Os bares imperdíveis de Lisboa e do Porto

Os bares imperdíveis de Lisboa e do Porto

A identidade portuguesa na coquetelaria não significa colocar Vinho do Porto em tudo. Descubra como a terrinha tem bebido bem

Há pouco mais de dois anos, vivia meu último dia de férias em Lisboa. Com o checklist turístico já gabaritado, me deixei ficar relaxado (e bem acomodado) no Rossio Gastrobar, no rooftop do Hotel Altis Avenida. Do meu lugar, era possível apontar o Castelo de São Jorge e vislumbrar um horizonte onde o rio Tejo encontrava magicamente o mítico céu daquela cidade.

E ali, naquela “situação de férias”, bebendo um Dry Martini, me pus a pensar nas coisas que costumo matutar quando viajo para Portugal: na família, nos sobrinhos, nas comidas, nas sardinhas, nos vinhos, em Fernando Pessoa e... no meu Dry Martini.

Sim, era um excepcional Dry Martini – assim como tantos outros drinks que havia tomado naquele abril, visitando uma dezena de bares em Lisboa e no Porto. Mesmo de férias, anotei mentalmente a “pauta”. As duas cidades, que ainda vivem um pouco abaixo do radar dos aficionados por coquetelaria, já tinham muito a dizer.

Em Lisboa…

Nada mais justo do que começar ouvindo a responsável pelo Dry Martini do Rossio Gastrobar, a brasileira Flaviane Andrade. “A coquetelaria em Portugal está justamente em um momento muito interessante de construção e afirmação de sua identidade. E talvez a grande riqueza esteja no fato de Portugal não precisar inventar uma identidade do zero: ela já está aqui. Está no vinho, nos fortificados, nas aguardentes, nos licores, nas ervas, nas frutas, na pastelaria, nas conservas e até na maneira portuguesa de receber e de estar à mesa,” diz.

“Durante muito tempo, a coquetelaria olhou para determinados países como grandes referências e acabamos todos, de alguma forma, aprendendo uma linguagem bastante global. Hoje, vejo cada vez mais bartenders daqui interessados em fazer um coquetel com traços portugueses. Para mim, a identidade portuguesa na coquetelaria não precisa significar colocar Vinho do Porto em tudo. Ela aparece quando conseguimos reinterpretar uma memória, um ingrediente ou um hábito português com técnicas ancestrais ou contemporâneas,” diz.

Além de Flaviane, Lisboa tem muitos profissionais brasileiros envolvidos na cena local – seja como bartenders ou sócios.

É o caso de Lula Mascella, diretor criativo do Picco, um dos principais bares de coquetelaria de São Paulo, que esteve pela primeira vez em Portugal entre 2023 e 2024. “Na época, fiz uma consultoria em um bar chamado Vago. No meio desse trabalho, alguns dos sócios do bar me apresentaram o projeto do Barbela e me convidaram para ajudar a estruturá-lo e tocar o projeto junto com eles,” diz.

O Barbela é um restaurante de cozinha autoral contemporânea, com foco em peixes e mariscos, onde se trabalha diferentes técnicas e formas de preparo para construir uma identidade própria. Dentro do restaurante há um bar em espaço reservado apelidado de Bela, com uma carta de coquetéis própria que se inspira muito na cozinha, criando uma sinergia muito forte entre esses dois mundos e fazendo com que comida e coquetelaria conversem o tempo todo.

Outro brasileiro de sucesso por lá é Lucas Laranjo, sócio do The Secret Poets Society. O conceito do speakeasy é servir “poesia em estado líquido”. Ou seja, transformar poemas de autores como Fernando Pessoa e Luís de Camões em coquetéis.

Mas o que você precisa conhecer para entender Lisboa do ponto de vista da coquetelaria? Um bom começo seria visitar o Red Frog, único bar de coquetelaria português que já esteve na lista dos Melhores do Mundo.

