Cavalo de R$ 88 mi e trânsito de jatinhos: por dentro do poderoso leilão JBJ Ranch

Cavalo de R$ 88 mi e trânsito de jatinhos: por dentro do poderoso leilão JBJ Ranch

Com cavalos de R$ 88 milhões e R$ 257 milhões arrecadados na edição de 2026, o leilão na fazenda da família Batista, o maior evento de Quarto de Milha do mundo, é também um desfile de jatinhos, diamantes e botas Hermès

Tem clima de festa dos Anos Loucos, mas a verdade é que a última edição do leilão anual da JBJ Ranch, do Grupo JBJ Agropecuária, faria Jay Gatsby, de o Grande Gatsby, espumar de inveja com tamanha extravagância no coração do Cerrado.

Nazario, cidade a 80km de Goiânia, tremeu de sexta-feira a domingo, em meio a gritos de leiloeiros, congestionamento de jatinhos, show de fogos de artifício, diamantes avaliados em R$ 700 mil e incontáveis pares de botas Hermès. Tudo desfilado pela turma responsável por boa parte do PIB brasileiro — alguns ostentando chapéus de cowboy que chegavam a R$ 100 mil.

Não seria diferente quando os anfitriões são Fabrício Batista, idealizador do JBJ Ranch e CEO da JBJ Agropecuária; seu pai, José Júnior Batista, presidente do Grupo; e Georgia Adriano Batista, esposa de Fabrício e, possivelmente, a principal mente criativa da festa. O Grupo JBJ Agro foi criado em 2012 quando José Júnior Batista, também conhecido como Júnior Friboi — irmão de Joesley e Wesley Batista —, saiu da JBS.

O tom da festança na Fazenda Floresta é maximalista: 6.000 convidados atendidos por um staff de 2.000 funcionários e a expectativa de levantar R$ 150 milhões com a venda de cavalos da raça Quarto de Milha. A meta batida foi devidamente batida com R$ 257 milhões arrecadados, marca que faz deste o maior leilão do tipo no mundo.

“A história com os cavalos surgiu pois meu filho puxou ao meu avô, que era tropeiro e apreciava os animais,” diz José Júnior Batista. “Vem da genética. Tudo na vida vem um pouco dela, ninguém nasce por acaso. Veja: do meu avô, nasceu meu pai, José Batista Sobrinho, ou ‘Zé Mineiro’, que em 1953 começou o negócio da família,” diz Júnior Friboi. “Tudo que fizemos, até então, foi por paixão.”

A edição deste ano teve como estrela o cavalo Inferno Sixty Six. Os animais são vendidos em uma lógica de “condomínio”. Faz-se uma compra de cotas de um mesmo cavalo e os custos de criação e o lucro são divididos entre os felizardos pela compra. No caso do Inferno Sixty Six, ele foi vendido por R$ 44 milhões. Agora, o animal é 25% da JBJ, 25% do Haras Frange e 50% de Domenico Lomuto.

Foram necessários R$ 8 milhões para levantar o espetáculo. Destes, R$ 4 milhões foram pagos por patrocinadores, como Mitsubishi, Santander, Bradesco e Império. “Tivemos três cotas de patrocínio. Uma de R$ 70 mil, outra de R$ 100 mil e a de R$ 150 mil. Cada uma dava direito de quatro a oito lugares em uma mesa,” diz Georgia Adriano Batista. O esquema de “quem senta onde”, parte importante do evento também pensando em relacionamento, foi montado, a dedo, por ela.

Decoração com papel de parede dólares

O leilão teve shows de Paula Fernandes e Maiara & Maraisa e se inspirou na cidade texana de Fort Worth, berço da cultura cowboy. “Fizemos uma visita técnica ao local para bolar a decoração,” explica a diretora criativa da Vero Festas — e ex-participante do reality show Poderosas do Cerrado, da Globoplay — Cristal Lobo. 

Deu certo: o salão central reproduzia a fachada das lojas da cidade e um dos bares tinha várias notas de dólares coladas na superfície, uma referência ao The Basement Bar, em Fort Worth. O local é conhecido pela tradição dos visitantes de prender cédulas com recados. No caso do leilão - ainda estamos apurando se o dinheiro usado ali era mera cenografia, mas não nos espantaria se fossem cédulas verdadeiras...

