Monte Carlo, os Monteiro de Carvalho e as neuroses do prazer

Monte Carlo, os Monteiro de Carvalho e as neuroses do prazer

Em épocas de Grand Prix, o caso de quase desaparecimento da cachorra do presidente da França segue viva

Em um passado não tão distante, Monte Carlo ainda não era uma vitrine de novos ricos desesperados por reconhecimento. O dinheiro existia, naturalmente. E muito. Mas tinha sobrenome, educação e a delicadeza de não precisar se apresentar.

Assistir ao Grand Prix a convite de Evinha e Baby Monteiro de Carvalho era uma dessas obscenidades maravilhosas que a vida proporciona a alguns privilegiados.

Hospedagem numa casa art nouveau em Cap Ferrat, jantar no Rampoldi, madrugada no Jimmy’z. Dom Pérignon nas taças, caviar servido com a displicência de quem oferece amendoins e mulheres capazes de comprometer a fidelidade dos homens mais respeitáveis. Principalmente dos que se diziam fiéis.

Era uma época em que o pecado ainda tinha bons modos. E bons perfumes.

No Jimmy’z, Régine cometeu a imprudência de mandar a princesa Stéphanie descer de uma mesa. Semanas depois, perdia a concessão da boate. Em Mônaco, a monarquia tolera escândalos, desaforo é outra história.

No dia da corrida, almoço no Le Louis XV, no Hôtel de Paris, sob a batuta de Alain Ducasse. A sobremesa vinha no terraço de uma suíte com vista para o circuito. Emerson Fittipaldi circulava com Maria Helena, Katia Vita era presença constante e Baby observava tudo com aquela elegância insolente de quem não precisa provar absolutamente nada.

O Dom Pérignon chegava gelado à temperatura exata da irresponsabilidade. Algumas mulheres ostentavam joias que custavam apartamentos em Paris. Outras dispensavam as joias – eram infinitamente mais perigosas.

Que mundo! As pessoas tinham histórias, não perfis. Tinham amantes, não engajamento. Ninguém fotografava o caviar antes de comê-lo (seria considerado um sintoma grave de pobreza espiritual).

Mas o grande escândalo daquela temporada não envolveu príncipes, milionários ou alguma beldade sobre uma mesa. Envolveu uma cachorra.

Wandá, a cachorrinha de François Mitterrand, presidente da França.

Numa tarde ensolarada, o empresário da noite, Ricardo Amaral, pediu a pequena emprestada para passear. O homem acostumado a administrar as madrugadas mais sofisticadas do planeta estava prestes a descobrir que controlar milionários bêbados era mais fácil do que tomar conta da cachorra de um presidente.

A autorização veio acompanhada de recomendações quase diplomáticas. Ricardo, Katia Vita e Gisella foram ao porto de Beaulieu. Sentaram-se num café, colocaram Wandá debaixo da mesa e começaram a conversar. Provavelmente sobre mulheres. Freud teria enlouquecido naquela Riviera. Terminaram a conversa, levantaram-se e foram embora.

Sem a cachorra. A cachorra de Mitterrand!

Ao chegarem em casa, bastou Ricardo avistar Arlette para sentir o sangue desaparecer das veias. Deu uma ré digna de Emerson Fittipaldi e voltou desesperado ao porto. Katia encontrou Wandá nos braços de um inglês que se preparava para levá-la ao seu barco.

Imaginem a manchete: Cachorra do presidente francês desaparece em Monte Carlo e é encontrada com inglês. Napoleão perdeu Waterloo para os britânicos; Ricardo Amaral quase perdeu Wandá em Beaulieu. A França realmente não tinha sorte com aquela turma.

Recuperaram a pequena. Respiraram. Ricardo, Katia e Gisella juraram jamais revelar o episódio. Naturalmente, o juramento foi quebrado. Afinal, para que serve uma vida extraordinária se não podemos contar nossas próprias imbecilidades?

Entre príncipes, campeões mundiais, Dom Pérignon, caviar e mulheres capazes de arruinar fortunas com um sorriso, uma das melhores histórias daquela Monte Carlo continua sendo o dia em que quase perderam a cachorra do presidente da França.

O dinheiro compra suítes no Hôtel de Paris, iates, champanhe e até a companhia de certas mulheres. O desejo delas, jamais. Mas não compra uma boa história.

Hoje, milionários do Instagram gastam fortunas para simular uma existência interessante. Aquela turma vivia tão intensamente que, entre uma taça e outra, esquecia até a cachorra de um presidente. A decadência da civilização começou quando o homem passou a fotografar o champanhe em vez de bebê-lo.

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