Houve um tempo em que era preciso ter talento até para ser cafajeste, além de charme, inteligência, um bom alfaiate e aquela malandragem que não se aprende em universidade.
Hoje, basta um celular, meia dúzia de seguidores e uma imbecilidade dita com convicção. Naquele tempo existia Ibrahim Sued, o Turco! Camisa aberta até o quarto botão, corrente de ouro no peito, charuto entre os dedos e um Black Label à mão.
Uma mistura de jornalista, imperador da madrugada, cafajeste ilustrado e Freud de botequim. Truculento, generoso, vaidoso, engraçado, insuportável: um homem interessante. Coisa rara neste País de sujeitos comportados e pensamentos indecentes.
Ibrahim não frequentava a sociedade, ele a inventava. E, quando se aborrecia, a destruía com meia dúzia de palavras. Transformava uma pizzaria em Versailles e um milionário em indigente social pelo simples exercício do silêncio. Descobriu cedo que dinheiro compra uma mesa, mas não garante que alguém interessante queira sentar-se nela.
Veio de baixo: foi fotógrafo, frequentou a lendária Turma dos Cafajestes, de Carlinhos Niemeyer e Mariozinho de Oliveira, circulou pela boate Vogue e conquistou O Globo, com Roberto Marinho, e a Manchete, de Adolfo Bloch.
Passou por Diretrizes, ao lado de Joel Silveira, e por A Vanguarda. Não nasceu aristocrata, preferiu fazer coisa muito mais divertida: obrigou a aristocracia a pedir sua bênção.
Inventou expressões, escândalos e personagens, como a misteriosa Dama de Preto, que poderia ser qualquer senhora da sociedade carioca. E decretou: “em sociedade, tudo se sabe.”
Na televisão, despedia-se com seu delicioso “e agora que vocês estão bem informadinhos, boa noite e à demain.” Falava um português que faria um gramático pedir aposentadoria e um francês provocar uma crise diplomática em Paris.
Mas dominava a informação como poucos. Presidentes, ministros, empresários e mulheres belíssimas alimentavam sua rede de confidências. Tinha mais informantes que os serviços secretos e mais inimigos que um homem sincero num jantar de casamento.
Seu escritório, na esquina da rua Copacabana com a Siqueira Campos, era uma central de inteligência. Por lá passaram Elio Gaspari e Ricardo Boechat. O Turco não precisava investigar a sociedade, a sociedade vinha até ele confessar os próprios pecados. Anos de consultoria de Freud economizados.
Foi rejeitado pelo Country Club. Levou bolas pretas e jamais esqueceu. Retribuía com notas ferinas. O clube lhe negava a entrada, e ele devolvia a gentileza negando aos sócios o direito à paz. Era a luta de classes ao contrário: o homem que veio de baixo fazendo a elite subir pelas paredes.
Mas sua verdadeira universidade começava depois das dez da noite. Sacha’s, Régine’s, Hippopotamus, Bateau, Number One, Michel, Flag, Alô Alô... Ibrahim cumpria um circuito de pelo menos três casas por madrugada. Conhecia garçons, maîtres, embaixadores, artistas, milionários e mulheres fatais. Sabia quem estava com quem, quem devia a quem e quem fingia não conhecer quem.
O Rio era seu escritório noturno. A madrugada, sua secretária particular.
Na pizzaria Bella Blu, de Chico Recarey, criou um espaço VIP que virou uma espécie de Vaticano da frivolidade carioca. Entrava-se para comer pizza e saía-se com a sensação de ter recebido um título de nobreza. Ibrahim compreendeu uma verdade que os sociólogos complicam em quinhentas páginas: a alta sociedade é a baixa sociedade com melhores alfaiates e garçons mais discretos.
Bebia até um litro de Black Label por dia e fumava seus Romeu e Julieta Churchill. Distribuía gorjetas generosas, ironias mortais e desafetos vitalícios. Certa vez, arremessou um prato num garçom do Copacabana Palace, sob os olhos do velho Octávio Guinle. Acabou proibido de frequentar o hotel.
Imagine, ser expulso do Copa e continuar sendo Ibrahim Sued! Hoje faria um vídeo chorando, pediria desculpas à humanidade e contrataria uma assessoria de imagem. O Turco provavelmente acenderia outro charuto.
