Era manhã fria de julho quando Jorge Elias recebeu o Page9 em sua galeria, no Jardim Paulistano.
É ali que o arquiteto e decorador vive com Caíque Schmid, seu companheiro há cinco anos, e com cinco cachorros: três cavalier king charles spaniels, um dachshund e um pequinês — os dois últimos batizados de Mentira e Santo, respectivamente. O endereço, que funciona como antiquário e loja, é o mesmo em que Jorge construiu sua carreira e passou por tantas reviravoltas. Depois da separação com Lucila Trajano, há dez anos, o lugar tornou-se também sua casa.
Com uma trajetória marcada por projetos para as famílias mais tradicionais do Brasil, Jorge viveu altos e baixos. Da própria separação ao acidente de avião que matou o neto e a nora em 2019, passando pelos comentários em torno de supostas dívidas do decorador que correm pelos círculos de São Paulo.
Pontualmente às 10 horas, o casal me recebeu no pátio da construção clássica erguida por Jorge no início da carreira. Os dois com o cabelo escovado para trás e de robe: Caíque de azul, Jorge de branco — a sintonia vai além do jeito de se vestir ou falar. “Ele tem uma cabeça ótima, mais madura,” diz Jorge sobre Caíque, de 32 anos, com quem também trabalha.
Em dezembro, o casal vai receber convidados para mais uma edição da Festa do Branco, que virou uma das marcas de Jorge. A comemoração na fazenda, no interior de São Paulo, vai ser grande: celebra-se tanto os 50 anos de carreira de Jorge quanto os seus 70 de vida.
Na contagem regressiva para a festa, o arquiteto que fez história com projetos na cidade, na praia e no campo — entre eles, a Daslu na Vila Nova Conceição —, fala sobre sexo, dinheiro, fé e uma vida vivida sem arrependimentos.
São quantos anos de carreira?
Vou comemorar 50 em dezembro, junto com meu aniversário de 70 anos. Será a Festa do Branco na fazenda, que também será reinaugurada e funcionará como um espaço de eventos no interior de São Paulo.
E nesse tempo todo, qual a maior felicidade?
Ter meus filhos e o legado que construí, com a Daslu, com o Leopolldo, que era um ícone…
E você mesmo, com sua carreira.
Sim, mas eu não me considero um ícone, acho isso muita pretensão. Quando falo que criei o Jorge Elias, falo sobre uma pessoa que teve a possibilidade de fazer muito pelo mundo, para mim e para os meus clientes. Tudo que eu fiz e ainda faço me realiza muito. E, claro, outra felicidade é estar com o Caíque e ter a nossa fundação [entidade sem fins lucrativos para o restauro de patrimônios históricos, apoio a estudantes de arte e preservação de acervo], que já funciona e surgiu para ajudar pessoas através de network, do estudo da arte e de tudo que envolve ela, como a música e a arquitetura, com a recuperação e a preservação do patrimônio histórico.
E sobre arrependimentos, algum até aqui?
Não, nenhum.
Não mesmo?
Zero. Acho que viver sem arrependimentos é a melhor coisa que existe. Claro que eu já tive alguns, mas depois eu entendi que era besteira, também entendi que a melhor coisa que você pode ter é o perdão. E eu já me arrependi, sim. Têm coisas que você vive e que, no fim, são o preço que você paga para ter uma vida. A vida é um grande aprendizado: um dia você ganha, um dia você perde. E nesse balanço geral, eu perdi meu neto, que é uma das pessoas mais importantes que passaram na minha vida, junto com a minha nora [ambos morreram em uma queda de avião na Bahia, em 2019]. Mas eu me recuperei, achei graça na vida outra vez. Principalmente quando eu conheci o Caíque, que me fez sentir alegre e feliz de novo.
E essa história de vocês, como se conheceram?
Através de uma amiga, há uns cinco anos.
Vocês querem casar?
Não. É uma coisa meio cafona casar, né? Mas moramos juntos aqui na galeria. Ele é jovem pra caramba, e tem uma cabeça ótima.

Esse processo como foi, depois do seu casamento?
