Fotos: Gil Inoue
Direção criativa: Heitor Antonio
Edição de moda: Henrique Sca
Em 2005, o navegador Amyr Klink recebeu um ultimato de sua mulher, a fotógrafa Marina Bandeira. Na próxima viagem, prevista para janeiro e fevereiro do ano seguinte, ela e as três filhas, as gêmeas Laura e Tamara, de quase 9 anos, e Marina Helena, de 6, iriam acompanhá-lo e não havia margem de negociação. O destino era a Antártica. Dessa vez, o empreendedor marítimo tinha um barco maior e chegava a hora de as meninas compreenderem o motivo das suas ausências que se arrastavam por seis ou sete meses longe de casa. “Queria que elas sentissem orgulho do pai e percebessem o fascínio da vida escolhida por ele,” justifica Marina.
No trajeto, Laura, Tamara e Marina viram de perto baleias, focas, ursos polares e icebergs e entenderam que as histórias ouvidas do pai antes de dormir eram verdadeiras. O homem que desafiava tempestades, remava incansavelmente e atravessava semanas sem comunicação era o pai delas e diferente de qualquer outro. “Formar uma família foi um desafio libertador,” reconhece Klink. “Eu me livrei do excesso de responsabilidades que herdei dos meus pais para cuidar das relações que eu e Marina criamos juntos.”

O paulistano Amyr Khan Klink, que completa 71 anos em 25 de setembro, foi a primeira pessoa a realizar a travessia do Atlântico Sul a remo. Em 1984, saiu do porto de Lüderitz, na Namíbia, sudoeste africano, em um minúsculo barco construído com as próprias mãos e aportou cem dias depois na Praia da Espera, litoral baiano, com fama de herói para uns e maluco para outros.
Os diários escritos durante a façanha renderam o livro Cem Dias entre Céu e Mar, publicado em 1985 e reeditado em julho com novo projeto gráfico pela Companhia das Letras (compre aqui). A obra é a base do filme 100 Dias, dirigido por Carlos Saldanha, que estreia em 29 de outubro nos cinemas como a aposta brasileira para o Oscar 2027.
Rodado entre julho e setembro de 2024, 100 Dias traz o ator Filipe Bragança, de 25 anos, no papel de Klink. Para interpretar o navegador, o artista perdeu 11 quilos em uma dieta espartana, aprendeu a remar, dormiu em barcos e, como o personagem, se isolou do mundo. Trancado em casa, releu inúmeras vezes o livro porque sabia que, mais que a semelhança física, era essencial captar os traços psicológicos de um homem que encontrou a paz na solidão do mar. “Apesar de generoso, Amyr é reservado demais e vi que o jeito para decifrá-lo seria através de uma leitura profunda,” diz Bragança. “Precisei entender pelo livro o significado desta jornada na sua vida.”

Além de Bragança, o elenco traz o ator Felipe Camargo no papel do libanês Jamil Klink (1911-1998), o pai do navegador, figura desafiadora para a formação do caráter do filho, e a atriz francesa Philippine Leroy-Beaulieu, que vive a sueca Asa Freiberg (1928-1989), a mãe de Klink, cúmplice na elaboração da primeira travessia. “Na minha pesquisa, encontrei material de navegadores nórdicos e bálticos em sueco que ela traduzia em segredo,” lembra o velejador. “Vendo Philippine no filme, levei um susto porque é uma réplica da minha mãe.”
Pouco íntimo do universo cinematográfico, Klink ficou encantado com o preciosismo da equipe de Saldanha — algo que valoriza tanto no dia a dia como quando se lança aos mares. “Talvez eu não tenha conseguido descrever com a mesma emoção no livro os detalhes reproduzidos na tela,” compara.
Na viagem, Klink usou uma corrente com uma cruz de ouro recriada fielmente pelos figurinistas, assim como a camiseta com a palavra “Lüderitz”, comprada na África, que vestia na chegada ao Brasil. “Tinha tudo para sair um filme chato, um cara o tempo todo num barco, mas acho que essas minúcias devem fazer a diferença.” A surpresa maior veio da obstinação de Bragança em se aproximar da sua figura. Quando soube que quem iria interpretá-lo seria o mesmo ator que viveu o cantor Sidney Magal no filme Meu Sangue Ferve por Você (2023), confessa que ficou desconfiado. Nos primeiros encontros, porém, a cisma foi sendo aliviada para se transformar em admiração. “Ao ver o Filipe filmando por 12 horas dentro de uma piscina construída como se estivesse em alto-mar, me perguntei como aguentava aquilo, só podia ser louco ou muito disciplinado,” observa.
Para Klink, disciplina e sistematização são a base de tudo, principalmente quando lida com riscos. Esta é a maior lição que ficou das faculdades de economia e administração que cursou e, se não fosse uma mudança de rota, teriam norteado o seu futuro. Muito jovem, como funcionário de um banco, se projetou no chefe que ocupava a mesma cadeira há 22 anos e viu que não queria aquele destino nem pelo melhor salário. Assim como o pai, um sujeito pouco empreendedor e adepto do jogo, tinha paixão pela natureza e queria água, mato, terra e, acima de tudo, liberdade.
Criado entre São Paulo e Paraty, Klink descobriu a possibilidade de navegar no mar calmo da praia fluminense e, aos 10 anos, comprou o primeiro barco com uns trocados emprestados por um tio. Por trás do atleta, sempre existiu o intelectual que fala fluente o inglês, o francês e o espanhol e devorava livros como a coleção francesa Mar e Aventura e a biografia Seul, de Gerard D’Aboville, que atravessou o Atlântico Norte a remo, mas foi rebocado antes de chegar ao destino, em Brest, na França. “Descobri ainda que dois norte-americanos tentaram o trecho e desapareceram no mar, então foquei minha energia para entender onde todos falharam,” conta. “O interessante é aprender com os erros cometidos para não os repetir porque nunca busquei uma aventura e não queria morrer no mar.”

