Um vício dark e sexy chamado "The Shards"

Um vício dark e sexy chamado "The Shards"

Por que a adaptação do best-seller para a TV promete fazer sucesso para além dos Gen Z e Millennials

Meu primeiro contato com Bret Easton Ellis foi há cerca de dez anos, aos 20 ou 21, quando li Glamorama pela primeira vez – o quinto livro do californiano que seguia um homem pelo mundo da moda, suas conspirações e (muitos) vícios. Depois veio Psicopata Americano: primeiro o filme, depois o livro. Uma obra que despertou ainda mais curiosidade pelo estilo do autor que divide opiniões.

As adaptações das obras de Bret Easton Ellis para o cinema são tão polêmicas quanto as histórias no papel: Psicopata Americano, com Christian Bale, foi um grande sucesso (deixemos de lado a continuação, que nada tem a ver oficialmente com a história original). Ja The Informers e Less Than Zero nem tanto... Bret já se envolveu diretamente com o cinema, ao apoiar o roteiro de The Informers, por exemplo. Mas me arrisco a dizer que o que ele sabe mesmo é escrever livro.

Mais uma vez, outra obra sua ganha uma adaptação para as telas: The Shards (Estilhaços, no Brasil), livro lançado em 2023, vira série na FX (por aqui, via Disney+). E tem dado o que falar não só pelo enredo que parece certeiro para os mais jovens, mas também pela parceria com Ryan Murphy – o produtor hypado de American Horror Story, Nip/Tuck e Pose.

Nascido em Los Angeles em 1964, Bret Easton Ellis lançou seu livro de estreia aos 21 anos, Less Than Zero, em 1985, enquanto ainda estava no segundo ano do ensino médio. Um best-seller controverso que aborda temas como decadência moral, exploração sexual, drogas e vazio existencial de um garoto.

Depois, ao longo dos anos, vieram outros seis livros até chegar ao sétimo, The Shards. A bibliografia ajudou a formar o estilo literário de Bret que é do tipo ame ou odeie: um minimalismo transgressivo e pós-moderno – um termo complicado que poderia ser resumido, no caso dele, em uma escrita fluida, envolvente, de capítulos curtos e temas que geram discussão.

Uma forte sátira social com descrição visual (e sentimental) detalhada, sexo, drogas, bebida, violência gráfica extrema, niilismo e moral em decadência, personagens com escolhas um tanto quanto superficiais fazem parte do pacote.

Protagonistas e lugares se repetem entre os livros, em situações diferentes; algumas vezes há o uso da metaficção (uma espécie de ficção dentro da ficção, quando o leitor sabe que está lendo uma história inventada dentro de outra história inventada), personagens masculinos violentos como protagonistas (que rendeu acusações de misoginia ao autor) e, muitas vezes, tramas biográficas ficcionais.

Foi assim com Patrick Bateman, protagonista de Psicopata Americano. Bret certa vez disse ter sido inspirado no seu pai abusivo e, depois, reconheceu ter sido inspirado nele mesmo – na sua própria raiva e sentimentos.

Em The Shards, a questão autobiográfica fica ainda mais evidente. O livro (e a série) basicamente segue uma biografia ficcional do próprio Bret Easton Ellis em Buckley, colégio preparatório de elite em Los Angeles onde o autor estudou. 

Ele está nos anos 1980, com 20 e poucos anos, curtindo a vida com os amigos, descobrindo sua sexualidade e… escrevendo um livro. Bastante parecido com a própria vida de Bret – exceto pelo fato de um serial killer (bastante violento, é claro) aparecer na cidade, justamente no mesmo momento da chegada de um novo garoto que desperta todos os sentimentos possíveis no protagonista. 

A adaptação para a TV tem oito episódios que inclui um elenco jovem e belo (decisão que faz parte da tensão sexual da trama), com Igby Rigney, Kaia Gerber, Evan Rachel Wood, Wes Bentley, Homer Gere, Graham Campbell e Hayes Warner. Na tela, a estética dos anos 1980 ganha vida com o olhar de Ryan Murphy, que costuma trabalhar muito bem com suspense, é fã da estética da década e sempre usa a música para guiar suas produções.

O lançamento, além de todo esse combo poderoso, parece fazer sentido em um momento em que a Gen Z vive a anemoia, termo criado pelo jornalista John Koenig que refere-se a uma nostalgia, envolvendo também uma certa dose de melancolia, por uma época que não foi vivida. Não à toa, fitas VHS, celulares analógicos, jaquetas coloridas e o hit Running Up That Hill, de Kate Bush, viraram febre novamente. 

A partir de 05.08, no Disney+.

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