Um retrato íntimo de Ignácio de Loyola Brandão

Um retrato íntimo de Ignácio de Loyola Brandão

“Não Sei Viver Sem Palavras” acompanha o escritor e transforma memórias familiares em um encontro entre pai e filho

Em meio a uma vasta e organizada coleção de materiais de mais de cinco décadas, trinta e oito rolos de Super-8 revelam o que um escritor gostaria de ter sido: Ignácio de Loyola Brandão desejava ser cineasta. “Eu gostaria de ser cozinheiro e, por incrível que pareça, meu sonho a vida inteira foi ser diretor de cinema. Esse é o Ignácio, aquele que quer fazer um filme,” diz o intelectual em uma das cenas de Não Sei Viver Sem Palavras, documentário que estreia nos cinemas nesta quinta-feira, 30.

Dirigido por seu filho André Brandão, o longa-metragem transita entre a trajetória de vida e a obra de um dos mais importantes escritores brasileiros contemporâneos, décimo ocupante da Cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Às vésperas de completar 90 anos, em 31 de julho, Ignácio de Loyola Brandão é apresentado, como é de se esperar, sob uma camada mais íntima. 

Em conversas em seu escritório e em frames captados na estação de trem de Araraquara (“O trem, para nós, significava ir embora para a vida”), sua cidade natal, o romancista e cronista desvela o processo criativo de obras como Não Verás País Nenhum, Zero, Cadeiras Proibidas, O Verde Violentou o Muro, conta como se tornou, acidentalmente, repórter do Última Hora em 1957, e revela a André memórias sobre o próprio pai. 

Foi de Antônio Maria Brandão, um ferroviário, que ouviu: “‘Filho, você faz redação, você tem que escrever. Quando for escrever, faça como sua mãe, ponha todas as palavras juntas e vai escolhendo as melhores para fazer a redação’. Eu acho linda essa imagem, porque são lindos os feijões”.

Imagens de São Paulo se entrelaçam a registros do nascimento de André, o diretor, enquanto trechos de entrevistas públicas de Ignácio de Loyola Brandão cedem espaço a cartas afetivas e passagens de nove obras do escritor, lidas tanto pelo intelectual quanto por seu filho. Uma delas, o conto A Montanha Mágica – O Nascimento de André, escrito durante os dias em que ele esteve na maternidade.

Em entrevista ao Page9, André Brandão conta ter sido a criação do texto do documentário “um dos processos centrais e mais longos do projeto”. “Entre as 20 horas de entrevistas e os livros dele, tínhamos uma quantidade muito grande de texto. E foi quando já tínhamos um primeiro texto da vida e carreira dele estruturados que encontramos as cartas e o A Montanha Mágica, que foram lentamente sendo assimilados,” diz. Segundo o diretor, a estrutura final do corpo textual foi fechada quase na última semana de montagem do filme. 

Garimpar é atividade intrínseca ao fazer jornalístico. Apesar de contar nunca ter planejado ser escritor, Ignácio de Loyola Brandão vivia sempre munido de uma caderneta, como havia ensinado sua primeira professora. 

Foi mirando na fantasia, contudo, que o escritor encontrou outras linhas narrativas para desenvolver uma ficção inventiva, tão característica de sua obra de cronista da cidade e do Brasil. “Só o fato não me interessava. Me interessava ir além do fato. Acho que aí nasceu a minha ficção,” diz.

Iniciado ainda durante a pandemia, quando o diretor começou a filmar despretensiosamente o cotidiano do pai, Não Sei Viver Sem Palavras parece funcionar como uma carta de André ao pai. "É um pouco uma simbiose, uma passagem de bastão, é o meu primeiro filme, uma releitura da vida e da obra dele, partindo de textos e algumas imagens dele, mas com o meu ponto de vista. É algo sutil mas muito forte ao mesmo tempo, difícil explicar."

André, em que momento você deixou de registrar momentos de família e passou a enxergar no material captado um documentário sobre a trajetória do escritor Ignácio de Loyola Brandão e, ao mesmo tempo, um resgate da intimidade do seu pai?

Logo nos primeiros dias percebemos, eu e o Ricardo Carioba, meu sócio na época, que havia ali a possibilidade de um filme. Isso ficou claro à medida que amadurecíamos o conceito, aprofundávamos a pesquisa, relíamos os livros e realizávamos as primeiras entrevistas. 

Quanto à dimensão íntima, sempre esteve claro que seria um filme sobre ele, a vida e a obra dele. Ao mesmo tempo, sempre soubemos que não dava para ignorar que é o filme de um filho. O meu papel na narrativa foi um dos temas mais discutidos ao longo de todo o processo, com opiniões bastante diferentes entre a equipe. Conforme o projeto avançou, fui assumindo naturalmente as principais decisões.