Por mais paradoxal que pareça, Klink não sabe nadar e garante que consegue até dar umas braçadas, mas, se o vento estiver soprando de frente, se afoga. Por isso, mesmo com alguma resistência, usa coletes salva-vidas. Já levou alguns sustos, como aos 14 anos, em Paraty, quando ficou quatro horas agarrado à canoa que virou até atingir a areia. Tem mais receio de dirigir carro e, mesmo que adore viajar até Chihuahua, no México, guiando um automóvel, evita assumir o volante na lentidão de São Paulo. “Meu pai dirigia feito louco e, quando eu era pequeno, sofremos um acidente que quase matou a minha mãe,” lembra. A relação com Jamil Klink nunca foi tranquila, e o velejador herdou mágoas e dívidas do pai, algumas delas quitadas com o dinheiro recebido pela publicação de Cem Dias entre Céu e Mar.
Para ele, família era sinônimo de problemas e, até encontrar Marina, Klink ficava com uma ou outra namorada, só que a prioridade era viajar. Não havia espaço para se prender a um relacionamento e menos ainda a filhos.
Em 1985, Marina recebeu a missão de contratá-lo para uma palestra, um clima se estabeleceu com cautela e até a decisão do casamento correram dez anos. Klink já tinha passado dos 40 e, segundo a companheira, cheio de manias enraizadas, não mudaria de personalidade. Ela, porém, acreditou no investimento e garante que, mesmo nas viagens mais duradouras, nunca sentiu ciúme ou duvidou da fidelidade. “É muito fácil conquistar um homem,” sentencia Marina, aos 60 anos. “É só deixá-lo à vontade para que continue sendo a pessoa por quem nos apaixonamos.”
Klink garante que Marina é a vela que norteia a família toda. As filhas cresceram e acabaram conectadas ao mesmo caminho do pai. “Sem querer, a gente contamina as pessoas quando gosta do que faz,” afirma, orgulhoso. Como navegadora e escritora, Tamara, de 29 anos, virou celebridade e desafia as aflições de um pai que, nessas horas, é tão comum quanto os outros.
“Minhas preocupações são de ordens técnicas e burocráticas porque confio na competência dela no mar,” garante. “Tamara faz viagens que ninguém fez, enfrenta ambientes hostis e o seu desafio é vencer questões que, às vezes, envolvem corrupção e são perigosas.” Laura, a gêmea de Tamara, é designer e cuida da logística e dos compromissos do escritório de Klink. Marininha, de 26, formada em administração, largou o emprego em um fundo de investimentos para estudar medicina e une os dois talentos. Além de negociar e fechar contratos, controla a alimentação do pai e briga com a falta de disposição para outras práticas esportivas, além dos raros passeios de bicicleta. “Eu sou desastrado e, pedalando nesse trânsito, já levei tantos tombos,” desconversa.
Marina reconhece que o marido é atrapalhado, se distrai com facilidade e ignora obstáculos ao redor. É assim quando faz uma das coisas que mais gosta, cozinhar para a família, especialmente pratos da gastronomia árabe. Sempre esbarra em um copo ou derruba uma bandeja que aparece no caminho. “O Amyr tem um foco excessivo em cada tarefa e não enxerga nada além daquilo,” declara. “Se vai cozinhar, está só cozinhando.”
As solitárias viagens ficaram para trás, e a saudade de rodar o mundo é saciada por palestras em boa parte do Brasil e até em alguns países. Quanto mais difícil o trajeto, maior o prazer, como o de uma cidade do interior do Pará para onde ele precisou recentemente pegar um avião, um carro e algumas horas de barco até chegar ao local marcado. “Eu não peço aos organizadores nem um banco para sentar ou água para beber, basta um microfone que saio a falar.”
Nesses encontros, Klink é abordado por jovens que planejam cruzar oceanos. Ele cita um garoto paulista, Raphael Garcia, que, inspirado no livro Cem Dias entre Céu e Mar, decidiu atravessar o Atlântico, como exemplo de persistência. “Tem uns que falam que já traçaram a rota, conseguiram patrocínio e eu digo que de nada adianta se não tiverem um barco,” comenta, impaciente. “Mas fico feliz de ver uma continuidade da minha história através desses moleques.”
Beleza: Laró Prazeres.
Assistentes de fotografia: Victoria Cavalcante e Igor Kalinouski.
Produção executiva: Iris Carneiro.
Assistente de styling: Julia Perez.
Set designer: Felipe Souza.
Produção de arte: Isabella Vieira.
Assistente de arte: Madson Junior, Cedric Rolemberg e João Ribeiro.
Camareira: Daniela Campelo.
Tratamento de imagem: Alt Retouch.















