A 28ª edição do Festival do Rio reuniu mais de 300 filmes em um momento estratégico: com Berlim, Cannes e Veneza já encerrados, é o primeiro evento a apresentar ao público brasileiro as apostas para o Oscar 2027.
Na abertura, o destaque foi A Bola Preta, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como Los Javis, premiado em Cannes por melhor direção e a escolha da Espanha para concorrer ao Oscar de melhor filme internacional.
O filme acompanha três homens em épocas distintas — 1932, 1937 e 2017 —, com histórias que se conectam. Explorando o que significa ser homossexual ao longo das gerações, mostra o desejo, a dor e a herança de quem há muito tempo luta pelo mesmo motivo.
Com participações de Penélope Cruz e Glenn Close, A Bola Preta é um dos mais premiados do ano. Venceu o Prêmio do Público no Festival de Toronto e no Festival de San Sebastián e ainda tem chances de concorrer ao Oscar de melhor filme.

“O que eu gostaria que acontecesse com A Bola Preta é que alguém saísse do filme pensando: ‘Preciso viver, fazer uma mudança na minha vida’,” disse Ambrossi após vencer em San Sebastián.
O longa espanhol não é o único concorrente ao Oscar na programação. Cartas Amarelas, do alemão Ilker Catak, vencedor do Urso de Ouro em Berlim, também integra a seleção.
O austríaco Rose, de Markus Schleinzer, que deu a Sandra Hüller o Urso de Prata de Melhor Atuação em Papel Principal, em Berlim, também brilhou durante o Festival, assim como o belga Covarde e o chileno O Degelo.
Nessa corrida pelo Oscar, alguns dos candidatos mais fortes ao prêmio passaram pelo Rio. É o caso de Ink, de Danny Boyle, filme de abertura do último Festival de Veneza. A trama gira em torno de Rupert Murdoch, que em 1969 comprou o decadente jornal The Sun e o entregou ao editor Larry Lamb, que mudaria para sempre os rumos do jornalismo sensacionalista.
“Fazer um filme como este, com pouco dinheiro, não foi fácil por muitas razões. Mas é importante ressaltar que, antes de tudo, devemos lembrar que o jornalismo é uma das maiores forças da nossa civilização,” comentou o diretor durante coletiva de imprensa em Veneza.

Todas as sessões de Ink no Festival do Rio se esgotaram rapidamente, assim como as sessões de outros dois favoritos ao Oscar: Cavalo Selvagem Nove, de Martin McDonagh, que deu a John Malkovich a Coppa Volpi de Melhor Ator em Veneza — e o colocou entre os favoritos ao Oscar — e A Grande Estreia, de Jesse Eisenberg, que pode dar a protagonista Julianne Moore sua segunda estatueta.
Duas vezes vencedor do Oscar de melhor filme internacional com A Separação (2011) e O Apartamento (2016), o cineasta iraniano Asghar Farhadi esteve pela primeira vez no Brasil para apresentar Contos Paralelos, seu mais recente filme, que estreou mundialmente durante o Festival de Cannes.
A passagem de Farhadi pelo Festival do Rio incluiu conhecer alguns dos locais mais emblemáticos da cidade, como o clássico cinema de rua carioca Cine Odeon, na Cinelândia. O cineasta ainda atravessou a ponte Rio-Niterói até a cidade vizinha para apresentar seu novo filme em sessão especial.

O Festival do Rio também consegue dar um panorama de como os artistas brasileiros são vistos fora do país. Cada vez mais nossos diretores, atores e atrizes participam de coproduções internacionais. É o caso do cineasta Karim Aïnouz (A Vida Invisível), que esteve no festival com Rosebush Pruning, seu segundo longa em inglês.
Karim tem uma longa relação com o festival: é o diretor mais premiado com o Troféu Redentor na Première Brasil, a competição de filmes nacionais. A relação é recíproca: 12 filmes dirigidos e/ou roteirizados por ele já estiveram na programação do evento. Sobre seu novo longa, uma sátira da elite, ele disse:
“Quando o privilégio se torna um sistema fechado, ele protege, entorpece e fere ao mesmo tempo. Torna-se um espaço onde a moralidade lentamente se curva, onde o trauma circula sem ser nomeado e a própria realidade perde sua nitidez.”
Dois anos depois de ser premiada no Festival do Rio por Malu, de Pedro Freire, a atriz Carol Duarte retornou ao festival com dois trabalhos: O Segredo de Eva, dirigido por Emanuela Rossi — seu segundo filme italiano e primeiro como protagonista em produção estrangeira —, e Pique-pega, curta de Mia Lima Rocha selecionado para a Première Brasil: Panorama Carioca.

