A Saint Laurent de Vaccarello

A Saint Laurent de Vaccarello

Se os rumores se confirmarem, o estilista encerra uma década na maison deixando uma assinatura própria, uma Saint Laurent mais forte e uma plataforma cultural que vai muito além da moda

Se os rumores que circulam pela moda estiverem certos, o belga Anthony Vaccarello fará seu último desfile para a Saint Laurent na próxima terça-feira.

Após 10 anos à frente da mais icônica maison francesa, ele pode deixar para trás algo cada vez mais difícil de construir em uma indústria acelerada e marcada pela constante troca de diretores criativos: uma assinatura própria dentro de uma marca que já tem uma identidade forte. 

Um diretor criativo ocupa uma posição curiosa: precisa deixar uma marca pessoal suficientemente forte para movimentar a maison sem esquecer que, no final das contas, a maison não é dele. Ele tem que respeitar uma identidade que já existe ao mesmo tempo em que precisa acrescentar algo e criar seu próprio legado.

Os patrimônios da Saint Laurent são o smoking, a transparência, a saharienne, a tensão entre masculino e feminino, Paris, a sensualidade. Como um estilista pode agregar e imprimir seu ponto de vista sobre uma marca histórica?

Vaccarello assumiu a Saint Laurent em 2016, logo após o rebranding de Hedi Slimane que, em apenas quatro anos, fez uma transformação estética radical - para uma marca tradicional de luxo - começando pela decisão polêmica de retirar o “Yves” do nome.

Ele não chegou querendo fazer uma grande ruptura. Foi construindo sua Saint Laurent aos poucos, coleção após coleção, aumentando o volume dos códigos que já existiam. Os ombros ficaram maiores, as pernas intermináveis, a alfaiataria mais sharp e as transparências mais explícitas. É um glamour sem medo do excesso. Em uma de suas primeiras entrevistas para a Vogue, ele disse que a forma como aborda a sensualidade "não é sobre provocação. É sobre liberdade.”

O fato é que, antes mesmo da Saint Laurent, Vaccarello já tinha uma linguagem bastante definida: muito preto, cortes precisos, assimetrias, pernas expostas, recortes, alfaiataria afiada e uma sensualidade bastante direta. Em seu primeiro desfile de marca própria, ele resumiu: “It’s always black, always sexy.” 

Mas o mais interessante de sua passagem pela maison é que ele não ficou restrito às roupas e logo percebeu que, hoje, uma marca pode ser muito maior que roupa. 

Para mim, essa construção começa em setembro de 2017, no seu terceiro desfile para a marca, quando Vaccarello usou a Torre Eiffel pela primeira vez como locação. Era noite e as luzes do monumento começaram a piscar assim que a primeira modelo colocou os pés na passarela. Desde então, a Torre se tornou o cenário recorrente nos desfiles e praticamente um código visual da Saint Laurent, a ponto de hoje ser difícil imaginar outra grife fazendo o mesmo sem parecer que está copiando a marca. Ou seja, ele simplesmente se apropriou visualmente de um dos maiores símbolos da França. 

E a partir disso, com a mesma audácia, foi expandindo suas fronteiras. 

Em 2019, abriu a Saint Laurent Rive Droite (onde antes era a Colette, em Paris), transformando uma loja em espaço de arte, fotografia, design e música. Depois veio a livraria e espaço cultural Saint Laurent Babylone. Mas nada foi mais ambicioso do que a Saint Laurent Productions, uma produtora de cinema big deal que tem produzido filmes de diretores como Almodóvar, David Cronenberg, Paolo Sorrentino e Jim Jarmusch, entre outros. 

Ao explicar por que decidiu investir em cinema, disse: "uma campanha ou um outdoor desaparecem rapidamente, mas um filme permanece. O filme estará vivo daqui a 20 ou 30 anos e o nome Saint Laurent continuará nos créditos.”

Hoje, a Saint Laurent é uma plataforma cultural de luxo. Tudo o que se propõe a fazer, faz com uma execução impecável. 

Segundo uma matéria no Financial Times deste ano sobre os 10 anos de Vaccarello, a Saint Laurent faturava cerca de €700 milhões antes dele entrar. Durante sua gestão, a receita aumentou para aproximadamente €3,3 bilhões.

Duas palavras ajudam a traduzir o sucesso da SL nesta década: ousadia e consistência. Ele foi repetindo e aprofundando sua visão até que escolhas mais pessoais começassem a parecer naturais à própria Saint Laurent.

Se sair mesmo da grife, Anthony Vaccarello vai deixar um legado consistente e uma Saint Laurent ainda mais forte do que encontrou - e com certeza, sairá ainda mais valorizado do quando entrou. Um encerramento em que os dois lados terminam por cima é maior prova de sucesso.

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