De vez em quando o algoritmo me dá um golpe de misericórdia e ressuscita alguém que eu jurava estar extinto. Para meu deleite genuíno, reencontrei nas redes um influenciador anunciando um empreendimento chamado Torino Mooca Città. Ou Mooca Torino Città. Ou Città Mooca Torino, ou qualquer combinação dessas palavras que faça a gente descer no Piemonte cinco estações depois do Brás. No fim, pouco importa a ordem dos fatores, o produto não muda: é uma torre, ou duas, ou três, um pombal de alto padrão erguido no bairro mais italiano de São Paulo, projeto este que promete entregar em concreto armado o fruto de uma transa tropical entre o Carrara e o travertino.
O futuro condomínio, provavelmente murado, gradeado, eletrificado e já praticamente vendido, me devolveu aos anos em que morei em São Paulo e ainda confundia vida metropolitana com cosmopolitismo. Naqueles dias, os folhetos distribuídos por mocinhas de shortinho nos sinais fechados anunciavam lançamentos imobiliários que competiam entre si para ver qual nome soaria mais, para usar a palavra da época, aspiracional. Hoje talvez a tenham trocado por “diferenciado”, mas o mecanismo, claro, continua o mesmo. Houve a fase do chateau, mansão, villa e, mais tarde, tower, loft e o hors-concours palazzo, fazendo da cidade uma Veneza após uma enchente de financiamento imobiliário. O que sempre esteve à venda não era um apartamento, mas uma origem.
Talvez valha a pena nomear o paciente antes de continuar a análise. Nelson Rodrigues chamava isso de complexo de vira-lata, o velho hábito nacional de se sentir menor diante de qualquer coisa que venha de fora. A versão paulistana da síndrome passou por um retrofit, ou talvez um feng shui: já não basta considerar o estrangeiro maior e melhor, agora é preciso incorporá-lo ao próprio currículo e exibi-lo como conquista, como se um sobrenome herdado de um bisavô, que provavelmente morreu pobre numa aldeia da Calábria, fosse hoje prova de superioridade moral, e não apenas o vestígio de que, no início do século passado, a fome também exportava.
A Itália evocada por São Paulo nunca foi exatamente um país. É um estado de espírito, um caso clássico de bovarismo de trattoria. Não interessa a Itália que existe, mas aquela que se prefere imaginar. A dos vilarejos onde faltam jovens, da burocracia sufocante, dos salários baixos e da estagnação econômica desaparece por completo. Em seu lugar sobra um catálogo de imagens sedutoras para sustentar a fantasia: vinho, pasta e, claro, aquela receita da nonna preparada muito mais para a câmera do que para a mesa. Porque não se ama a Itália, ama-se a ideia de ser italiano.
Vi essa fantasia funcionando ao vivo ao assistir a uma festa em Taormina lotada de influenciadores digitais do circuito Terraço Itália-Gero desfilando pelas ruelas medievais, empenhados em convencer a si mesmos de que pertenciam a um editorial da Vogue dos tempos de Franca Sozzani, e não a uma cidade onde, por acaso, ainda vive gente.
A festa, aliás, era organizada por um estilista cujos posts fariam Mussolini subir do inferno para tomar um negroni com ele – na moda, a única etiqueta que realmente importa é a costurada na gola. Entendi então o que Taormina havia se tornado para aquele público: uma Eurodisney perfumada com limão siciliano e vôngole, onde a Itália se transformava naquilo que jamais foi, nem precisava ser.
Não havia ali qualquer desejo de conhecer um país, mas de consumir uma atmosfera, uma versão hiperglicêmica da dolce vita, folclórica o suficiente para que todos pudessem regressar para casa trazendo, na bagagem, a impressão de terem sido contagiados por ela.
Muito antes de Taormina rimar com dopamina, quando a Mooca ainda era um reduto de ítalo-brasileiros que falavam o idioma em suas casas, a elite paulistana já sonhava em se mudar do Brasil. Numa época particularmente generosa da minha paciência, tive o piacere de editar uma revista de luxo cuja edição homenageava o Bel Paese.
Minha missão era simples: aparar uma frase aqui, outra ali, para que o microtexto acompanhasse as fotos de uma mesa comprida, vinte e tantos convidados sorrindo para a câmera, todos exibindo a mesma combinação de objetos e símbolos: a taça de prosecco, o sobrenome e o passaporte bordô. O título, e juro que não acrescento uma vírgula, era Siamo Tutti Oriundi. Havia qualquer coisa de profundamente revelador naquela matéria, não porque fosse cafona, palavra que tanto o português quanto o italiano compreendem sem necessidade de tradução, mas porque transformava uma origem em troféu e um documento em ornamento. Nunca foi apenas sobre a Itália; sempre foi sobre o velho sonho de substituir a própria história por outra julgada mais nobre.
