiores, acomodando até 40 pessoas, o preço é de até € 25 mil por semana.
No site Le Collectionist, a semana nos castelos oferecidos pela plataforma fica entre € 5 mil a € 10 mil por semana. Nas propriedades de alto padrão, os preços ficam entre € 15 mil a € 35 mil por semana. Mas podem ficar ainda mais altos, durante o verão europeu sobretudo na Côte d'Azur (de € 50 mil a € 100 mil por semana).
Curiosamente, quem aluga um castelo na França hoje não busca necessariamente turistar pelas redondezas da mesma forma que um viajante comum. Uma vez cruzados os portões de ferro, muitos hóspedes tendem a permanecer na propriedade, no que o mercado chama de “efeito casulo.”
“Eles não saem muito das propriedades. Preferem aproveitar os jardins, as piscinas e as quadras de tênis dentro do próprio castelo. Para as crianças é ótimo, os corredores labirínticos viram brincadeira e as pessoas dividem o espaço sem estarem apertadas,” diz Estelle André.
E quando decidem sair, o foco é a imersão na cultura e no terroir (vinhedos e gastronomia regional). A maior parte das propriedades mais demandadas do segmento de alto luxo fica em regiões vitivinícolas. Mas o que importa no fim é o tempo passado juntos em um lugar que tem história, focado nos produtos locais.
Além da localização, o mercado se moldou para oferecer estadias temáticas imersivas que os norte-americanos e anglófonos adoram: retiros de ioga, oficinas de culinária, pâtisserie francesa, música e pintura, todos fascinados pelos imponentes jardins à la française.
Para garantir a perfeição, os proprietários articulam uma rede invisível de prestadores de serviços locais de alta qualidade: transporte, cabeleireiros, cuidadores e, principalmente, chefs de cozinha em domicílio e empresas de buffet.
“Para um grupo de 20 pessoas, ter um chef cozinhando, servindo e limpando é o que torna as férias eficientes, úteis e verdadeiramente relaxantes,” diz Marie de Varax.
No entanto, o maior desafio reside em equilibrar o conforto exigido (climatização, cozinhas modernas, roupas de cama impecáveis, Wi-Fi) com a autenticidade histórica.
No Château de la Bouillerie, os irmãos Arnaud et Bretel de La Bouillerie defendem firmemente a preservação da alma residencial do local. “Nós não quisemos transformar o castelo em um hotel. Nós o alugamos por inteiro para que as pessoas venham se resgatar em um local calmo, cercado de 360 hectares de terras, experimentando a vida de castelo como se estivessem em sua própria casa. O charme daqui vem da sua encarnação: os quadros nas paredes representam nossos ancestrais, o mobiliário é o original e há até o retrato de um membro da família que foi ministro de Napoleão decorando a entrada,” diz Arnaud.
Para manter o equilíbrio financeiro, a família une o turismo à exploração agrícola e à silvicultura nas terras ao redor. As reformas são feitas minuciosamente. Recentemente, encararam o desafio de restaurar uma pequena edificação histórica no jardim, um caramanchão, classificada como monumento histórico junto com uma alameda de tílias tricentenárias.

A restauração seguiu plantas originais encontradas nos arquivos da família. O próximo passo será a restauração da capela privada do domínio, que abriga um vitral tombado do século XV.
Essa paixão pelo restauro também moveu o casal Xavier e Marie de Varax no Château de Collanges, na Borgonha. O castelo data originalmente do século XVI e funcionava como uma fortaleza de defesa, com suas imponentes escadas em caracol, tendo passado cerca de 100 anos abandonado antes de ser adquirido pelo casal há três décadas.
“Meu marido conhecia a vida de castelo desde o seu nascimento, frequentava essas propriedades na infância e quis recriar esse mesmo espírito para nossos filhos,” relembra Marie de Varax. Após mais de 100 anos sem nenhuma melhoria estrutural, o casal encarou obras pesadas de engenharia e aquecimento para trazer o monumento de volta à vida, mantendo o charme medieval aliado à modernidade.
A região da Saône-et-Loire enriquece a estadia dos hóspedes de Collanges com sua forte identidade local: a famosa carne de Charolles, paisagens retratadas em quadros desde o século XV, cavalariças reais, mosteiros medievais como Cluny, centros de teologia (Taizé) e restaurantes estrelados ideais para passeios de bicicleta.
Olhando para os próximos anos, os proprietários enxergam um futuro promissor, pautado na qualidade e na sustentabilidade do negócio. No Château de la Bouillerie, os planos incluem a finalização das obras das antigas fazendas agrícolas reformadas do domínio, o que expandirá a capacidade de hospedagem do complexo para focar também em pequenos casamentos íntimos, retiros e seminários corporativos de diretoria, onde o silêncio e o isolamento rural são ativos valiosos para a reflexão.
O sentimento geral entre os que guardam essas joias arquitetônicas francesas é o de que os castelos são monumentos vivos, que precisam das pessoas para continuar existindo.
“Um castelo não pode ficar estático no tempo: ele deve ser habitado, cuidado, compartilhado e integrado à sua época,” diz Christophe Tailleur. “Desejamos que ele seja reconhecido pela qualidade da experiência que oferece, mas, acima de tudo, que continue sendo uma casa de verdade, viva, bem cuidada e transmitida para as próximas gerações com profundo respeito à sua história.”















