O peso de pertencer a uma das famílias mais tradicionais do País

O peso de pertencer a uma das famílias mais tradicionais do País

Mariana Moraes reflete sobre sucessão, patrimônio e a longevidade de valores éticos

Quando sua avó, Neyde Ugolini de Moraes, morreu, com mais de 90 anos, Mariana sabia que não havia mais grandes decisões a serem tomadas. A matriarca já havia manifestado, em um documento assinado pelos filhos, sua vontade de permanecer em casa no fim da vida. Nos últimos anos, foi se desligando aos poucos do mundo, o que deu à família tempo para organizar a sucessão dos bens e conduzir tudo de forma prática, racional e coerente.

Foi assim que Neide Helena de Moraes, a única filha mulher do casal, com o aval dos irmãos, cuidou da distribuição dos objetos de valor — financeiro ou afetivo — que estavam no apartamento em Pinheiros. Relíquias trazidas de viagens, aparelhos de jantar, porcelanas Companhia das Índias, além de obras de Cândido Portinari, Di Cavalcanti e Ismael Nery, foram avaliados e repartidos conforme o interesse de cada descendente. 

Mariana, de 44 anos, filha de Neide, ficou com algumas lembranças representativas dessa história. Um quadro da Anita Malfatti foi para sua sala, assim como itens de decoração e algumas pratarias. Mas também levou a tábua de passar roupa da avó — porque precisava de uma e acredita que as coisas devem ser aproveitadas. 

A família sempre foi ligada à arte. Neide é patrona do MASP e ajudou a intermediar a doação da família para a construção do Edifício Pietro Maria Bardi, novo prédio do museu na Avenida Paulista, além de apoiar instituições como MAM, MUBE e Fundação Bienal. 

Filantropia também faz parte da história dos Ermírio de Moraes. Diversas instituições de saúde e ensino contam com o apoio da família. O Hospital A.C.Camargo pôde fazer a aquisição de equipamentos revolucionários para o tratamento de pacientes com câncer graças a uma doação da família. 

Exemplos não faltam, embora haja bastante discrição. Em um leilão beneficente em prol da Faculdade do Hospital Sírio-Libanês, Liana e José Ermírio de Moraes Neto doaram, nos bastidores, R$1 milhão para financiar bolsas de estudo destinadas a alunos de baixa renda.

Este não foi um episódio aleatório: desde a morte precoce de um dos filhos, Duda, aos 30 anos, em um acidente de avião, incentivar a educação tornou-se uma forma de manter vivo um ideal que ele defendia — a busca do conhecimento como ferramenta de transformação social. 

Quanto aos negócios, tudo tem sido muito bem pensado.

“A gente vem de uma família bem tradicional, que já conseguiu levar um patrimônio para sua quinta geração. Não tem como negar o peso e a responsabilidade disso, de perpetuar os mesmos valores como honestidade, humildade, empreendedorismo, senso de dono e por aí vai. Por outro lado, fica muito difícil para algumas pessoas que não querem fazer parte dessa estrutura. Antigamente, todos os filhos homens eram obrigados a trabalhar no grupo. Depois houve uma reestruturação e hoje ficou claro que, além de não haver espaço para todos em cargos de liderança, é necessário ter uma gestão executiva, com profissionais de fora,” disse Mariana ao Page9. 

Diante dessa maneira de enxergar os negócios, ela decidiu construir sua própria trajetória. “Nunca pedi ajuda a ninguém. Mandei currículos, participei de vários processos seletivos e foi assim que consegui chegar aos maiores bancos nacionais e internacionais," disse. Depois de atuar anonimamente no mercado financeiro, ingressou na Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), do grupo Votorantim, assumindo a função de coordenadora financeira. Acima dela estavam dois gerentes, uma diretora e o presidente — nenhum deles da família. 

Recentemente, a empresa foi vendida e Mariana já pensa nos próximos passos até, quem sabe, tornar-se acionista. “Por enquanto, estou empenhada em aprender para, no futuro, tomar as decisões que são melhores para a empresa."  

Outro desafio está na criação dos filhos, de 8 e 6 anos. “Falar não, impor limites, educar para serem bons cidadãos é fundamental para que um dia eles possam honrar e reconhecer tudo que já foi conquistado,” disse. 

Parece tudo bem alinhado com os ensinamentos do patriarca José Ermírio de Moraes Filho. Alguns deles foram registrados no livro José - Um Homem Do Seu Tempo. Com texto de João de Scantimburgo e organização de Edemar Cid Ferreira e Mario Amato, que eram muito próximos do empresário, a obra reúne depoimentos e frases que ajudam a compreender o legado da família, que preza por valores que vão além do patrimônio. 

Em um encontro da Votorantim com netos e sobrinhos-netos, José Ermírio resumiu sua visão: “Não há meio mais eficaz de garantir consistência, solidez e determinação a um empreendimento do que a confiança de que seu propósito é digno e seus benefícios são multiplicadores. Não há alicerce mais duradouro e seguro para as realizações de uma empresa do que assentá-la sobre valores.”

Talvez essa seja a riqueza mais valiosa: a que nasce da construção de um legado — uma herança que, definitivamente, não se mede. 

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