Há encontros entre arte e moda que parecem inevitáveis. O de Édouard Vuillard (1868-1940) com a Chanel é um deles.
Na coleção verão 2027, Matthieu Blazy escolheu olhar diretamente para Vuillard. A referência não é casual nem apenas atmosférica. Blazy se debruça sobre o universo do pintor e leva suas imagens para a roupa — em alguns looks, transpondo diretamente para o tecido motivos presentes em suas pinturas.

A escolha ganha uma dimensão ainda mais curiosa porque Vuillard e Chanel já haviam se encontrado muito antes, pelas mãos do próprio artista. Em 1921, Vuillard pintou Le Salon de Coco Chanel, registrando o interior do universo da estilista.
Assim, há algo quase circular nessa história: Vuillard pintou Coco Chanel (1883-1971) em seu próprio tempo; mais de um século depois, Blazy olha para Vuillard para recriar a linguagem da Chanel.

Vuillard foi um dos integrantes de Les Nabis, movimento que, no final do século XIX, procurou libertar a pintura da obrigação de reproduzir fielmente a realidade. Em suas telas, a perspectiva cede lugar à superfície; as figuras se confundem com os interiores; vestidos, tapeçarias e papéis de parede parecem participar de uma mesma coreografia de cores e padrões.
Mais do que representar um ambiente, Vuillard parecia querer dissolver seus personagens dentro dele. A casa não funciona simplesmente como cenário. Ela se torna parte da imagem, quase uma extensão das pessoas que a habitam. Uma manga, uma saia, uma cortina ou um papel de parede podem adquirir a mesma importância visual de um rosto.
O resultado é uma pintura em que o olhar precisa circular constantemente. Já não sabemos exatamente onde termina o corpo e começa o tecido, onde termina a roupa e começa o ambiente.
Há um detalhe biográfico particularmente revelador. Vuillard viveu grande parte da vida com a mãe, Marie, costureira que mantinha seu próprio ateliê. Os tecidos não eram, portanto, apenas elementos decorativos de sua pintura. Faziam parte de seu cotidiano e de sua maneira de observar o mundo.
Talvez por isso suas mulheres raramente pareçam simplesmente vestidas. Elas habitam os tecidos, confundem-se com as estampas, quase desaparecem na intimidade dos interiores.
Em A Mulher com Vestido Listrado, de 1895, o vestido participa da composição de maneira quase tão importante quanto a própria figura. As listras, as flores e os demais elementos do ambiente criam uma superfície contínua, na qual o corpo parece integrado ao espaço. Em Vuillard, o rosto se apaga, mas a presença permanece. O tecido deixa de ser ornamento para se tornar linguagem.

É precisamente essa relação entre corpo, matéria e superfície que torna tão interessante a escolha de Matthieu Blazy. Ele não apenas cita Vuillard; ele o transforma em roupa. Em alguns looks da coleção, motivos de suas pinturas aparecem novamente sobre o corpo. O que antes estava preso à superfície da tela ganha movimento. Uma estampa dobra-se com a roupa, muda de escala com o corpo, acompanha seus gestos e passa a existir em três dimensões.
É quase uma inversão de papéis. Vuillard transformava em pintura aquilo que fazia parte do universo da costura. Blazy faz o caminho contrário e devolve essas imagens à roupa. Entre as referências está O Vestido Estampado, de 1891. A pintura é especialmente reveladora porque reúne vários dos elementos que tornam Vuillard tão singular: o corpo, o tecido e o espaço parecem pertencer a uma mesma superfície.

E há aqui uma conexão particularmente bonita com o Brasil. O Vestido Estampado faz parte da coleção do Masp, em São Paulo, que conserva três obras de Vuillard. Uma das pinturas que Blazy escolheu trazer de volta à roupa está, portanto, hoje no Brasil.
Essa coincidência ganha ainda mais força quando lembramos que a própria pintura está ligada ao universo da costura. Vuillard observava os tecidos a partir da intimidade de seu próprio cotidiano; Blazy os reencontra mais de um século depois, dentro da Chanel.
A história parece fechar um círculo.
Vuillard conheceu e pintou Chanel. Chanel construiu uma linguagem em torno da roupa. Vuillard transformou o universo da costura em pintura. E Blazy, olhando para essa pintura, transforma novamente suas imagens em tecido.

Talvez seja isso que torna essa referência tão interessante. Blazy não está simplesmente olhando para o passado em busca de uma imagem bonita. Está recuperando uma maneira de pensar a relação entre corpo, roupa e espaço que permanece surpreendentemente contemporânea.
Porque uma estampa pode fazer muito mais do que decorar. Pode criar atmosfera, alterar a percepção do corpo, esconder e revelar ao mesmo tempo. Pode até fazer o corpo desaparecer — para que a imagem permaneça.
Mais de um século depois, Vuillard continua a nos ensinar que olhar também é uma forma de vestir. E que, às vezes, a modernidade consiste simplesmente em saber olhar para o que sempre esteve diante de nós.
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