Levou alguns séculos para o Ocidente afrouxar o espartilho, diminuir a culpa cristã, queimar sutiã, descobrir o orgasmo feminino (e de quebra, o clitóris), mandar a moral vitoriana para o quinto dos infernos e admitir que cada um pudesse fazer com o próprio corpo o que bem entendesse.
Quando conseguimos, causamos a mesma coisa que costumamos fazer com quase todas as liberdades conquistadas: transformamos o prazer em neurose.
A ideia do corpo livre durou pouco e em seu lugar (re)apareceu nosso velho censor particular, entregue às novas senhas de acesso ao paraíso. E dá-lhe metas de peso, sono, força, juventude, glicose, hidratação, produtividade, e aparência, com avaliações de desempenho disponíveis 24 horas por dia. Depois de tanto esforço para tirarmos o físico das amarras de repressão, acabamos entregando ele a um sistema de controle muito mais eficiente que qualquer padre, pastor, pai ou Prem Baba.
O regime quase nunca se apresenta como imposição, até porque seria deselegante demais para uma geração que gosta de imaginar que todas as suas submissões são escolhas. Chamamos de autocuidado, wellness, longevidade, alta performance e, dependendo do preço da consulta, medicina de precisão. O vocabulário muda, mas permanece uma suspeita de fundo de que há sempre alguma coisa em nós que poderia funcionar melhor.
Dormir oito horas já não basta se o sono for interrompido por um xixi na madrugada que mereceu atenção redobrada pelo seu amarelo não muito claro; comer deixou de envolver apenas fome, prazer e convivência desde que proteínas e carboidratos passaram a ser contados como antigos trocos dados na padaria.
Nunca tivemos acesso a tantas informações sobre o que acontece dentro de nós e, ainda assim, cresce a dificuldade de aceitar qualquer sensação que não venha acompanhada por uma métrica. Esquecemos que o organismo também revela dados sobre coração, glicose, gordura e tantos outros fenômenos que nossos avós tiveram a imprudência de sobreviver sem gráficos no dashboard.
Não se trata de negar a utilidade dessas informações, muitas delas valiosas para a prevenção e o acompanhamento da saúde, mas de perceber a mudança de posição; em algum momento deixamos de apenas habitar o corpo e começamos também a observá-lo de fora, como um patrimônio submetido a correções e valorizações sucessivas, quase uma carteira de investimentos. Se estamos à venda, não sei, mas custamos caro e, quem não nos conhece, que nos compre.
Não chega a ser novidade a ideia de que cada época deixa suas marcas nos corpos que a atravessam. Discípulo de Freud antes de ser defenestrado pelos mestres da psicanálise de seu tempo, Wilhelm Reich se interessou pela forma como as pressões da vida social se inscreviam no indivíduo. Sua ideia de “couraça” partia da percepção de que conflitos, repressões e formas de adaptação encontravam expressão na musculatura, postura, respiração e no modo de ocupar fisicamente o mundo.
Quase um século depois, a questão continua atual, embora as exigências tenham se alterado: se uma sociedade também pode ser lida nos corpos que produz, o que os nossos dizem sobre nós?
A diferença hoje está no fato de que já não precisamos de um terceiro para nos disciplinar, pois o neoliberalismo aperfeiçoou uma velha tecnologia social ao transformar o indivíduo numa empresa de si mesmo, sendo ele o próprio patrão e empregado, vilão e vítima, algoz e presa.
A carreira tem de avançar, a produtividade não pode cair, a aparência precisa de constante manutenção e até a felicidade, essa senhorinha indisciplinada que vive com a mala pronta atrás da porta, ganhou protocolos, especialistas e objetivos. Era questão de tempo para que a nossa carne fraca entrasse no balanço patrimonial e hoje cada um carrega consigo uma espécie de departamento de gestão dedicado a avaliar se está dormindo, comendo, treinando, envelhecendo e vivendo de acordo com seu ‘potencial’ – expressão super ameaçadora porque ninguém jamais conseguiu estabelecer um limite ou fim para alcançá-lo.
A emancipação do corpo acabou adquirindo uma semelhança e tanto com a liberdade econômica: você pode fazer o que quiser com ele, desde que não pare. Não basta estar saudável, é preciso parecer saudável; não basta envelhecer, é preciso estar “bem” para a idade; ser magro já não chega, é melhor ter massa muscular; ter músculos também não resolve, é preciso evitar inflamação; e evitar inflamação não é suficiente, porque ainda há microbiota, cortisol, testosterona, colágeno e uma sucessão de novas áreas administrativas que impedem qualquer possibilidade de declarar a obra concluída. Com as devidas desculpas a Lavoisier, no corpo contemporâneo tudo se cria, tudo se perde e nada se transforma.
Existe dinheiro nisso, claro – e muito. A aparência que se apresenta como natural exige nutricionista, naturopata, nutrólogo, personal trainer, endocrinologista, dentista, psicólogo nunca, fisioterapeuta, cabeleireiro e, dependendo do orçamento, refil de autoestima a cada nova harmonização facial. Há treino, suplementação, exames, protocolos e consultas, afinal o corpo já deixou de ser apenas uma história sobre vaidade para tornar-se também um indicador de classe social. Durante muito tempo, desigualdades deixaram sinais reconhecíveis nas pessoas, impressos nos dentes, pele, mãos, peso, no envelhecimento e nas consequências físicas de trabalhos pesados. Uma parte da indústria estética oferece agora a possibilidade de editar esses vestígios, uniformizando cabelos, sorrisos, rostos e silhuetas numa aparência internacional de prosperidade que pode ser encontrada, com pequenas variações de preenchimento labial, em Cascais, São Paulo, Miami, Dubai e por aí vai. E assim que um marcador se democratiza, outro precisa ocupar seu lugar.