Em um momento em que os artistas brasileiros estão trilhando caminhos internacionais — e o País tem realizado diversas coproduções — Carol chama a atenção para o quanto é desafiador atuar em outro idioma.
“Atuar em outra língua é um desafio, porque exige atenção especial às palavras: dentro de mim, eu nomeio os sentimentos de outro modo. Precisei criar um vínculo afetivo com a língua, com a cultura, com a comida, com as canções. É uma imersão profunda em um mundo estrangeiro,” disse.
Uma cineasta americana de ascendência brasileira, que foi a grande vencedora do Festival de Sundance este ano, também esteve no Festival do Rio: Beth de Araújo. Filha de pai goiano, ela tem cidadania brasileira e apresentou Josephine - Fragmentos de um Crime.

O longa conta a história de uma menina de 8 anos que testemunha um crime e procura formas de se sentir segura, enquanto os adultos ao seu redor são incapazes de consolá-la.
Essa foi a primeira vez que Beth exibiu um filme seu em solo brasileiro — e já chegou avisando que sonha em filmar no País. E o público retribuiu à altura: o longa, que é uma das apostas para o próximo Oscar, teve sessões esgotadas.
A exportação dos nossos talentos vem junto com a ascensão do cinema nacional. Um dos grandes atrativos do Festival do Rio é a Première Brasil, competição de longas e curtas nacionais que, acima de tudo, coloca o nosso cinema nos holofotes.
Este ano, foram 110 filmes brasileiros selecionados, sendo 45 disputando o Troféu Redentor e 15 em première mundial. Há espaço para todos os gêneros, mas dois filmes se destacaram: o representante brasileiro a uma vaga no Oscar (e premiado em Berlim), Feito Pipa, de Allan Deberton, e London, produção nacional que, no último Festival de Veneza, ganhou o Prêmio Leão Queer na categoria Melhor Filme com temas LGBT e Cultura Queer.

Exibidos pela primeira vez no Brasil, ambos tiveram suas sessões esgotadas antes mesmo do Festival do Rio começar, o que mostra a expectativa alta em relação a essas duas produções que já são vitoriosas internacionalmente.
London é protagonizado pelo diretor e roteirista Victor Di Marco, que co-escreveu e dirigiu ao lado de Márcio Piccoli. A dupla gaúcha, que dirigiu três curtas, faz sua estreia na direção de um longa-metragem. E se a primeira vez a gente não esquece, que o diga os diretores, estreantes também no Festival do Rio — eles nunca participaram do evento nem como espectadores.
Na trama, London (Di Marco) é um jovem com deficiência que ganha a vida fazendo performances eróticas em uma casa de fetiches e tem a chance de descobrir a origem e o destino de sua deficiência em um exame médico.
“É minha primeira vez no Festival do Rio! Sinto que o filme consegue trabalhar com diferentes visões de público e de mundo. Então, é curioso ver a reação do público brasileiro,” disse Victor Di Marco ao Page9.
Márcio Piccoli complementou: “A relação entre exibir o filme fora do País e para o nosso público acaba sendo diferente, porque o filme que a gente fez é um filme brasileiro. Ele tem códigos e opções na linguagem que vão funcionar muito mais com o público brasileiro.”
O Festival do Rio também é conhecido por apostar em jovens cineastas e lançar nomes no mercado cinematográfico. É o caso da jornalista Maria Prata, que lançou no Festival seu documentário Por que Não?

A partir da relação dela com sua avó Laura Góes, Maria investiga o porquê de tanta gente preferir não lidar com questões ligadas à crise climática, mesmo com toda a informação existente e diante de tragédias globais recorrentes.
O filme intercala passeios das duas pelo jardim centenário que a matriarca da família plantou na serra Fluminense, com depoimentos de personalidades que, de alguma forma, têm entrado nessa conversa.
Já o filme Maria Vitória trouxe o cineasta português Mário Patrocínio de volta ao Rio, cidade que ele chama de casa. “Foi aqui que apresentei meu primeiro filme,” conta. O filme traz um tema que estará bastante em evidência no Brasil em 2027, o futebol feminino, e acompanha uma jovem goleira de futebol em uma pequena cidade nas montanhas portuguesas.
Patrocínio viveu no Brasil entre 2004 e 2009, e realizou Complexo: Universo Paralelo, documentário sobre o Complexo do Alemão que se tornou o maior sucesso de bilheteria do gênero em Portugal em 2011.
Há espaço também para homenagens: Fernanda Montenegro é tema do documentário Fernanda, de Pedro Waddington — filho de Andrucha Waddington e enteado de Fernanda Torres. O filme percorre diferentes momentos da vida e da carreira da atriz, que completa 97 anos na semana que vem.

Embora aguardada no tapete vermelho do Cine Odeon na última quinta (8), onde aconteceu a primeira exibição do documentário, Fernanda Montenegro não compareceu por motivos de saúde. Fernanda também será exibido na 50ª Mostra de São Paulo e deve chegar ao Universal+ ainda em 2026.
O Festival do Rio segue cumprindo sua missão de lançar filmes, enaltecer o cinema nacional e antecipar quem vem aí para o Oscar.
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