Uma vinícola para chamar de sua

Uma vinícola para chamar de sua

Quatro produtores revelam o que existe entre o sonho de ter um vinhedo e a garrafa na mesa — e por que seguem em frente

“Fazer vinho é relativamente simples, só os primeiros duzentos anos são difíceis.”

A frase atribuída à baronesa Philippine de Rothschild diverte Luis Louro, enólogo e fundador da Adega Monte Branco, em Estremoz, no Alentejo português. Ele faz as contas: “Só me faltam 180 anos!”

Louro é um dos produtores que vêm elevando o patamar dos vinhos do Alentejo. Entre os vinhos da Monte Branco estão o Monte Branco Reserva e o raríssimo Monte Branco XX Duas Décadas de Vindimas, um tinto multissafra que reúne o melhor da produção da jovem vinícola.

O enólogo começou aos 23 anos, com muitas ideias, uma vontade enorme e duas mãos para trabalhar. Não tinha vinha, vinícola nem dívidas. Hoje, com bom humor, conta que tem tudo isso e uma disposição intacta para continuar procurando fazer um vinho melhor.

Em Portugal, lembra, há outro dito que serve de aviso aos interessados: “A melhor forma de fazer uma pequena fortuna no mundo do vinho é começar com uma grande.”

Ainda assim, há quem plante o primeiro hectare, compre uma vinícola ou dedique anos à construção de uma região produtora. O desejo pode nascer de uma paixão, da curiosidade pela agricultura ou de uma oportunidade inesperada. Ao apreciar um vinho, nem sempre se imagina o trabalho que existe até ele chegar à taça.

Pedro Testa, fundador da Casa Tés, no Vale da Grama, em São Paulo, começou com um hectare perto de casa. A região já produzia cafés e azeites que admirava. Queria aprender a plantar e descobrir o que poderia nascer dali.

Com a consultoria enológica de Pierre Lurton, presidente dos châteaux Cheval Blanc e d’Yquem, a Casa Tés foi tomando forma com uma ambição definida: produzir um vinho extraordinário, com um tinto inspirado no mais disputado ícone de Saint-Émilion, em Bordeaux, o grande Cheval Blanc. 

“Sempre quisemos produzir um vinho extraordinário — não crescer, mas fazer tudo com excelência, fatto a mano,” diz Pedro Testa.

Antes, porém, precisou aprender a cuidar da vinha. Uma das primeiras descobertas foi que “formiga trabalha em feriado e à noite.” Outra: para fazer um grande vinho, o trabalho difícil está na roça.

Marcelo Maturano, fundador da Vinícola Maturano, em Teresópolis, no Rio de Janeiro, reconhece esse percurso. Foi a paixão pelo vinho que o levou a criar o projeto. 

Com o tempo, percebeu que precisaria gostar também da terra, da agricultura e do processo de transformar o que nasce no campo em algo com identidade, origem e história. “Gostar de vinho é uma coisa. Conseguir ter êxito no campo é outra completamente diferente.” 

A produção tem à frente Mônica Rossetti como diretora de enologia e Francisco Novelle como diretor de agronomia. O projeto é visionário e possui o que há de melhor em termos de tecnologia do mundo vitivinícola.

Na Maturano, essa ligação determina o que chega à garrafa. O projeto trabalha exclusivamente com uvas próprias. Se uma variedade não alcançar a qualidade necessária em determinado ano, talvez seu rótulo simplesmente não exista naquela safra. 

É uma escolha que exige aceitar o resultado do campo, inclusive quando ele impede a produção. Para Marcelo, traz dificuldade, mas também coerência: um grande vinho começa na vinha.

Luiz Eduardo Batalha, empresário e proprietário do Grand Terroir 31, na Campanha Gaúcha, no Rio Grande do Sul, percorreu o caminho em outra direção. Já tinha vinhedos desde 2015 e vendia as uvas. Produzir seu próprio vinho parecia complicado demais. 

Havia, no entanto, uma coincidência na vizinhança. A Vinícola Batalha levava seu sobrenome, mas pertencia a Gilberto Pozzan. Os dois ficaram amigos e se divertiam com a confusão: Batalha recebia parabéns pelo vinho de Pozzan; Pozzan, pelos azeites de Batalha. Enquanto os produtos fossem bons, brincavam, poderiam continuar assim.

A coincidência virou oportunidade quando Batalha decidiu desenvolver o Grand Terroir 31, na Campanha Gaúcha. A vinícola poderia integrar o projeto, que reúne vinho, azeite, gastronomia e lazer, com a proposta de permitir que outros proprietários também produzam seus vinhos. Ele comprou o negócio e começou um novo ciclo de recuperação e investimentos.

Para Luis Louro, a diversidade do campo despertou o interesse desde o início: entender solos, castas e microclimas e aprender a usá-los na criação de vinhos mais autênticos e equilibrados. Mas há uma diferença entre se encantar com essa diversidade e depender dela. 

“Nosso escritório é a céu aberto,” costuma dizer o português. O clima pode levar a uma colheita excepcional ou à perda total.

Pedro Testa vive a mesma incerteza: cuidar das vinhas muda a cada ano, entre chuva e falta de chuva, sempre pensando no vinho que deseja produzir, no seu caso, com frescor e acidez.