O encontro com o conto A Montanha Mágica, sobre meu nascimento, e com as cartas que ele me escreveu quando morei fora do Brasil acabou conduzindo essa conversa de forma muito natural. Acho que os textos trazem justamente a mistura que a gente estava buscando. Eles falam de experiências muito íntimas, mas também trazem pensamentos e reflexões sobre a história dele, a literatura, o Brasil, a política, o clima, o cinema, o mundo, a vida e a morte, que conectavam com o grosso da narrativa que a gente estava construindo.

O documentário transita entre esses registros caseiros, trechos de falas públicas e, o que talvez seja sua maior preciosidade, imagens feitas pelo próprio escritor, algumas delas, inclusive, do seu nascimento. Como foi fazer esse resgate, reencontrar imagens, escritos e filmes tão fundamentais para a sua própria história? Em determinado momento do filme, Ignácio se pergunta: “O que ele vai pensar quando assistir ao próprio nascimento? Que reencontro será esse? De um instante perdido com um instante recuperado? Sair de uma solidão para uma solidão maior ainda.” Como foi reencontrar, pela primeira vez, esse instante da sua própria vida pelo olhar do seu pai?

O filme acompanha um grande processo de transformação, que continua acontecendo. É curioso pensar que fui ao encontro desse instante da minha própria vida pelo olhar do meu pai justamente durante a realização do meu primeiro filme, no momento em que também apresentava ao mundo o meu olhar. Acho que esse filme nasce de um desejo meu de tocar, quase fisicamente, um certo fio que liga todas as vidas que se sucedem. E, curiosamente, mesmo atados a esse fio, seguimos todos soltos à nossa "solidão maior ainda". Onde será que essa solidão e esse fio, essa teia, se encontram?

O que fazer um filme sobre seu pai permitiu que você acessasse nele?

Fazer o filme me deu mais consciência do tamanho, da história dele. É muito admirável o que ele conseguiu construir por meio da literatura. Mas, para além de tudo isso, é muito admirável e tocante como as pessoas gostam dele. Desde o início sentimos que haveria uma sobreposição entre vida, obra e a própria história/zeitgeist do Brasil e do mundo. Porque ele realmente vive num mundo em que tudo se mistura pela fantasia. As histórias nasceram diretamente das experiências que viveu; eram quase conversas delirantes com a própria vida.

Durante a infância, ele nos filmava com frequência e fazíamos sessões de projeção em casa, dos nossos filmes e desenhos animados. Mas esse acervo estava um pouco largado e, durante muitos anos, falamos que precisávamos digitalizá-lo. 

Como Vladimir Herzog, que sempre desejou uma carreira no cinema (e até teve algumas incursões), o escritor revela o que para muita gente pode ainda ser uma surpresa: "eu gostaria de ser cozinheiro e, por incrível que pareça, meu sonho a vida inteira foi ser diretor de cinema". Em Não Sei Viver Sem Palavras, além de uma homenagem, você parece realizar um pouco esse desejo do seu pai, ao criar um filme em que ele também é cinegrafista. 

Gosto dessa ideia, de que esse filme de certa forma é o filme que ele sempre quis fazer. Ser em parte um filme dele, que se apaixonou por livros muito influenciado pelo pai, meu avô, que era um leitor voraz e tinha uma grande biblioteca em casa, e meu pai, que sempre quis fazer cinema, acaba fazendo um filme através do seu filho, que faz cinema. Acho isso bonito. Em relação ao equilíbrio entre diretor e filho, não sei se em algum momento cheguei a fazer essa distinção. Não sei se consigo.

A única objeção que ele apresentou foi à ideia de que eu o filmasse sem camiseta. Eu queria filmar uma cena dele sentado em um banco do Jardim Público, uma praça que ele frequentou muito em Araraquara, sem camiseta, talvez até de cueca, um pouco à la José Celso [Martinez Corrêa]. Ele não topou. Um dia, algum tempo depois dessa conversa, entro no quarto dele e ele está se trocando, sem camiseta. Ele dá uma reclamadinha, mas deixa filmar. E a cena ficou bonita.

Você teve uma longa carreira como fotógrafo antes de migrar para o cinema, em 2015. O que a fotografia trouxe para a construção da linguagem do documentário? Quais são suas principais referências, especialmente na cena documental brasileira?

A linguagem do filme foi construída de forma bastante coletiva, com contribuições fundamentais do Ricardo Carioba (codiretor), André Collazzo e Vivian Brito (roteiro), Maru Moraga (montagem) e Fernanda Sgroglia (assistência de montagem). Essa confluência de olhares é parte essencial do resultado final.

