Entre o Lago de Como e o Rio, um diálogo entre continentes

Entre o Lago de Como e o Rio, um diálogo entre continentes

Dois eventos de design revelam o elo entre duas cidades que atravessaram o modernismo à sua maneira

Rio de Janeiro e Como. Duas cidades à beira d’água, famosas por sua natureza esplêndida, mas também duas capitais do modernismo, brasileiro e italiano. Guardam preciosidades da arquitetura do século XX e, em setembro, dois eventos de design colocam esse patrimônio em foco.

A cidade de Como é lembrada por suas villas, montanhas e passeios de barco, mas é também a capital italiana do Racionalismo, com obras-primas de Giuseppe Terragni como a Casa del Fascio, o Novocomum e o Asilo Sant’Elia. 

Em 1926, Terragni integrou a fundação do Gruppo 7, jovens arquitetos do Politecnico di Milano que buscavam formas puras, materiais novos e rejeição ao ornamento. Depois da guerra, Ico Parisi, nascido em Palermo em 1916 e instalado em Como desde 1935, ao lado da mulher, Luisa Aiani, colocou a cidade no centro do debate do movimento moderno, com o Studio La Ruota e inúmeras páginas na Domus.

É nesse contexto que o Lake Como Design Festival, em sua oitava edição, propôs o tema Confine, fronteira. Não a que apenas separa, mas a que aproxima e transforma. Durante nove dias, exposições se espalharam por Como e Lecco, com a Villa del Grumello e a Villa Saporiti como centros. De mapa vermelho nas mãos, fui atrás do Novocomum, do Asilo Sant’Elia, do Estádio Sinigaglia e do arquivo de Ico Parisi. A cidade inteira virou exposição.

Na Villa del Grumello, a ETEL apresentou Lina Bo Bardi, HOME | LAND, The ethic of the heart, desenvolvida com o Instituto Bardi. Lina nasceu na Itália, deixou Roma em 1946 e escolheu o Brasil como pátria. Da Casa de Vidro ao SESC Pompéia, a mostra acompanha uma troca de trinta anos com a terra e as pessoas que ela escolheu, por meio de sete peças reeditadas sob licença exclusiva do Instituto Bardi, de móveis da Marcenaria Baraúna e de fotografias históricas. Poucas trajetórias dialogam tanto com a ideia de fronteira. Para Lina, atravessá-la foi ampliar a própria identidade.

De Como, volto ao Rio, por onde Lina chegou em 1946, avistando do navio o Palácio Gustavo Capanema. Projetado por Lucio Costa e equipe, com Oscar Niemeyer e consultoria de Le Corbusier, o antigo Ministério da Educação e Saúde reuniu arquitetura, pintura e paisagismo num mesmo pensamento, a síntese das artes. Não surgiu isolado. 

No fim dos anos 1920, o urbanista francês Alfred Agache já havia proposto ao Rio um plano de remodelação, e ao redor do Capanema vieram a sede da ABI, dos irmãos Marcelo e Milton Roberto, e, mais tarde, o Edifício Aliança da Bahia.

É ali que, pela primeira vez em seus 35 anos, a CASACOR Rio ocupa o Centro. O Aliança da Bahia, erguido entre 1957 e 1961 e recém-restaurado, vê o Capanema pelas grandes janelas. Sob o tema Mente e Coração, seus andares viram um condomínio contemporâneo de diferentes formas de morar.

Nesse edifício, a ETEL e o Arquivo Contemporâneo, seu parceiro comercial exclusivo no Rio desde 2010, apresentam Fragmentos do Avesso, que coloca lado a lado Paulo Werneck e Percival Lafer. Foi o método do Capanema, transformar técnica manual em identidade nacional, que Werneck levou a Pampulha, a convite de Niemeyer, e ao Itamaraty, com sua técnica própria de mosaico. 

Lafer, arquiteto de formação e autor do icônico automóvel MP Lafer, respondeu ao mesmo chamado pela industrialização e pela otimização de recursos. Aos 90 anos, segue criando ao lado da ETEL. Dois ângulos do mesmo país, entre a criação manual e a produção seriada. 

O mais interessante acontece quando ela ultrapassa as paredes. Um mapa das obras de Werneck leva o visitante até a antiga sede do IRB, com seus painéis e o jardim de Burle Marx, ao Edifício Sede do Banco Boa Vista projetado por Niemeyer, e ao icônico Maracanã, com dois painéis monumentais. 

Foi assim que percebi o elo entre as duas cidades. Em Como, um mapa vermelho me fez olhar de novo para uma cidade que eu conhecia. No Rio, outro mapa conduz a um patrimônio moderno que atravessamos sem perceber.

Cada cidade leu o modernismo à sua maneira. Como o interpretou pelo rigor: a geometria, a razão, a forma reduzida ao essencial. O Rio o traduziu pela síntese: arquitetura, arte e paisagem num mesmo desenho, com a mão do artesão e a luz do país. Lina, formada na Itália e brasileira por escolha, atravessou o oceano entre uma leitura e outra.

Edifícios modernos não vivem apenas de tombamento. Vivem quando são ocupados. Villas abertas ao público, igrejas transformadas em espaços expositivos, um prédio restaurado que volta a receber gente no Centro: é assim que uma cidade reaprende a habitar a própria história.

Eventos são temporários. As cidades permanecem. E só preservamos aquilo que conhecemos, reconhecemos e habitamos.

Recomendações de leitura

Dezoito Graus: Rio moderno, uma história do Palácio Gustavo Capanema, de Lauro Cavalcanti. A história do edifício que reuniu Lucio Costa, Niemeyer e Le Corbusier.

Lina por escrito, organizado por Silvana Rubino e Marina Grinover. Textos de Lina entre 1943 e 1991, na voz de quem escolheu o Brasil como pátria.

Paulo Werneck Muralista Brasileiro, de Claudia Saldanha, que conta toda a história e trajetória de Paulo Werneck.

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