O paulistano tem um horror histórico à mistura, e não falo apenas do bairro nobre que evita a periferia. Falo de algo mais profundo, quase um projeto identitário. O sociólogo Jessé Souza passou boa parte da carreira mostrando que a nossa elite jamais soube lidar com a origem mestiça do País e que sua resposta nunca se limitou ao embranquecimento da própria genealogia. O objetivo era mais ambicioso: construir para si uma identidade separada, superior por definição e legitimada por toda sorte de distinções simbólicas.

O passaporte italiano encaixa-se com perfeição nessa lógica; mais do que um documento de viagem, funciona como um certificado de pertencimento a uma categoria imaginária, na qual a ascendência vale mais do que a experiência e a origem pesa mais do que a biografia.
Não escrevo isso do alto de superioridade alguma. Durante muitos anos também servi esse jantar, mencionando minhas origens à mesa com um orgulho que hoje me soa constrangedor. Aquela história atravessava a família havia gerações, menos por afeto do que pela utilidade social de estabelecer uma pequena distância em relação aos outros.
Cresci entre pessoas para quem a ascendência europeia funcionava como uma discreta garantia de distinção, e levei tempo demais para perceber o tamanho da armadilha. Talvez tenha sido preciso morar entre Lisboa e Roma para que o encanto finalmente perdesse a força. Quanto mais próxima se tornou a Itália real, menos necessidade senti de recorrer à Itália imaginada. Descobri, para minha própria surpresa, que a distância não me tornou mais italiano e sim, mais brasileiro, reconciliado com o próprio chão. Desde então, a genealogia voltou a ocupar o lugar que lhe cabe: parte da minha história, não o argumento principal dela.
Essa fome de sobrenome também encontrou um de seus melhores intérpretes no psicanalista italiano Contardo Calligaris, que durante anos observou como, sobretudo em São Paulo, o nome de família frequentemente substitui a própria biografia.
Uma história exige documentos, contradições, arquivos incompletos, esquecimentos convenientes e parentes dos quais ninguém gosta de falar; o sobrenome, ao contrário, chega pronto, basta pronunciá-lo. Pergunte a qualquer paulistano de linhagem “antiga” de onde veio sua família e a resposta costuma surgir com impressionante rapidez: uma cidade na Lombardia, uma província portuguesa, algum barão perdido entre os galhos da árvore genealógica, como se a enumeração bastasse para responder à única pergunta realmente importante, aquela que quase nunca é feita: quem é você quando o sobrenome deixa de falar por você?
Talvez o motor de tudo isso nem seja o orgulho, mas uma antiga dificuldade de aceitar que pertencemos a um País jovem, mestiço e sem a espessura histórica que muitos gostariam de exibir como prova de distinção; afinal, quando o passado parece insuficiente, sempre existe a tentação de importá-lo.
São Paulo, cidade que hoje gosta de se imaginar uma Milão dos trópicos, era, há pouco mais de um século, um punhado de cafezais cercados por terra vermelha e casarões de fazenda. A aristocracia celebrada até hoje nas colunas sociais nasceu muito menos da antiguidade do que da prosperidade, e as grandes famílias paulistas, tão afeitas aos sobrenomes compostos e retratos a óleo, descobriram cedo que prestígio também podia ser adquirido.
Não por acaso, boa parte dos títulos de nobreza que ainda desfilam em convites de casamento e legendas de Instagram foi concedida pelo Império a grandes proprietários, financiadores e aliados políticos, numa época em que baronatos e condados se distribuíam com uma desenvoltura que hoje lembraríamos de um programa de fidelidade premium. Os títulos envelheceram; a ilusão de ancestralidade, essa atravessou os séculos praticamente intacta.
Nem a Itália carregada na cabeça de tantos descendentes existiu exatamente daquela maneira, nem para os próprios italianos. Em larga medida, ela foi produzida pelo cinema, publicidade e moda, mas sempre acompanhada de uma dose de ironia que não sobreviveu à travessia do Atlântico.
Basta lembrar A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, que passa mais de duas horas ridicularizando uma elite romana condenada a repetir festas, poses e conversas brilhantes para esconder um monumental vazio existencial. Fellini já havia desmontado o mito da dolce vita muito antes que ele se transformasse em souvenir, enquanto Ettore Scola tratava de rasgar o verniz da família italiana, expondo suas misérias, ressentimentos e ilusões sem qualquer cerimônia. A Itália inventou sucessivas formas de zombar de si própria. São Paulo preferiu se apaixonar pela caricatura. Em vez de transformá-la em arte, passou a vendê-la na planta com forno para pizza na varanda gourmet.















