
Uma noite no melhor bar do mundo
Sem reservas e com fila na porta bem antes de abrir, o Bar Leone, em Hong Kong, tem motivo de sobra para ser a estrela da coquetelaria atual
Voei para Hong Kong com o propósito de conhecer a renomada cena da coquetelaria local. Meu principal objetivo era viver a experiência de uma noite naquele que hoje é considerado o melhor bar do mundo, de acordo com a lista que se tornou referência neste universo, a The World's 50 Best Bars.
O Bar Leone, uma criação do premiado bartender italiano Lorenzo Antinori, nasceu em 2023 – como uma homenagem aos bares de bairro tradicionais de Roma. A casa leva adiante o conceito de cocktails popolari (cocktails para o povo).
“Nos afastamos da complexidade do que é hoje em dia uma experiência de bar. Focamos em coquetéis que são acessíveis e fáceis de compreender por todos. É um lugar muito democrático, cheio de referências à cultura pop que têm como objetivo final criar uma ligação pessoal entre os clientes e o espaço.”, explica Antinori.

Antes mesmo de desembarcar em Hong Kong, fui avisado para chegar cedo. Afinal, a casa não trabalha com reservas, atende apenas por ordem de chegada. Ciente do horário de abertura, a partir das 17h, achei que chegar às 16h30 seria bastante razoável. Até foi, mas 30 pessoas já estavam enfileiradas na minha frente.
Em menos de 15 minutos, a fila atrás de mim foi crescendo exponencialmente. Calculei de olho mais umas 100 pessoas – coisa mesmo de dobrar a esquina. Tudo isso em um dia chuvoso, de garoa fina e chatinha. Poucos minutos antes de abrir, uma funcionária vai até a fila para pegar o nome e o número de pessoas que estão em grupos. Assim, a “primeira turma” já entra com os lugares pré-definidos. Quem fica de fora, ganha uma senha e é convidado a explorar os bares vizinhos até ser avisado por mensagem de celular sobre sua vez de entrar.
Minhas primeiras impressões
Ao entrar no Bar Leone, a sensação é de estar de fato em um simpático bar de bairro. “Inspirei-me naqueles bares de bairro italianos onde costumava ir com os meus avós quando era criança. Lugares que são o epicentro da comunidade, cheios de elementos da cultura pop. Achei que seria divertido tentar introduzir a arte da coquetelaria nessa ideia, criando um contraste entre a simplicidade e a curadoria”, diz Antinori.

Curioso que, talvez por eu ter poucas referências de bares de bairro na Itália, minha primeira impressão foi de entrar em um diner (aquelas lanchonetes típicas dos EUA). Já a decoração, essa sim, traz a cultura pop italiana – com referências cinematográficas, músicas, publicitárias e até religiosas, com fotos de alguns papas pelas paredes. Para os brasileiros mais sensíveis, as referências à seleção italiana de 82 (que eliminou o Brasil naquela Copa) podem machucar um pouco.
“Os bares onde costumava ir com os meus avós em Roma. Esses lugares estavam cheios de artefatos que contavam a história do espaço e da família que o geria: ícones religiosos, retratos de família, imagens de futebol. Parecia que estávamos a entrar no universo de alguém especial. No fundo, limitei-me a colocar nas paredes coisas que adoro”, explicou o criador do bar.
Como estava sozinho fui encaminhado para o balcão (que é sempre o melhor lugar para se estar em um bar). No caso do Leone, talvez pela disposição das mesas e a já citada “cara de diner”, o balcão não é exatamente o centro (de atenção) do bar – o foco espalha-se pelo salão.
A hospitalidade é um ponto irretocável. Logo de cara, a bartender que me atendeu perguntou meu nome, de onde eu vinha e se aquela era a minha primeira vez no Leone. Em seguida me ofereceu água (alô, alô, bares do Brasil: água da casa, grátis, é fundamental. Até o melhor bar do mundo sabe disso) e me passou o cardápio: "Take your time”, disse.
"O foco principal é criar um ambiente confortável e familiar. Existe profissionalismo, mas, ao mesmo tempo, nada deve parecer forçado. Queremos que os clientes se sintam em casa”, disse Antinori.
A coquetelaria
Abri a noite com o coquetel que eu sonhava beber no Leone, o Filthy Martini – um martini de vodca com salmoura de azeitona defumada. Para quem gosta de um dirty martini turbinado esse é um coquetel obrigatório – e que, com simplicidade e sabor, resume também um pouco da filosofia da casa.
O Filthy Martini custa HKD$ 130 – que em real, levando em conta a cotação da primeira quinzena de maio, algo como R$ 82.

Sim, para nós, que ganhamos em real, a ideia de cocktails popolari é difícil de ser traduzida quando a conta chega...
Mas, como não é sempre que se está em Hong Kong no melhor bar do mundo, segui a noite com outro clássico da casa, o Yuzu Negroni (HKD$ 140 ou R$ 88). Aqui, o bar propõe uma releitura do White Negroni puxado para um sabor mais oriental.
Essa conexão com o oriente segue no Miso Old Fashioned (HKD$ 150 ou R$ 93). Um coquetel saboroso com manteiga de miso e shiso.
Também tomei o floral e alcoólico Spring Break Manhattan (HKD$ 160 ou R$ 100) e uma dose do Amaro do Mês, o Santa Maria Al Monte (HKD$ 90 ou R$ 56).
O Leone, claro, tem opções de drinques não alcoólicos (que não experimentei) e uma cerveja pilsen. Para comer, o pedido obrigatório da casa é a Mortadella Focaccia.
Fui embora querendo ficar. Pelo meu fígado ainda cabia mais uns dois coquetéis da carta, mas meu bolso já estava pedindo trégua e rogando por juízo.
Resumo da ópera
Listas de melhores bares do mundo sempre precisam ser relativizadas. Apreciar coquetelaria é algo que passa por muitos filtros pessoais. É quase impossível carimbar, matematicamente, que determinado bar é o número 1.
O que um bar com pretensões de estar no panteão dos melhores precisa oferecer é hospitalidade, consistência e sabor.
Tudo isso, o Leone entrega com méritos. Então, ao menos naquele dia, em Hong Kong, ele foi sim, ao menos para mim, o melhor bar do mundo.
Amanhã? Amanhã quem sabe. Dia novo, bar novo...


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