Quanto à fotografia, três aspectos são fundamentais: ajudar a construir uma unidade visual para um acervo composto por vídeos e fotografias de origens, formatos e resoluções muito diferentes; amparar a história, a narrativa, como metáfora, simbologia para o roteiro, dando prioridade à força e impacto narrativo das imagens; e, por fim, a criação das cenas filmadas especialmente para o documentário (entrevistas, cenas de Araraquara, interpretações sensoriais dos textos dele e registros em celular), sempre com liberdade para experimentar diferentes câmeras e formatos.

Entre as principais referências do período de criação estão Homem Comum, do Carlos Nader, além de cineastas como Patricio Guzmán, Petra Costa, João Moreira Salles, Kevin Macdonald e Ken Burns, especialmente pela forma como trabalham o material de arquivo. Também me marcou muito, em um momento específico do projeto, a leitura de O Que É Meu, do José Henrique Bortoluci.

Depois de mergulhar tão profundamente na obra de Ignácio de Loyola Brandão, o que você entende hoje sobre a origem da imaginação dele, sobre o papel da fantasia e sua relação com a realidade e com o Brasil? Existe algum livro que você passou a enxergar de outra forma depois do documentário e de tantas novas conversas para ele?

É muito curioso como ele realmente vive em uma mistura das duas coisas, da fantasia e da realidade. Mesmo ele contando de algo que ele fez recentemente, um almoço no dia anterior, algo simples assim, algum delírio ele vai trazer. Ao mesmo tempo, ainda que ele também traga essa visão delirante para o Brasil e o mundo na sua ficção, ele é bastante lúcido em seus posicionamentos e visões de questões públicas.

Essa relação entre fantasia e realidade é, conceitualmente, algo importante para mim no filme. É algo que me interessa e que penso ser muito relevante no mundo de hoje, da pós-verdade (palavra já velha, mas mais atual do que nunca).

Me reconectei com muitos dos livros dele no processo, reli muitos dos principais.  Sinto que passei a enxergar a obra toda de uma forma diferente.

Você diz que o filme os uniu ainda mais. Na sua visão, como a relação de vocês se transformou? Depois de pronto, qual foi a reação de Ignácio ao assisti-lo pela primeira vez?

Reforçou uma aproximação que já vinha acontecendo ao longo da vida.

Na primeira vez que ele viu o filme, quando terminou, ficou em silêncio alguns segundos e então falou: “Que estranho. Parece que eu morri”. Já na última vez (foi a quarta, se não me engano), em uma sessão seguida de debate no lançamento da Festa Literária da Morada do Sol, em Araraquara, ele disse: “Hoje, pela primeira vez, consegui ver o filme direito, gostei. É um belo filme”.

Houve uma cena que permeou o processo todo, desde o começo, e que só foi descartada quando o filme já estava quase pronto. A lembrança da separação dos meus pais, quando eu tinha 3 anos, sempre esteve associada, para mim, a uma imagem específica: ele saindo da garagem do prédio num caminhãozinho carregado, eu sozinho, perto do elevador, observando. 

Era uma cena meio cinematográfica. E era uma lembrança um pouco angustiante, opressora, talvez até um pouco paralisante, olhando em retrospecto. Um outro lado bem interessante é que meu pai se lembra dela de uma forma completamente diferente. Para ele, eu estava na janela do apartamento e, quando ele saiu da garagem, na cabine do caminhão, olhou para cima e me viu dando tchau na janela. E é a ideia básica do filme: “a fantasia ajuda a suportar a vida”. O que é vida, fantasia e realidade? O que aconteceu naquele dia? 

Essa cena foi discutida muitas vezes, para ser descartada no final. Ela ficou sobrando, a conversa foi por outro caminho. E a lembrança dela hoje já não tem mais peso nenhum.

O que significa registrar um artista aos 90 anos, ainda produzindo e refletindo sobre o mundo? Como seu pai lida hoje com a passagem do tempo? E o que você gostaria que um jovem que nunca leu Ignácio de Loyola Brandão levasse consigo depois de assistir ao documentário?

Acho que ele é um exemplo de vida do qual tenho o privilégio de fazer parte.

Meu pai sempre foi, ao mesmo tempo, catastrofista, inquieto e incansável. Hoje tem lidado com a passagem do tempo de uma forma ambígua: consciente da própria fragilidade, o que às vezes pode ser bem difícil, mas ainda com sede, curiosidade. Faz as coisas mais devagarzinho, mas sem parar.

Espero que o filme desperte no público a descoberta de uma trajetória de vida interessante e inspiradora, de uma vida enérgica, engajada, pulsante. Uma vida que, por vezes, recorre ao delírio e à fantasia como formas de ajudar a suportar a realidade. 

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