O melhor da música clássica pela cura
Foto: Stephan Rabold

O melhor da música clássica pela cura

A Filarmônica de Berlim se apresenta em São Paulo – e a plateia é a verdadeira protagonista do concerto

Depois de 26 anos sem se apresentar em solo brasileiro, a Filarmônica de Berlim — para muitos, a melhor orquestra sinfônica do mundo — volta ao País em outubro.

Serão dois concertos na Sala São Paulo, nos dias 18 e 19, sob a regência de Kirill Petrenko e com o pianista Víkingur Ólafsson* como solista na primeira noite.

Desta vez, uma causa nobre faz dos espectadores tão protagonistas quanto os músicos. A iniciativa faz parte do projeto Música pela Cura, criado há 26 anos pela TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer), em prol da captação de recursos para o tratamento de câncer infantojuvenil por meio de espetáculos, em parceria com o hospital Santa Marcelina Saúde.

Trazer a Filarmônica de Berlim ao Brasil não foi tarefa simples — nem barata. A turnê sul-americana passa também por Bogotá e Buenos Aires e, só a etapa paulistana, organizada pela associação, custa mais de quatro milhões de reais. A projeção de captação, considerando a venda de ingressos (disponíveis aqui) e as doações vinculadas ao evento, chega a R$ 10 milhões. Para Sidnei Epelman, oncologista pediátrico que fundou a TUCCA em 1998 ao lado de sua esposa, a psicanalista Cláudia Epelman (1959–2020), o investimento é uma aposta na força da cultura como instrumento de transformação.

“A vinda da Filarmônica de Berlim representa muito mais do que um grande concerto. Ela demonstra que um projeto construído com consistência, transparência e propósito é capaz de mobilizar alguns dos maiores nomes da cultura mundial.” Quem compra o ingresso para ouvir Brahms está, ao mesmo tempo, financiando um tratamento que pode custar até um milhão e meio de reais por paciente — e salvar uma vida.

Ao longo de quase três décadas, a TUCCA consolidou um modelo em que a doação tradicional segue como pilar central, ao lado de uma frente cultural que aproxima novos públicos da causa por meio da música e da gastronomia. Mas nunca em uma escala como esta.

A grandeza de trazer um evento como este simboliza a sofisticação do cuidado oferecido às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade atendidos pela ONG. Nas palavras de Epelman: “A sofisticação está na essência daquilo que a gente faz de melhor para o outro. No cuidar, no olhar, na delicadeza. Trazer a Filarmônica de Berlim está relacionado com o que a gente faz do outro lado. A qualidade tem que ser alta em tudo o que a gente faz. É sofisticado pensar no transporte para que a criança possa chegar ao ambulatório. É sofisticado oferecer um hospice pediátrico para acolher pacientes em fase terminal. A gente dá 120 refeições por dia — porque tem que comer, mas não é para comer qualquer coisa. Tudo tem que ser pensado.”

Foto: Ali Karakas

Mais de 400 crianças e adolescentes são tratados por ano pela instituição, em parceria com o Santa Marcelina Saúde. No total, seis mil crianças e adolescentes já foram atendidos, com taxas de cura comparáveis às de centros de referência especializados em todo o mundo. “Temos que dar às crianças e às famílias a sensação de que foram verdadeiramente cuidadas da melhor forma. Esse é o xis da questão. Quando a gente dá isso, não conseguimos apagar a perda, mas conseguimos dar paz e tranquilidade para aquelas famílias — que o melhor foi feito. Isso não tem preço,” completa Epelman.

*Em razão de uma lesão, Daniil Trifonov não poderá participar do concerto do dia 18 de outubro, como informamos na matéria da edição impressa nº 3. O pianista islandês Víkingur Ólafsson assumirá o lugar de Trifonov como solista.

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