Quando a academia se torna acessível, surgem estúdios exclusivos, retiros de silêncio num antigo mosteiro (que quase ninguém conhece), clínicas de longevidade com protocolos destinados a evitar que a gravidade pratique sua falta de educação. O corpo neoliberal não apaga a classe, apenas troca seus sinais e, de quebra, consegue vender a esperança de que todos possam adquiri-los.
E compramos! Desde o surgimento dos medicamentos da classe dos GLP-1, poucas coisas expuseram tão bem a fragilidade de algumas certezas recentes. Seria fácil transformar Ozempic, Wegovy, Mounjaro e grande elenco numa discussão moral sobre quem merece ou não emagrecer, caminho que tem a vantagem de produzir muito barulho e quase nenhum pensamento. Esses medicamentos trouxeram avanços importantes para o tratamento da obesidade, diabetes e de outras condições metabólicas, e muita gente que perdeu peso com eles ganhou mobilidade, melhorou exames e passou a viver melhor. O interessante vem depois disso: quando emagrecer deixa de ser, para muita gente, uma batalha de resultado incerto e vira uma ferramenta de eficácia inédita, alguma coisa na cultura muda junto.
Durante um breve período na história atual, o body positivity conseguiu introduzir uma dúvida importante numa sociedade alucinada pela magreza: o problema não estava sempre no corpo que não correspondia a normativa, mas também num padrão capaz de admitir uma variedade estreita de formas humanas. Pessoas gordas ocuparam espaços antes quase interditados na publicidade, na moda e nas redes sociais; gordofobia e representatividade entraram no vocabulário cotidiano, modelos de tamanhos diferentes apareceram em campanhas e a possibilidade de não desejar emagrecer deixou, pelo menos em alguns ambientes, de ser tratada como confissão de fracasso moral. A revolução estava longe de completa, mas havia produzido uma pergunta embaraçosa, e perguntas incômodas costumam ser mais úteis do que respostas confortáveis.
Com as canetas veio também a descoberta antropológica que ainda estamos imaturos demais para formular: uma parte da nossa aceitação do corpo parecia depender da dificuldade de mudá-lo. Celebridades emagreceram, influenciadores seguiram o rastro, pessoas que haviam construído sua presença pública em torno da militância definharam, e a silhueta muito magra, que passara alguns anos carregando certo constrangimento, voltou a circular com a mesma desenvoltura da década de 90, quando as bochechas 80’s murcharam e deram lugar as mandíbulas de Morticia Addams. Ninguém deveria ser condenado a manter o mesmo peso para preservar a coerência de uma legenda publicada no Instagram em 2019, mas é difícil não perceber a rapidez com que uma cultura capaz de desenvolver um vocabulário sofisticado sobre diversidade resgatou velhos ideais assim que surgiu uma maneira mais eficaz de alcançá-los.
O body positivity não foi exatamente derrotado pelo Ozempic, mas este santo remedinho revelou quantas pessoas acreditavam nele enquanto a alternativa permanecia difícil. A questão não é por que cada um resolveu emagrecer, decisão que pertence à intimidade de cada pessoa, mas por que a magreza recuperou tão depressa seu antigo valor como sinal de beleza, disciplina e sucesso.
As canetas podem ter emagrecido muitos corpos, melhorado a saúde de muita gente e, no caminho, colocado algumas certezas recentes numa dieta bastante severa. Efeito colateral é que estamos mais raquíticos de ideias, ainda que as cabeças pareçam maiores do que nunca sobre estruturas tão estreitas, num quase cômico desfile de cotonetes de peruca.
Essa abundância de corpos, aliás, traz de volta uma dúvida que já era de Reich: para onde foi parar a energia libidinal? Nunca estivemos tão cercados de peles impecáveis e nudez, mas toda essa oferta de carne nem sempre parece produzir desejo na proporção esperada. O corpo foi fetichizado como imagem, projeto e objeto de comparação a tal ponto que ficou difícil saber se queremos alguém ou se sonhamos sê-lo. Posso olhar para as pernas, o abdômen, os braços ou a bunda alheia e desejar aquele corpo sem cobiçar seu dono; quero ter o que ele tem, seja seu percentual de gordura ou o telefone do dermato, mas não necessariamente quero levá-lo para a cama. Tesão e inveja passam a dividir uma fronteira confusa, enquanto parte da energia antes lançada em direção ao outro parece retornar para o investimento em nós mesmos. Numa época tão obcecada pelo corpo, o verdadeiro mistério é descobrir para onde foi o sexo.
Não existe virtude nenhuma em ignorar a glicose ou envelhecer entregue aos caprichos de Cronos, mas há uma diferença enorme entre cuidar do físico e transformá-lo num trabalho árduo o bastante para fazer a escala 6x1 parecer suíça. Resta saber o que faremos quando finalmente tivermos o corpo que queremos. Depois de tanto investimento, ainda será preciso encontrar quem tenha tesão por nós.