Era amigo dos amigos. Promovia artistas, bancava viagens, ajudava os íntimos. Mas não perdoava uma boa piada. Seu protegido Eugênio Carlos, o Batista, era apresentado como o único entalhador do mundo sem calos nas mãos.
Tinha o talento de abraçar um amigo e esfaqueá-lo com uma frase, sem derramar uma gota de sangue. Nem de uísque. E as mulheres? Ah, as mulheres!
Bonitão na juventude, fez sucesso extraordinário. Casou-se com a elegante Glorinha Drummond, da sociedade mineira, com quem teve Bebel e Eduardo. Foi pai de família, empresário, boêmio e um monumento à contradição masculina. Depois da separação, entregou-se às paixões com o entusiasmo de quem confundia o coração com uma boate aberta até o amanhecer.
Com Ângela Diniz viveu uma paixão perigosa, dessas em que o desejo deixa de ser poesia e começa a pedir intervenção policial. Segundo Ricardo Amaral, chegou a andar armado e precisou ser desarmado pelo amigo em Salvador, à saída de um restaurante na Ladeira da Conceição.
Freud pediria a garrafa inteira.
Mais tarde, Ângela se aproximaria de Doca Street durante um fim de semana na casa de Adelita Scarpa, em São Paulo. O relacionamento terminaria tragicamente em Búzios, com seu assassinato por Doca. Ricardo Amaral confessou ter pensado que aquilo poderia ter acontecido com Ibrahim.
É aí que a crônica perde o sorriso. Porque o ciúme, quando se fantasia de amor, pode transformar a paixão em brutalidade. E brutalidade não tem nada de romântico.
Ibrahim sabia ganhar dinheiro e gastá-lo com uma elegância quase irresponsável. Participou de negócios, promoveu restaurantes e, ao lado de Ricardo Amaral, ajudou a trazer ao Brasil, em 1967, o conjunto Sérgio Mendes Brasil 66.
No fim dos anos 1980, começou a demonstrar cansaço. Diminuíram as festas e as madrugadas intermináveis. Conheceu Simone Rodrigues, companheira de seus últimos anos. Passou a desfrutar Paris e Saint-Tropez, hospedando-se no Plaza Athénée e no Byblos.
O homem que falava um francês criminoso ostentava a comenda da Legião d’Honneur e representava a Vogue francesa no Brasil. Isso não é uma biografia. É uma ópera-bufa com serviço de quarto cinco estrelas.
Foi imitado por Agildo Ribeiro durante anos na televisão. E aconteceu algo extraordinário: Ibrahim ficou tão famoso que começou a parecer uma imitação do próprio imitador. Criou um personagem tão poderoso que acabou sendo engolido por ele. Foi tema de músicas, enredo de escola de samba, assunto obrigatório em salões e botequins. Poucos jornalistas conheceram tamanha popularidade.
O Turco pertenceu a um Brasil que desapareceu. Um País em que os poderosos tinham nome, sobrenome, amante, alfaiate, mesa cativa e um medo desgraçado de aparecer na coluna do dia seguinte.
Hoje temos influenciadores que contam visualizações. Ibrahim contava presidentes ao telefone. Eis a diferença entre aparecer e existir: o Turco não precisava ser amado, precisava ser lido. E era.
Porque Ibrahim compreendeu, antes de muita gente, que a sociedade brasileira não é movida apenas pelo dinheiro. É movida pela vaidade. E a vaidade, meus caros, é o único vício que o sujeito pratica diante do espelho e ainda chama de virtude.
Era um psicanalista sem diploma, um sociólogo sem universidade e um malandro com extraordinário faro social. Sabia que por trás de cada sobrenome ilustre havia um pequeno burguês desesperado para ser convidado à próxima festa.
Ibrahim não inventou a frivolidade brasileira, apenas lhe deu endereço, mesa, champanhe e uma coluna no jornal. Hoje qualquer idiota pode ficar famoso. O Turco viveu numa época em que até para ser inconveniente era preciso ter talento.
E talento, meus caros, não se compra com dinheiro, não se herda com sobrenome e muito menos se conquista com seguidores. O Turco sabia disso. E cobrava a conta.