“É um verdadeiro festival,” diz a diretora criativa. “Um ano antes do leilão é feito um bloqueio das reservas dos melhores hotéis da região para atender aos convidados”, diz Cristal Lobo. Quem foram eles? Os empresários Wesley Batista, Roberto Justus, Eike Batista e Alexandre Negrão, o governador de Goiás, Daniel Vilela, os cantores Gusttavo Lima e Naiara Azevedo, a apresentadora Silvia Abravanel, as influenciadoras Ana Paula Siebert Justus e Lalá Noleto, entre outros.

“Os Batistas fazem tudo com excelência. E eu sou muito chato com isso, né?”, diz Roberto Justus. “Quando eu vejo gente fazendo assim, fico encantado. Eles são exemplares e líderes mundiais em um setor — o agro — que é o pulmão do Brasil.” Ao ser perguntado se daria um lance, respondeu: “Não vim com essa intenção, mas minha esposa viu um cavalo de olho azul e brincou que deveríamos comprar, porque tinha a mesma cor dos meus olhos. Este parece ser o critério dela.”

Já o cantor Gusttavo Lima, que se apresentou no casamento de Fabrício e Georgia Adriano Batista há 11 anos, participou com lotes próprios. Além disso, o artista também cria cavalos em parceria com a família, e  o valor levantado por ele no evento foi destinado ao Hospital Cora Saúde Goiás. “O mercado mundial inteiro está de olho no leilão e isso é maravilhoso,” diz. As vendas foram transmitidas a compradores de diferentes países, em tempo real.

Rave western

A JBJ Agropecuária é dividida em diferentes núcleos. O Ranch é um deles, mas a principal é a de criação de bois. Também tem a Prima Food, com o frigorífico, e a Beef JBJ, com as lojas de varejo. Por fim, também existe a JBJ Genetics, voltada a melhorar as criações por modificação genética. “Começamos em 2012 com um faturamento de R$ 100 milhões. Em 2025, alcançamos R$ 6 bilhões e projetamos, para 2026/27, R$ 10 bilhões,” diz o diretor financeiro da JBJ Rodrigo Terra. Atualmente, o grupo tem 4.500 funcionários.

A frente equina não é a que mais lucra, mas a que mais cresce. Em 2021, o faturamento inicial foi de R$9 milhões. Em 2026, apenas cinco anos depois, aumentou cerca de 2.855%. “O Ranch é uma vitrine da JBJ,” diz o CEO do Grupo, Fabrício Batista. No leilão deste ano, foram 144 lotes de garanhões (machos), matrizes (éguas), potros (filhotes machos), potrinhas (filhotes fêmeas), embriões e sêmen. A cada lance, o cavalo subia no palco ao som estridente, com toda pompa, circunstância e glitter sobre o pelo. Quase uma rave western.

Do lado de fora do salão-celeiro, uma pista de pouso e um heliponto recebiam parte dos convidados que iam e vinham. Porém, nem todos os aviões chegaram por lá. O empresário Roberto Justus precisou pousar em Goiânia e seguiu de helicóptero, pois seu jato era muito grande para a pista da fazenda.

Os valores  apareciam em telões e eram atualizados à medida em que o público, sentado em dezenas ou centenas de mesas, dava os lances. Para quem não fazia parte do mundo bilionário do agro, como todos os da mesa da imprensa, a dinâmica por vezes era confusa. Como quando um dos primeiros cavalos apareceu com o lance inicial de R$ 10 mil. Alguns jornalistas chegaram a se animar, e a confabular possíveis sociedades. A ilusão, claro, rapidamente caiu por terra. Afinal, não se tratava de uma cota do animal por R$ 10 mil, mas de 55 suaves parcelas deste valor (no total, R$ 550 mil — um cavalo “barato” para os padrões dos lotes).   

Histórico do leilão

O maior leilão do mundo de Quarto de Milha surgiu por pura emoção — além de expertise de décadas. Nesse caso, do amor do CEO Fabrício Batista pelo campo e por seus animais. “Morei até os 12 em uma propriedade rural de Luziânia (GO). Ali, eu tinha minha criação e foi onde aprendi a gostar do agro.” Toda empreitada de larga envergadura, diz o empresário, começa assim: “Se você não for apaixonado pelo que faz, jamais terá sucesso”. 

“Um dia, Fabrício me disse: ‘Pai, vamos comprar uma égua de Quarto de Milha para as crianças da fazenda brincarem?’", lembra José Batista Júnior, que concordou. Por volta de 2021, Fabrício foi a um leilão e comprou a primeira égua, Laffer Boy. “A partir disso, ele começou a frequentar mais leilões e se encantou pelo Quarto de Milha,” diz seu pai.