O Red Frog é um speakeasy com serviço de mesa, luz baixa e intimista. Ali, você encontra coquetéis de autor e releituras complexas de drinks clássicos. “Portugal absorveu muito bem a linguagem global da mixologia contemporânea, mas traduz isso com um serviço mais caloroso, uma relação mais natural com a mesa, com a gastronomia e com o convívio. Não é uma cena construída só para impressionar: é uma cena que quer acolher,” diz Emanuel Minez, cofundador do Red Frog.

Outra grande influência em toda a cena portuguesa é a bartender Constança Cordeiro – criadora de três bares em Lisboa: o Toca da Raposa, o Croqui e o Uni.

Desde 2017, quando voltou de Londres, Constança começou a trabalhar na ideia de aproveitar produtos sazonais, locais e plantas que cresciam no próprio jardim. Na Toca da Raposa, um dos bares essenciais de Lisboa, toda bebida é única. Os destilados são redestilados, criando uma ampla paleta de sabores. 

Uma experiência bem diferente é o Uni – um espaço para apenas nove pessoas por sessão (ou seja, melhor reservar com antecedência). Cada coquetel criado por Constança tem de 10 a 15 ingredientes. A ideia aqui não é identificar os componentes, mas apreciar o resultado, tal como uma fórmula de perfume. A outra casa de Constança, o Croqui funciona como laboratório e produção para os outros bares, consultorias e eventos. Durante a noite, o lugar também funciona como um bar, com coquetéis que lembram os da ‘Toca’, mas com características mais experimentais.

Se você perguntar para um bartender qual é o melhor bar de Lisboa, existe uma grande chance de a resposta ser: o Quattro Teste. “É um bar de coquetéis que nasceu do encontro entre duas culturas: a italiana e a basca. Somos um casal — eu sou de Bilbao e a Marta é italiana, de Milão — e o bar acabou se tornando uma espécie de tradução dessas duas culturas por meio da comida, da bebida e da hospitalidade,” diz Alf del Portillo.

A carta do Quattro Teste tem uma divisão bastante clara entre coquetéis de inspiração basca, normalmente mais longos, refrescantes e com menor teor alcoólico, e coquetéis italianos, mais curtos, amargos e intensos. Mas o que faz a cabeça de muitos clientes (bartenders entre eles) é a sidra tirada direto do barril. Um espetáculo à parte!

Lisboa ainda tem duas verdadeiras instituições para quem ama coquetelaria: o Café Klandestino e o Fúria.

O Café Klandestino abriu em 2018 e é reconhecido pelos drinks de autor com forte vertente gastronômica. João Resende, do Klandestino, compara a cena portuguesa de coquetelaria com o resto da Europa: “Acho que estamos perfeitamente ao mesmo nível e, em alguns casos, até acima, principalmente no que diz respeito à criatividade, à utilização original dos ingredientes e à forma como conseguimos integrá-los no produto final. O que ainda sinto que falta é uma maior cultura de consumo de coquetéis. Precisamos conseguir levar mais pessoas que habitualmente bebem vinho ou cerveja a experimentar esses espaços. É um processo e, na minha opinião, é um processo que já teve dias melhores”.

Já o Fúria é um bar minimalista onde o principal foco é uma estação transparente inspirada em um isqueiro Zippo. É um lugar de ótimos coquetéis e que poderia estar instalado em qualquer país da Europa.

No Porto…

Apesar do desafio de superar o tradicional frisson pelo Vinho do Porto, a coquetelaria começa a ocupar um espaço interessante nos corações e mentes de quem sobe ou desce as ladeiras do Porto.

O bar responsável por iniciar o movimento da coquetelaria ali foi o The Royal Cocktail Club, inaugurado em 2017. De início, o espaço precisou tomar uma atitude radical para marcar sua posição. “Não servimos vinho, uma decisão tomada desde o primeiro dia, com a consciência de que poderia afastar o tipo de cliente que procura esse consumo. Fizemos dessa forma pois, se tivéssemos introduzido vinho na carta, o processo de apresentar o conceito do coquetel seria ainda mais difícil,” diz Carlos Santiago, gerente do The Royal Cocktail Club.

