Zico, O Samurai de Quintino: a construção do craque do futebol baseada em rígidos valores pessoais
Zico no início de carreira no Flamengo, em 1971.
Artes

Zico, O Samurai de Quintino: a construção do craque do futebol baseada em rígidos valores pessoais

Documentário analisa como o carioca Arthur Antunes Coimbra se tornou um dos grandes atletas de todos os tempos sem que o sucesso afetasse a vida fora dos campos

Uma pergunta permeia sem resposta explícita todo o documentário Zico, O Samurai de Quintino, ótimo filme dirigido por João Wainer, que estreia nos cinemas nesta quinta, dia 30. Por que o craque, em 1991, recém-aposentado do Flamengo, aceitou voltar a jogar no Sumitomo Metals, time japonês de pouca expressão em um país sem a menor tradição nos gramados?

Zico | Foto: Pedro Curi

“Achei que era uma loucura,” diz Sandra Carvalho de Sá, mulher de Zico, nos primeiros minutos do longa. Tudo era precário. A equipe, mantida por uma empresa do ramo da metalurgia, vivia na gangorra entre a primeira e a segunda divisão, os boleiros lavavam o próprio uniforme e a remuneração nem era tão alta. Se Sandra, companheira há quase duas décadas naquela época, não entendeu, imagina os fãs. 

O filme oferece pistas para matar a charada — e desvenda gradualmente as razões do triunfo de um dos maiores esportistas brasileiros. A solução do enigma, subjetivamente, aparece na passagem dos créditos de encerramento, em que são exibidas cenas das bodas de ouro de Zico e Sandra. A festa, realizada no Copacabana Palace, no Rio, em 18 de dezembro do ano passado, mostra a presença eufórica de, entre outros, os três filhos e nove netos do casal — e, ali, se vê uma família feliz, o placar vitorioso sempre almejado por Zico.

O samurai é um trabalhador, um guerreiro, aquele que luta e protege a todos. Com um rigor ético e um empenho forjado pelo caráter, o carioca Arthur Antunes Coimbra, hoje com 73 anos, se tornou um dos grandes atletas de todos os tempos sem que o sucesso afetasse a vida fora dos campos. Metódico ao extremo, manteve por toda a carreira um caderno em que anotava os resultados das partidas e se orgulha até hoje de jamais ter perdido um voo ou se atrasado para um compromisso. 

O pai, um alfaiate português, criou o filho no subúrbio de Quintino Bocaiúva com uma rígida noção de realidade e disciplina e, apesar de flamenguista, resistiu em aceitar a sua opção profissional. Queria vê-lo com canudo na mão, anel no dedo e não correndo atrás de uma bola. 

Seu José rejeitava a imagem de super-herói atribuída pelos fãs ao jovem de corpo franzino e cabelo arrepiado depois da consagração no time que brilhou nas décadas de 1970 e 1980. Para o pai, ele era apenas o Zico e jamais deveria tirar os pés do chão. O filho entendeu a mensagem e decidiu jamais desapontar quem o educou.

Esse sujeito tão comprometido viu no final da década de 1980 que a estrutura da própria família começava a balançar. Os três filhos, Júnior, Bruno e Thiago, entre a infância e a adolescência, reclamavam das ausências do pai e se sentiam desprotegidos por causa da distância entre eles.

Na maioria das vezes, Sandra acompanhava o marido nas extensas viagens, e o corpo, com um curto prazo de validade para os esportistas, dava sinais de que aquela carreira não era para sempre — ao contrário da família.

Em 1985, uma grave lesão no joelho esquerdo exigiu três cirurgias e um longo período de recuperação — o que afetou seu desempenho na Copa do Mundo do México, no ano seguinte. A perda de um pênalti em uma partida decisiva contra a França abalou a unanimidade em torno de Zico, que foi considerado culpado pela eliminação da Seleção Brasileira. “Meu coração dizia para eu não ir à Copa,” confessa no filme. “Eu me arrependo de ter ido.” 

Ao contrário da maioria das biografias, Zico, O Samurai de Quintino explica a construção do jogador por sua vida privada e não como a intimidade pode ter refletido em seu trabalho. Nesse recorte majoritariamente pessoal, o documentário esmiúça como a formação do atleta, pautada pela racionalidade e disciplina, o conduziu ao pódio dos gigantes. Existe a celebração a uma figura de bom-moço, mas, como essa imagem é real, em momento algum soa moralista ou catequizadora. 

Parreira, Ronaldo e Zico | Foto: Peter Wrede

O roteiro se estrutura entre imagens de arquivo e depoimentos de familiares, colegas e pessoas que acompanham a trajetória de Zico. As principais gravações foram feitas em entrevistas coletivas, como se fosse uma mesa-redonda esportiva, em que os convidados trocam experiências. Os treinadores Paulo César Carpegiani e Carlos Alberto Parreira, o ex-jogador Ronaldo, o locutor José Carlos Araújo e a jornalista Daniela Boaventura endossam nesses bate-papos a relevância esportiva e o temperamento inabalável do ex-atleta. 

Um documentário deriva de regras claras do jornalismo, como o compromisso com a verdade, a exatidão dos fatos e uma linguagem direta. A transgressão do diretor João Wainer se manifesta quando as informações não são oferecidas de uma maneira tão óbvia — o que o faz saltar da vala comum para uma expressiva obra do gênero.   

Zico, O Samurai de Quintino deixa aberta ao espectador a conclusão sobre algumas questões, entre elas os motivos que levaram o jogador ao Japão na década de 1990. Seria simples ligar a câmera e fazer Zico explicar a polêmica decisão. Wainer acreditou, porém, na sensibilidade de cada espectador.

O setentão Zico é o homem de família que sempre quis ser e, no seu auge, teve pouco tempo para praticar esse papel. Hoje, joga bola com os netos, prepara novas gerações de atletas nas escolas de futebol que mantém desde o fim dos anos de 1990 e, assim como o seu documentário, transmite valores sem excessos de heroísmos ou verdades absolutas. 

Nos depoimentos, a maioria dos entrevistados é unânime ao afirmar que, para Zico, não existe um jogo, um momento marcante na carreira. O que existe é uma trajetória e, assim, ele mesmo valoriza a história que é resultado de empenho e responsabilidade. “Gênio? Eu não!,” declara. “Tem talentos que vêm de Deus, como os do Ronaldo e do Messi, o meu não.”   

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Piti Vieira
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