Do fascínio, novas ideias surgiram: “Ele sugeriu fazermos uma baia na fazenda, tipo as do Texas, e colocar algumas matrizes para produzir animais,” diz José Batista. Pai e filho começaram a dimensionar o mercado de Quarto de Milha no Brasil e a consultar especialistas. “Nos propusemos a fazer algo bem feito e a ser os melhores. Queríamos entrar com uma abordagem genética, com a aquisição dos melhores garanhões para melhorar o sêmen,” diz Júnior Friboi. 

Até 2021, o maior leilão desta raça realizado no Brasil, feito pela Associação Brasileira de Quarto de Milha (ABQM), havia angariado cerca de R $6 milhões. “Eu estabeleci que deveríamos bater a marca já na primeira edição,” diz José Batista Júnior. Conseguiram. No ano seguinte, levantaram R$ 18 milhões. Em 2023, R$ 50 milhões. “Foi aí, na terceira edição, que realmente começou a virar um grande negócio,” diz José Batista.

Por volta daquele ano, a família adquiriu um rancho no Texas, em Pilot Point, para comprar éguas de qualidade e trazê-las para o Brasil. Com o perdão do trocadilho, mas o local é o celeiro mundial da raça, com alguns dos melhores animais disponíveis. “É o cavalo do cowboy, do faroeste americano,” diz José Batista. Hoje, muitos vêm para o Brasil, para o rancho da família. Aqui, alguns novos são gerados e, depois, eles e seus progenitores são leiloados de volta para os EUA. Ou seja, a família Batista conseguiu reconfigurar o fluxo tradicional internacional, que estabelecia os Estados Unidos como principal pólo produtor. 

“Rapidamente passamos longe de ser apenas o maior leilão da América Latina, mas alcançamos o posto global,” diz José Batista. Qual é o atual segundo? Foi perguntado ao empresário em seu escritório espelhado, com vista para grande parte de Goiânia, no topo do edifício World Trade Center (construído pela própria JBJ). “O segundo é o primeiro dos perdedores,” respondeu Júnior Friboi, sentado à cabeceira de uma longa mesa de pedra. Ao seu lado, uma assistente tomava nota.

Entre famílias

A JBJ possui 14 fazendas. Sete em Goiás, três no Tocantins, três no Mato Grosso e uma no Mato Grosso do Sul. Ao todo, são 150 mil hectares. Em 2025, o grupo abateu mais de 500 mil bois — com expectativa de chegar a 620 mil neste ano. A Fazenda Floresta em Nazário tem três mil hectares — é a menor unidade de produção. Nela, cerca de 20 mil bois são confinados por 120 dias antes de serem abatidos e ,suas carnes, processadas e exportadas. Por ano, são três ciclos do tipo no lugar.

Próxima à Floresta está a Fazenda Conforto, também da JBJ. A propriedade tem capacidade de processar 70 mil animais. O local pertencia à família Negrão, fundadora da farmacêutica Medley. Inclusive, no primeiro dia do leilão, o empresário e automobilista Alexandre Negrão deu uma passada para prestigiar os amigos. Apesar do histórico de envolvimento de sua família no agro, Negrão disse que o negócio de cavalo “não é para ele” Horas depois, embarcou para São Paulo para o casamento no civil com Elisa Zarzur, influenciadora e herdeira do bilionário do setor imobiliário, Waldomiro Zarzur. 

Seja da Fazenda Conforto, ou uma das outras 13 unidades da JBJ, cerca de 70% da produção bovina do grupo é para exportação. A China é a maior compradora. Na sequência vem Estados Unidos, Oriente Médio, Europa e América Latina. “Hoje, o Brasil é o maior produtor e exportador de carne bovina. Antes, eram os EUA, os atuais primeiros dos perdedores,” diz Fabrício Batista. “A gente tem mão de obra e custo de produção baratos. Clima e extensão de terra, também.” O pai completa: “Além de um histórico diferente de reforma agrária se comparado ao da Europa, por exemplo.”

De volta para a minha terra

"Tudo começa com uma paixão", disse Fabrício Batista. Assim como tudo foi iniciado no Texas, segundo o próprio. “Somos brasileiros, claro, mas firmar o tema do leilão deste ano como Fort Worth é, de alguma forma, um retorno às origens. O Texas é o berço de tudo: da grande criação de bovino e do cowboy. O chapéu que uso para me proteger do sol e a minha fivela, de ouro com aplicação de pedras, surgiram lá,” diz.

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