“Inter Alia” conquista São Paulo antes de chegar à Broadway
Foto: Annelize Tozetto

“Inter Alia” conquista São Paulo antes de chegar à Broadway

Um dos melhores espetáculos produzidos no Brasil neste ano traz um raro equilíbrio entre dramaturgia, atuações e direção

A australiana Suzie Miller, de 63 anos, é uma ex-advogada que virou dramaturga em tempo integral desde 2009. Ela escreveu mais de 40 peças, grande parte inspirada nas suas experiências no universo jurídico. A mais famosa delas, Prima Facie, foi lançada em Londres em 2022 e está em cartaz no Brasil há dois anos, superando os 150 mil espectadores. 

No monólogo, a atriz Débora Falabella apresenta um extraordinário desempenho na pele de uma advogada que aproveita brechas na lei para absolver abusadores sexuais — até o dia em que se transforma na vítima de um. A direção é de Yara de Novaes.

Um novo texto de Miller estreou no Brasil no último dia 31, no Teatro Vivo, em São Paulo. Inter Alia, que no jargão jurídico significa “entre outras coisas”, ganhou a cena em Londres há um ano e tem previsão de chegar à Broadway somente em 10 de novembro. O Brasil é o segundo país a conhecê-lo, tamanha a repercussão de Prima Facie por aqui. 

A peça conta a história de Jessica (interpretada por Drica Moraes), uma juíza ética e defensora de pessoas vulneráveis. Ela se orgulha de dar conta da bem-sucedida carreira e do casamento feliz com Michael (papel de Caco Ciocler), um advogado de menor projeção, pai de seu filho, Harry (o ator Caio Cesar Passos), de 18 anos. O equilíbrio delicado se desfaz quando o garoto é acusado de estuprar uma colega de escola.

Foto: Annelize Tozetto

Sob a direção de Rodrigo Portella, Inter Alia já pode ser apontado como um dos melhores espetáculos produzidos no Brasil neste ano — se não o melhor. É a rara harmonia entre uma dramaturgia impactante e sofisticada, interpretações viscerais e sem exageros e uma encenação coesa que aproxima o público a cada desdobramento narrativo.

É muito fácil o espectador se espelhar em qualquer um dos três personagens, seja como profissional, marido ou mulher, pai ou mãe e até no adolescente que foi. Diferentemente de Prima Facie em que o ponto de vista ficava por conta da protagonista, aqui os conflitos saltam da cabeça de Jessica e ganham vida através de falas e ações de Michael e Harry.

A cenografia, construída por Portella e Mina Quental, começa com o palco vazio, ganha a forma de um tribunal que se transforma depois em uma casa e termina novamente no nada, remetendo à tentativa de Jessica recuperar a confiança no filho. 

Igualmente simbólico são os figurinos, assinados por Karen Brusttolin, usados por Drica. Mesmo os mais casuais, apresentam caimento e ombreiras que podem ser associados a uma toga, exceto a blusa de malha da cena final, quando a juíza deve ser compreendida só como mãe. 

Com a mesma pegada feminista de Prima Facie, Inter Alia retrata as exigências estafantes impostas a uma mulher que deseja se firmar em ambientes machistas. O tom panfletário, porém, continua discreto.

Nesta peça, Miller propõe um diálogo da mulher com os personagens masculinos que pode explicar o comportamento deles como o resultado da reprodução de uma modelo patriarcal falido. Mais que isso, principalmente em relação a Michael, os homens assumem a sensação de estarem perdidos e sem saber agir diante das mudanças sociais.

Foto: Annelize Tozetto

Para que o marido não seja visto como um relapso ou até desprezível diante da mulher, a atuação de Caco Ciocler é fundamental porque humaniza o personagem e dá o peso necessário à sua importância na trama. Surpreendente é a performance de Caio Cesar Passos, ator de 30 anos, que convence plenamente com o adolescente nos arroubos juvenis, na fragilidade e, por fim, na crise.  

A protagonista absoluta, porém, é mesmo Drica Moraes. Rara intérprete com trânsito desenvolto pelo drama e a comédia, ela atinge um auge na diversificada carreira teatral no atual espetáculo. Sua Jessica é firme e leve, tensa e divertida na primeira metade da peça e se mostra aflita e consternada na segunda parte para, enfim, voltar a respirar. 

Só uma atriz com tanta técnica e versatilidade poderia dar conta destes diferentes estágios de uma mesma personagem. O mérito do afinado elenco também se estende a Portela, que, recentemente, extraiu desempenhos marcantes de Vera Holtz em Ficções e, principalmente, de Eduardo Moscovis em O Motociclista no Globo da Morte.   

Entreato simbólico de Inter Alia, retomado várias vezes ao longo da peça, a cena em que Jéssica perde de vista o pequeno Harry em uma praça em meio a dezenas de mães e crianças aproxima Drica de grande parte da plateia — e não apenas das espectadoras femininas ou mães. É a simbologia da iminência de um perigo avassalador que ronda a todos e, no caso da exigente Jessica, depois do maior dos sustos, o final feliz que lhe é possível.  

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