Na vindima, o calendário ganha urgência. Louro descreve seis ou sete semanas em que tudo para e a prioridade é colher. É quando se define a qualidade dos vinhos feitos com o trabalho de um ano. 

“Nesta altura não há o ‘amanhã faz-se,’ ou o ‘vou descansar.’

” São semanas intensas, exigentes, com muitas horas sem comer ou dormir. O prazer de ver o resultado, diz, é “indescritível”.

Fora da vindima, é preciso conviver com outro sócio: o tempo. Uma vinha, explica Louro, só começa a produzir no terceiro ano depois da plantação. Depois da colheita, dependendo do vinho, ainda podem passar dois, três, cinco ou mais anos até o lançamento. Antes disso, houve o trabalho na vinha e todos os investimentos iniciais. O capital fica comprometido muito antes de a primeira garrafa ser vendida.

Batalha é direto no conselho a quem deseja começar: é preciso dinheiro, capacidade de gestão, resiliência e paciência. São muitas as decisões que influenciam a qualidade, e o resultado não aparece imediatamente.

Marcelo recomenda perseverança e adverte contra a expectativa de retorno simples ou rápido. Para ele, o aprendizado depende de diferentes safras, de um conjunto enorme de escolhas e de circunstâncias que o produtor não controla. “Muitas vezes, só o tempo é capaz de dar as respostas.” Perguntado sobre o que quem está de fora não percebe, Marcelo resume: “Tudo o que existe da garrafa para trás.”

Testa coloca o cuidado com as pessoas entre as partes mais difíceis da operação: quem está no campo, quem acompanha a produção, quem vende a garrafa. Fala de moradia, estudo e das necessidades de todos os envolvidos.

Fazer um bom vinho é uma coisa. Encontrar quem o compre é outra. Para Batalha, a comercialização é a parte mais difícil. Entre tantos rótulos do mundo inteiro, conquistar atenção exige qualidade, marketing e um trabalho consistente. Mesmo um bom vinho pode ter dificuldade para encontrar seu espaço.

Louro também destaca a concorrência: “É provavelmente o negócio com maior concorrência a nível mundial. Não vejo nenhum outro negócio que tenha tantas marcas e tanta diversidade.” A disputa exige um esforço comercial enorme para transformar identidade e origem em um negócio.

Na Casa Tés, a escolha foi pela alocação, modelo que, segundo Testa, reúne hoje mais de oito mil pessoas inscritas. Para ele, definir o projeto e a forma de comercialização deveria anteceder o plantio. É preciso saber o que se quer fazer.

Enquanto a Casa Tés escolheu limitar a produção, Batalha criou um projeto que abre espaço para outros proprietários realizarem o sonho do próprio vinho.

Existe ainda o desafio de contar ao consumidor o cuidado empregado em cada etapa: da rolha ao rótulo, das barricas ao trabalho no campo. São detalhes que, nas palavras de Testa, “às vezes é difícil contar na gôndola”.

Na primeira vez que seus vinhos foram servidos em um restaurante em São Paulo, Testa percebeu que parte dessa história poderia ser contada na taça. 

Havia críticos, jornalistas e sommeliers. Ele estava sentado à mesa, ainda incógnito, observando as reações de quem provava o Grama branco e o Casa Tés. “As pessoas iam se encantando”, lembra. 

Quando foi apresentado como o homem por trás da Casa Tés, os convidados começaram a procurá-lo para contar suas impressões. Foi um momento marcante: depois de tanto trabalho, podia assistir ao encontro do vinho com quem o bebia.

“Dar certo ou errado não é uma métrica puramente financeira,” diz Testa. Construir um negócio saudável, ver o produto chegar a mesas que admira e trabalhar com pessoas competentes e queridas fazem as reuniões às cinco da manhã ganharem sentido.

Para Batalha, a recompensa está na busca de um vinho excepcional e no reconhecimento que pode vir de um concurso ou de uma loja. Mas também na capacidade que uma garrafa tem de criar uma ocasião. “O vinho é um protagonista,” diz. “Com uma garrafa de vinho, você faz uma festa.”

Marcelo encontra satisfação numa transformação mais lenta: acompanhar o desenvolvimento de uma região produtora e perceber que participou da construção de algo que pode estimular o enoturismo, a hotelaria e a gastronomia. 

É olhar para a terra e ver surgir o que foi imaginado anos antes. Quando a pergunta sobre desistir chega, ele responde sem rodeios: “Jamais.”

Louro, apesar da disposição para continuar, oferece ao aspirante a produtor um conselho provocador: “Fique-se pelo sonho que será sempre melhor que a realidade.” Com menos investimento, argumenta, seria possível beber os melhores vinhos do mundo durante várias vidas. Se, ainda assim, a decisão for avançar, ele recomenda fazer algo genuíno, com identidade e alma, cercado de uma boa equipe.

Ele segue aprendendo, experimentando e procurando produzir os melhores vinhos a cada ano. E guarda uma recompensa que exige outra espécie de paciência: fazer um grande vinho e poder bebê-lo dez ou vinte anos depois, numa mesa rodeada de amigos.

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