“A verdade é que a decisão deu frutos rapidamente. Em tom de curiosidade, já vivemos uma fase em que, dentro dos próprios grupos que nos visitam, quando alguém pede vinho, um dos amigos responde: ‘você está em um bar de coquetel’. Isso é bastante gratificante,” diz Santiago.

A partir do The Royal, a cena local foi se estabelecendo e, hoje, os bares portuenses já despontam na cena europeia. Um dos destaques é, sem dúvida, o Torto – bar que mistura alta coquetelaria com um ambiente festivo e muita cultura urbana. A carta atual do Torto é apresentada em uma fita cassete, e os coquetéis fazem associações musicais.

Miguel Sul, do Torto, traz uma reflexão relevante sobre a história desse mercado no país. “Não existia cultura de coquetel em Portugal. Quando meus pais eram jovens, nos anos 1960, o país ainda vivia uma ditadura, com uma mentalidade bastante fechada em relação a tudo o que vinha de fora. Naquela época, as pessoas viviam da agricultura, da religião e do futebol para se distrair. Havia censura. Coquetel era coisa de estrangeiro e ninguém fazia isso em lugar nenhum. Em 1974, a ditadura acabou e o país começou a se abrir para as novidades do exterior. Os coquetéis e a cultura de ir aos bares chegaram devagarinho,” diz.

Outro destaque do Porto é o Marlindo 1959, instalado em um endereço que já abrigou uma tradicional tasca portuguesa fundada naquele ano, a Casa Marlindo. Os menus da casa sempre trazem narrativas inspiradas na cultura e na história do país.

Uma forte tendência na cidade é a de bartenders experientes abrirem seus próprios negócios. Entre os principais exemplos estão o Blind Pony e o Frágil.

O Blind Pony foi idealizado por dois nomes de peso na cena local: Tatiana Cardoso (com experiência no The Royal Cocktail Club e na abertura do Flôr) e João Costa (vencedor do World Class Portugal 2022). “O Blind Pony é um bar focado em drinks autorais, com três menus diferentes por ano. Também nos apresentamos como um espaço para a arte abstrata,” diz Tatiana.

Já o Frágil, do bartender António Rosário, define-se como um autêntico bar de bairro, um local intimista com 16 lugares internos e 10 na área externa. “A nossa ideia é que o bar pareça a casa da nossa avó. Temos músicas antigas, fitas cassetes, livros... É um ambiente propício para boas conversas e ótimos coquetéis,” dizRosário.

O Porto vive uma verdadeira onda de novos bares de coquetelaria. Entre 2025 e 2026, diversas casas abriram as portas pela cidade, ampliando consideravelmente a oferta de drinques de alta qualidade.

O Atman, um speakeasy que combina filosofia hindu (recentemente, a senha para garantir a entrada no bar era “Shiva”), ciência e mixologia de precisão acaba de abrir.

Também estão novinhos em folha o A Sede, criado pelo mesmo time do Torto, o Panóplia e o Bar Bar.

Assim como em Lisboa, o Porto transformou-se na casa de muitos bartenders brasileiros de destaque. 

Mário Oliveira tinha acabado de vencer a etapa brasileira do Bacardi Legacy quando decidiu se mudar. O prêmio serviu como um excelente cartão de visitas em Portugal, fazendo com que ele logo se integrasse à cena local. “A coquetelaria portuguesa está em plena ascensão. Ainda não estamos no patamar de Londres, Itália, França e Espanha, mas estamos começando a aparecer com força no cenário internacional,” diz.

Atualmente, Mário comanda o balcão de coquetéis do Hikari, um prestigiado restaurante japonês focado no serviço de omakase.

A presença brasileira não se limita ao trabalho atrás do balcão. Vini Valpereiro é fotógrafo especializado em coquetéis e um ativo agitador cultural que se divide entre o Porto e Viena, na Áustria. Ele funciona como uma verdadeira enciclopédia viva do movimento de bares em Portugal. “O turista tem que vir para Portugal e fazer uma rota de bares de coquetelaria. Vale a pena tomar um ou dois drinques em cada lugar para sentir a força do que está acontecendo por aqui,” diz.

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