Como assim? Tipo, “oi, virei gay”? Acho babaca esse termo. Não teve nenhum estresse, minha mulher sabia, não era escondido. Inclusive, tive namoros sérios que ela e meus filhos sabiam e aceitavam. Nunca tive problema com pai ou mãe pela sexualidade. Saí de casa aos 13 e fui para o mundo sozinho. Não precisei dar satisfação para ninguém porque dentro de casa tinha uma coisa chamada princípio. Educação para mim é um princípio, e o Caíque tem isso. Tem seriedade, caráter, dignidade, palavra. Agora, claro, quando me separei teve um estresse.
Foi tudo meio que ao mesmo tempo, né?
Foi tudo meio que junto: a separação, o acidente, muitas perdas. Um dia você tem tudo, no outro não tem mais nada, e depois tem tudo de novo. É quando você vê graça na vida novamente. O Caíque abriu meus olhos.
E você teve uma estrutura, apoio de amigos?
Tive apoio de grandes amigos. E o apoio de Deus. Os amigos de verdade ficam com você. Muita gente quis minha recuperação quando eu fiquei deprimido. E recebo apoio até hoje. Mas sempre usei as perdas para encarar o mundo de uma forma melhor. Na época do acidente eu não queria falar sobre isso porque podia parecer que eu estava querendo aproveitar da minha fragilidade para as pessoas terem pena de mim. Muita gente se promove mais pela dor que pela glória.
A dor vende mais?
A dor vende mais. A glória vende menos. O vitorioso é sempre identificado como alguém que possivelmente fez uma coisa errada. É como se pensassem, “o que será que está por trás?”
Você parece ser uma pessoa feliz, que busca enxergar a beleza do mundo.
Sabia que a arte cura? A arte, a beleza. Inclusive eu estava lendo uma matéria hoje que dizia que as pessoas ligadas à arte e à cultura, envolvidas com o belo, são pessoas totalmente felizes. E é verdade, não é? A gente está sempre feliz porque a gente já olha para tudo isto aqui [mostrando sua casa], que é uma cápsula de felicidade…
E um lugar de memórias.
É um lugar importante, porque inclusive foi daqui que tudo saiu. Estou praticamente há 50 anos nesse lugar. Vivia muito mais tempo aqui do que em casa. Esse é o meu laboratório, é a minha cápsula do tempo. Tudo que aconteceu na minha vida, aconteceu aqui.
Que história é essa de você ter feito estágio em arqueologia?
Eu passei na faculdade de arquitetura em Mogi, mas não queria ficar morando em São Paulo, então me candidatei para uma bolsa em Roma. Quando você estudava arquitetura na Itália, você tinha algumas eletivas. E eu amava História da Arte, Pintura e Arqueologia. Tinha aula com gente que queria ensinar coisas minimal. Eu queria fazer palácios. Então fiquei quatro meses em Pompeia, morando em Nápoles, para esse estágio que ajudou a construir meu repertório arqueológico.
E hoje, como é o seu trabalho?
Tenho a galeria, faço projetos de arquitetura, faço casas, faço curadoria e tenho a fundação. Durante o começo da covid-19, morava mais em Nova York que aqui. Fiz um projeto de vida: sentei na cozinha, escrevi um monte de coisas que eu queria realizar. E o que você escreve, você profetiza. Fiquei morando em vários países porque não tinha casa no Brasil depois da separação. Acabei passando pela Turquia e fiz dois anos de peregrinação, de paciência, indo atrás de Deus.
E você encontrou Deus?
Encontrei.
Onde?
Eu senti um chamado que deveria ir de qualquer forma para a Turquia. E sempre tive vontade de ir para Esmirna, que era uma cidade grega e lugar de gente muito inteligente, influente politicamente e intelectualmente, o centro da Magna Grécia. Eles se revoltaram contra o Império Otomano, e houve um episódio no início do século XX em que os turcos colocaram toda a população de Esmirna dentro das muralhas e atearam fogo. Foi um holocausto que quase ninguém fala. Eu fiquei com esse pensamento: como é que alguém pode ter feito isso em uma cidade? E essa visita, que sempre quis fazer, veio de um chamado logo depois do quê? Do acidente que explodiu meu neto em chamas. Eu senti que deveria ir para lá. Queria conhecer Deus — e conheci. Isso mudou a minha vida. Ali eu entendi o que era Deus. Tudo o que fazemos hoje, eu e o Caíque, é na base da gratidão. Quanto mais você agradece, mais graças você recebe.
