
BrazilFoundation com dendê: o molho da baiana Ju Ferraz
Chairwoman da festa da instituição filantrópica que mobilizou mais de US$ 60 milhões em 25 anos de atuação, a baiana relembra sua trajetória e conta como o agito, que acontece este mês, é um dos pontos altos da sua carreira
Existe um provérbio árabe que diz: “quem planta tamareiras não colhe tâmaras, semeia sombras.” Uma referência ao longo tempo que as tamareiras podem levar para crescer em uma história que simboliza altruísmo, paciência e valor para as próximas gerações. Juliana Ferraz lembra quando ouviu a reflexão pela primeira vez em um encontro com a empresária e conselheira Rachel Maia — um pensamento que, tal qual as sementes das tamareiras, germinou e se tornou missão de vida para Ju (como carinhosamente é conhecida no mercado). Não que a vida da baiana tenha sido sempre sombra e água fresca: nascida em Salvador, ela começou trabalhando com colunismo social e virou uma das maiores referências em festas, experiências para marcas e grandes eventos, do Rock in Rio ao Lollapalooza, passando pelos Camarotes N°1 na Sapucaí. Com uma carreira marcada por desafios, ela decidiu se mudar para São Paulo aos 23 anos em busca de uma vida melhor para sua família. Agora, no dia 20 de abril, ela volta à sua terra natal no posto de chairwoman da primeira edição do BrazilFoundation em Trancoso, a convite da organização sem fins lucrativos que mobiliza recursos para investir em ações que transformem o País por meio de oportunidades e da equidade e que, para Ju, vem para coroar sua história pessoal, profissional e a missão que tomou para si.
A trajetória de Ju Ferraz é um caminho de encontros, desencontros e reencontros consigo mesma, construída com base em erros, acertos e grandes referências, como a avó Julita. “Nasci em Salvador e sou neta de uma mulher chamada Julita Ferraz. Enquanto as mulheres eram donas de casa, minha avó era professora de português, de latim e de francês. Meu pai morreu quando eu tinha 15 anos atropelado pelo próprio carro e minha vida virou de cabeça para baixo. Ali começou minha compulsão alimentar, muito porque entendi que não tinha mais condições financeiras como tinha antes. Aos 23, descobri que estava grávida e casei com meu namorado, quando entendi que precisava ir para São Paulo para sustentar meu filho e dar a vida que eu não puder ter. A Bahia, apesar de maravilhosa, mágica e potente, não iria me dar as condições que precisava,” disse. Na busca por construir uma carreira sólida, passou por dois burnouts, um aos 32 e outro aos 38, o que trouxe a clareza de que precisava redesenhar sua própria história: “Naquela época, o trabalho era uma extensão da minha casa, e minha casa uma extensão do meu trabalho. Me separei do meu primeiro marido por isso. Deixei de ir a casamentos e aniversários. Esperava um reconhecimento dos meus líderes que nunca existiu, porque eu estava fazendo além do que eles me pediam por escolha própria. Aquele era o meu jeito de ser, e me sentia como um hamster correndo em uma daquelas rodas. Descobri que a vida pode, sim, ser vivida com equilíbrio.”
Essa dinâmica de vida e trabalho cobrou seu preço, não só para a saúde, mas também para a forma que Ju levava as relações. O ponto de virada veio de um encontro com a mentora e coach Ana Raia, que a ajudou a enxergar seu propósito de vida: “Já fui tóxica como líder, principalmente porque reproduzia o que via. E tenho muito arrependimento de certas condutas que tive. Se pudesse voltar vinte anos teria feito diferente. Precisei gritar muito, me mostrar muito e entregar muito para que eu fosse valorizada. Também vivi estupros emocionais, invasões que cortam a alma. E como é que costura a alma? Então veio a Ana Raia e com ela eu escutei a palavra propósito pela primeira vez. Agora eu tenho o meu claro: impactar a vida dos outros positivamente. Nem sempre eu acerto, mas hoje exerço a humildade de tentar corrigir a rota quando isso não acontece. Se a gente não erra, a gente não melhora.”
Verdade seja dita: a vida de Juliana continua a mil, mas de uma forma diferente. Depois do encontro com Ana Raia e do reencontro consigo mesma, veio mais espaço para a família, os domingos para as mesas postas, do jeito que ela ama, os arranjos de flores no fim de semana, os jantares com o filho Matheus, de 21 anos, as trocas profundas com a mãe, Luiza, que vive com a família, as escapadas para a casa no interior — uma espécie de santuário em Itu onde poucos já pisaram. Tudo coordenado milimetricamente com a agenda profissional no intervalo de segunda a sexta dedicado para as reuniões de trabalho, os eventos e os conteúdos produzidos para as redes sociais, uma espécie de diário do dia a dia de Ju com reflexões sobre temas como corpo livre, confiança, empreendedorismo feminino e autoestima.
E se em algum momento, no passado, as festas ocuparam um lugar de “oba-oba” e dedicação de corpo e alma, agora elas têm um peso diferente, principalmente depois do convite de José Victor Oliva — Ju chegou à Holding Clube em 2018 e se tornou sócia à frente da divisão de negócios do grupo em 2020, com oito empresas que vão do entretenimento ao conteúdo. “Hoje vejo as festas ainda mais como meu lugar de trabalho. Saio da minha casa para entregar o melhor para o meu cliente, para o público final, para fazer os conteúdos nas minhas redes sociais. Volto, tiro a roupa da Ju Ferraz empresária e me reconecto com a pessoa que descobri com o tempo e com a maturidade: uma mulher de 45 anos, seletiva e que se prioriza. As coisas na minha vida têm profundidade quando precisam ter profundidade, como uma reunião com um cliente ou um evento beneficente, como o BrazilFoundation.”
A missão de receber os convidados, conduzir e organizar a edição do BrazilFoundation, por sinal, é o capítulo atual (mas não final) dessa história. Para Ju é uma volta para casa: “Fazer o BrazilFoundation em Trancoso é como voltar para casa. Passei dez anos fazendo o Réveillon em Trancoso nos tempos de Glamurama, longe do meu filho e da minha família, e perdi totalmente o prazer e a vontade de estar lá. Achava que não pertencia àquele lugar. Mas naqueles dez anos eu também vivi muita coisa boa: fiz amigos, pude ajudar muitas pessoas a se posicionarem e busquei apoiar empreendedores locais.” A noite — um gala tropical para 250 pessoas no Teatro L’Occitane — terá, além da venda das mesas, um leilão especial com 50% do valor arrecadado destinado ao Instituto Capim Santo, que trabalha há mais de 15 anos pela educação, capacitação e sustentabilidade por meio da gastronomia. Os outros 50% serão revertidos para instituições parceiras do BrazilFoundation focadas na capacitação para maior liberdade financeira, emocional e profissional na Bahia. O menu e a cozinha ficam sob a responsabilidade da chef Morena Leite ao lado da mãe, Sandra, que criou o Capim Santo em Trancoso nos anos 80, e a música será no estilo voz e violão, com show de Carlinhos Brown. “Iremos nos unir para mostrar a força de uma terra tão sagrada e para deixar algo positivo para as próximas gerações. Afinal, não tem presente melhor que poder ajudar a vida de pessoas que a gente não conhece. Para mim, especialmente, é um retorno à minha terra, agora como protagonista da minha própria história. Uma história marcada pela beleza do sangue baiano,” disse.


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