Cinco meses foram suficientes para que o Felini entrasse no radar do Guia Michelin.
Instalado no 9º arrondissement de Paris, o restaurante pode passar despercebido para quem caminha distraído pela Rue Saint-Georges, mas é lá dentro que está uma das mesas mais interessantes da bistronomia parisiense.

Nascida em São Paulo e formada pela ESPM, Laura Hyppolito chegou à gastronomia depois de deixar o Brasil. Na capital francesa, passou por algumas das cozinhas italianas mais disputadas da cidade, entre elas a Langosteria, no Cheval Blanc, e o Localino. Em 2025, ao lado do chef Alexandre Guyader, abriu o Felini. Enquanto ele conduz a cozinha, é ela quem dita o ritmo do salão e dá o tom da experiência.
Sua relação com a Itália, no entanto, começou muito antes de cruzar o oceano. Ainda criança, passava horas na cozinha aprendendo a fazer massas com a avó. "A culinária italiana sempre foi a que me aproximou da gastronomia," diz. Anos depois, essas memórias se transformariam na base da cozinha do estabelecimento.
No Felini, três culturas convivem de maneira quase imperceptível. A Itália aparece na tradição da pasta fresca, preparada diariamente, e no respeito aos ingredientes. A França se revela no rigor técnico e no cuidado com o métier. Já o Brasil está na forma de receber. Na minha última passagem por Paris, isso ficou evidente logo na chegada: Laura me recebeu com um abraço caloroso e voltou diversas vezes à mesa ao longo da noite, seja para sugerir pratos, explicar ingredientes ou compartilhar histórias por trás da cozinha da casa.

A atenção aos detalhes aparece, inclusive, no nome — apesar da associação quase imediata, Felini não faz referência ao cineasta Federico Fellini. Escrito com apenas um "l", o nome remete ao universo dos felinos e homenageia os gatos e as ilustrações do artista britânico Louis Wain, espalhadas discretamente pelas paredes do salão. Uma escolha que sintetiza bem a atmosfera da casa: íntima, delicada e sem excessos.

Recentemente, o restaurante iniciou um novo capítulo com a chegada do chef Bogdan Polman, formado pela École Ducasse e especializado em massas na Vecchia Scuola Bolognese. A essência, no entanto, permanece a mesma: a carta continua enxuta, muda conforme as estações e mantém a pasta fresca como protagonista.
“Acredito que este momento de mudança chega na hora certa para reafirmar aquilo que, desde o início, nos fez destacar no Guia Michelin: nossa excelência no preparo de massas e nossa alma italiana, elementos cuidadosamente entrelaçados em cada aspecto do restaurante. Sempre fui responsável pela criação e pelo preparo das massas; por isso, ter o Bogdan ao meu lado na cozinha — alguém com quem posso compartilhar essa paixão de forma ainda mais próxima e que me ajuda a aperfeiçoar ainda mais esse ofício — me dá a certeza de que temos tudo para consolidar nossa posição como um dos melhores restaurantes italianos de Paris,” diz.
Na minha visita, alguns pratos resumiram bem essa filosofia: a burrata da Puglia servida com pêssegos aromatizados em lavanda e alecrim abriu a refeição com delicadeza e frescor.
Em seguida, a rosa de seriola com picles de rabanete, vinagrete de iogurte, kumquat e endro revelou uma cozinha de precisão, em que cada elemento encontra seu lugar no prato de tons vibrantes.

O auge veio com o tagliolini preparado diariamente no estabelecimento, servido com crudo de lagostim e um intenso molho montado com a manteiga do crustáceo e óleo de manjerona.
A própria Laura recomenda terminar a refeição com um dos maiores símbolos da casa: a panna cotta de duas baunilhas com balsâmico branco e fava-tonca. A receita nasceu antes mesmo da abertura do restaurante, quando ela a preparava para o marido nos primeiros meses do casal em Paris. Hoje, tornou-se uma das sobremesas mais pedidas da casa. Infelizmente, quando a pedi, já havia esgotado, mas não faltam motivos para voltar ao estabelecimento e experimentá-la.
Pequeno em tamanho, mas grande em personalidade, o Felini prova que algumas das experiências mais marcantes de uma cidade tão luxuosa podem acontecer longe das vitrines suntuosas.
