Então você é mais feliz hoje?
Quando eu estava casado já acordava de mau humor. Hoje estou leve, feliz. E você sabia que gay quer dizer alegre? Se você quiser me considerar essa pessoa gay no sentido alegre, eu sou. Mas não no sentido sexo. Eu gostei de ter uma relação realmente séria com alguém quando eu conheci um cara em Paris, enquanto estava casado. E tivemos um relacionamento bem especial. Tivemos até um filho juntos.
E sua mulher sabia?
Sim, minha mulher sabia e conhecia.
E como está seu filho hoje?
Morreu com 16 anos. Ele teve leucemia. Eu não estava mais com essa pessoa e quando ele, o Tancrède, teve a primeira leucemia, não achávamos um doador compatível de medula. Nosso filho acabou falecendo, mas no processo, o Luc, pai dele, criou um banco de medula. Isso virou uma fundação. A dor motivou todo mundo a querer ajudar. E aí volta nessa coisa da dor, que também pode ser canalizada para o bem. Este é o legado do Tancrède.
Você acredita em destino?
Sim, não pode ser outra coisa. Como você acha que eu conheci o Caíque? A gente tem uma afinidade que parece vir de séculos. É uma parceria, uma amizade, mais que a vida sexual. Não é aquela coisa carnal. Mas eu também já vivi isso, já estive no Grindr, por exemplo. São fases, e quem me tirou do Grindr foi o Caíque.

Você usava aquela frase: “procuro alguém para me tirar deste aplicativo”?
Não, naquela época eu queria sexo. Ali eu estava doente, e o sexo tem uma coisa curativa, mas momentânea. Te ajuda a esquecer dos problemas. Você saber usar o sexo terapeuticamente é maravilhoso. Fiz muita terapia sexual.
Uma vida aparentemente muito bem vivida até agora.
Não devo nada para ninguém.
Mas e as pessoas que falam sobre sua situação financeira complexa?
O que é essa situação financeira complexa? Não sei, acho que todo mundo tem uma, não? Eu já tive situações maravilhosas, e também grandes infelicidades. A situação financeira complexa pode ter sido a situação causada pela ingratidão e pelo pouco reconhecimento de pessoas da família e de funcionários. Primeiro, do meu escritório; segundo, do Leopolldo, que jogou em cima de mim e do meu sócio 400 ações trabalhistas. Você acha que é normal alguém ter uma situação financeira com 400 ações trabalhistas? Aí, no meu pior momento, funcionários do escritório há 30, 40 anos se juntaram e fizeram um complô contra mim. Então, eu ainda tive que aguentar muitas ações trabalhistas no meu pessoal e no meu escritório. Agora, isso tudo eu paguei. Eu sacrifiquei o meu próprio patrimônio, mas só eu sei o que era aguentar um oficial de justiça na minha casa toda hora. Um advogado porta de cadeia querendo vir aqui tirar meu sangue. Não devo nada para ninguém, e se alguém acha que eu tenho uma situação assim, que ache. Eu tenho o que comer, eu tenho onde morar e sou uma pessoa grata, de sucesso. É até melhor as pessoas desconfiarem para não vir mais gente querendo lamber o que sobrou. Enquanto os cães ladram, a caravana passa.
E suas festas, que sempre foram um acontecimento?
Todo mundo quer ir. E teremos essa no fim do ano. Elas sempre tiveram um propósito, desde as festas que eu dava no Leopolldo e reverteram apoio para instituições, como o Instituto dos Queimados e o Hospital do Câncer. Isso faz parte da minha vida, quero retribuir o que recebo. Sempre busco colocar muitas atrações para apoiar também cantores, dançarinos e orquestras.
O que faz uma boa festa?
Atrações, surpresas e gente. Diversidade de gente, de público. Além do cenário e da animação do próprio dono.
E você ainda está na moda?
Eu nunca quis estar na moda. Sabe o motivo? Porque o que está na moda cai de moda muito rápido. Não ligo para isso.













