Por um fio

Por um fio

O espetáculo #Malditos16 é direto e instigante ao levar à cena a fragilidade emocional dos adolescentes e tocar em um assunto ainda tabu no mundo: o suicídio

Um assunto urgente que não encontra espaço na mídia e tampouco em discussões privadas. Sob a direção de Ricardo Waddington, o espetáculo #Malditos16 aborda a saúde mental e o alto índice de suicídios entre os adolescentes sob a perspectiva de quem mais sofre com o problema: os jovens. A peça, escrita pelo espanhol Nando López e inédita no Brasil, está em cartaz às quartas e quintas-feiras, até 4 de junho no Teatro Faap, em São Paulo.   

Com uma linguagem direta e instigante, a montagem traz à tona o tabu por meio de quatro personagens que tentaram tirar as próprias vidas por volta dos 16 anos. Cinco anos depois, eles são convocados pela psiquiatra que os tratou para colaborar em um programa de apoio a garotos e garotas que atravessam dramas semelhantes. 

Não é nada fácil para eles expressarem as angústias que os levaram a quase consumar o ato extremo. Pode ser igualmente difícil para o público encarar a história, mas refletir sobre o trauma se torna inadiável e ultrapassa a ficção. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 700 mil pessoas acabam com a própria vida anualmente, muitas delas entre 15 e 29 anos.

A psiquiatra Violeta, papel de Helena Ranaldi, acompanhou as crises de Roberto, Nádia, Dylan e Alê, interpretados respectivamente por Pedro Waddington, Sara Vidal, Benjamín e Julia Maez. No reencontro, a médica conta com a assistência do pragmático Sérgio, personagem de Matheus Sousa, que, por não ter acompanhado o caso, vasculha memórias sobre família, relações afetivas e pertencimento para entendê-los. 

Roberto ficou invisibilizado pelos pais depois da morte do irmão, Nádia começou a trabalhar cedo como modelo e sofreu recorrentes abusos, Dylan é um menino trans rejeitado pela família. Por fim, Alê é alvo de gordofobia e sonha que o ideal seria voltar aos tempos de criança. Em monólogos e diálogos pungentes e carregados de emoção, os personagens expõem conflitos em uma interação imediata com o público e mostra o quanto questões minimizadas por adultos são capazes de gerar consequências trágicas. 

“Será que você sabe mesmo lidar com adolescentes?,” pergunta Violeta ao assistente diante da resistência dos garotos. Em outra fala, Roberto esclarece a dúvida que parece seguida à risca pela dramaturgia e a direção: “Se não tratar a gente como babaca já é suficiente.”

É desta forma, acreditando na sensibilidade do jovem sem dourar a pílula, que o texto de López é levado à cena por Waddington. A peça nasceu de oficinas conduzidas pelo autor em hospitais psiquiátricos e, com base nestes contatos, ele desenhou o perfil dos quatros personagens. 

López não fica restrito ao discurso panfletário. Ao construir uma história ficcional, o dramaturgo joga na cara uma dura realidade e ganha a identificação de espectadores de qualquer idade. Se muitas montagens brasileiras hoje recorrem ao caráter confessional de um ator ou atriz em busca da reação, aqui existe um distanciamento eficaz para a reverberação da mensagem.

Waddington é um dos mais experientes diretores de televisão no Brasil. Trabalhou quatro décadas na Rede Globo em cargos criativos e executivos e assinou novelas e minisséries de grande sucesso, como Laços de Família, Presença de Anita e Avenida Brasil. Esta última, aliás, ganhará uma sequência com estreia prevista para janeiro de 2027, assinalando o seu retorno à emissora depois de três anos. 

Com raras incursões teatrais, ele não comandava uma peça desde Descalços no Parque, em 1990. A versão da comédia romântica de Neil Simon (1927-2018) teve Lídia Brondi e Thales Pan Chacon (1956-1997) no elenco.  

Durante a primeira década de 2000, Waddington esteve à frente de Malhação, a novela adolescente que desenvolveu uma linguagem assertiva aprovada por garotos e garotas. “Aprendi a falar com um público gigantesco e sei do cuidado necessário para abordar a saúde mental,” diz ele. “Em Malhação, nenhum assunto era proibido e falamos com milhares de jovens sobre bullying, homossexualidade, HIV e interrupção de gravidez.”

É mais o diretor de Malhação que o das outras produções da Globo que se vê em #Malditos16. Waddington conduz com firmeza e extrai resultados surpreendentes dos quatro intérpretes que contam com pouca ou nenhuma experiência de palco. A afinação pode ser detectada também nas performances de Helena Ranaldi e Matheus Sousa, ambos com mais vivência. Mesmo que cada um tenha o seu momento de destaque, #Malditos16 é apoiado em um conjunto em que o importante é a amplificação do recado.

O afastamento do público jovem dos teatros é uma queixa recorrente de artistas e produtores. A classe artística, porém, precisa fazer um mea culpa. Até que ponto os espetáculos buscam dialogar com o segmento e tratam de temas capazes de encontrar reflexo nesta faixa etária? Em #Malditos16, a preocupação é muito clara. 

Waddington, de 65 anos, cita como exemplo o impacto de ter visto Trate-me Leão, montagem dirigida por Hamilton Vaz Pereira com o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone, no final da década de 1970. “Eu e meus amigos nos enxergamos no palco e, para mim, a coisa foi tão forte que, depois de ver a peça, saí da casa dos meus pais,” conta.   

Mesmo que o assunto também seja pertinente para os pais, #Malditos16 leva ao palco conflitos da vida dos adolescentes que podem ser tratados com uma intensidade  permitida apenas pelo teatro. “Acho que só teria chance de fazer algo tão aprofundado em um livro,” compara o diretor. 

É difícil desenvolver assuntos densos recortados por intervalos comerciais ou ter na sequência um programa digestivo que contraste com a crueza do tema anterior, como é comum na televisão. No teatro, vale. Se o jovem enxergar suas crises espelhadas em uma peça como #Malditos16, talvez se perceba menos sozinho e se sinta estimulado a buscar um diálogo que rompa com a solidão do quarto e da tela do computador.

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