Quando ficar pronto, em 2027, um apartamento em Fortaleza vai ter, entre a sala de estar e a cozinha, um carro estacionado dentro de um cubo de vidro à prova de fogo, iluminado como se fosse uma obra de arte.
A subida até o apartamento acontece através de um elevador especial equipado com travas de segurança, chamado Skydrive. O automóvel sobe de frente ou de ré, conforme entra no térreo, para evitar qualquer manobra lá em cima.

“A gente tratou o automóvel de luxo como se fosse uma escultura, um elemento de decoração dentro do apartamento,” diz o arquiteto Daniel Arruda, responsável pelo Edge, empreendimento de 49 andares da Diagonal Engenharia.O projeto simboliza uma tendência mais ampla: empreendimentos que tratam o automóvel como parte da arquitetura, seja pela funcionalidade, seja pelo design.
Para o presidente da Diagonal, João Fiúza, a proposta também se tornou um argumento comercial e um divisor de águas na capital cearense. “No mercado de superluxo, você não vende apenas metros quadrados, vende exclusividade, tempo e status,” disse. A aposta, segundo o executivo, é transformar a garagem em parte da experiência do morador, e não apenas em um espaço funcional.

Essa lógica, segundo Martin Gutierrez, Co-CEO da MCF Consultoria, especializada no mercado de luxo, acompanha a maneira como o consumidor passou a medir status. Durante décadas, disse ele, o luxo foi medido pela posse; hoje, é medido pela capacidade de traduzir identidade. Nesse contexto, o carro deixou de ser apenas um bem de alto valor para virar uma extensão da personalidade de quem o possui.
É o mesmo movimento que levou marcas como Porsche, Bentley e Aston Martin a assinarem prédios inteiros. “As marcas de luxo desejam fazer parte do lifestyle completo do cliente. Não basta mais estar presente apenas quando ele dirige,” disse Gutierrez.
Arruda acompanhou essa transição ao longo da carreira. Ele lembra que, décadas atrás, as garagens eram apenas espaços estritamente funcionais, com piso cimentado, pilares com faixas de sinalização e iluminação convencional.
“Hoje, os pavimentos ganharam porcelanatos, pinturas epóxi, revestimentos de alumínio e madeira, forros desenhados e fitas de LED demarcando vagas e áreas de circulação,” disse o arquiteto. “A garagem passou a funcionar como uma extensão da própria unidade residencial.”
Em Curitiba, o arquiteto Jayme Bernardo viu uma evolução parecida no Queen Victoria Residence, empreendimento que assinou e que foi entregue em 2021 com cinco vagas por apartamento. “A evolução da própria tecnologia automotiva fez com que os veículos passassem a ser vistos também como objetos de design,” disse. “A arquitetura apenas respondeu a essa mudança de comportamento, criando espaços onde estética e estilo de vida coexistem de forma natural.”

“Uma garagem de alto padrão precisa ser pensada a partir dos veículos que vão circular ali. Um esportivo rebaixado tem necessidades completamente diferentes das de uma caminhonete ou de um SUV,” disse Ricardo Sigel, arquiteto e diretor da GaragePlan.
Para Luiz Feitosa, sócio da construtora Edify, a mudança acompanha o perfil de quem compra esse tipo de imóvel. “São proprietários de carros que exigem cuidado, tecnologia e infraestrutura, e, no alto luxo, a experiência começa antes mesmo de ele chegar ao apartamento.”
O Charles II Yacht Royal Home by OKEAN, primeiro branded residence náutico da América Latina, com entrega prevista para 2033, em Itapema, prevê, no hall de entrada, um espaço pensado como galeria para carros de coleção, inspirado em um iate premiado internacionalmente, com atracadouro e heliponto próprios.

“Pensar um espaço dentro do edifício onde o veículo possa ser exposto muda a relação do morador com o próprio acervo. Ele sai do ambiente convencional da garagem e ocupa um lugar de destaque na arquitetura do prédio,” disse Paula Gessele, vice-presidente da Gessele Empreendimentos, incorporadora do projeto.
Segundo Renato Monteiro, especialista em investimentos imobiliários de alto padrão, esse tipo de projeto acompanha o perfil de consumidores que também possuem embarcações, automóveis e helicópteros e, em alguns casos, preferem chegar à residência pelo mar ou pelo ar.
“E é um público crescente, formado principalmente por empresários, investidores e famílias ligadas ao agronegócio e à tecnologia. Esse comprador valoriza principalmente exclusividade, privacidade e valor agregado ao produto. Nos empreendimentos assinados, busca associação com o prestígio e o estilo de vida da marca,” disse.
O conceito de tratar o carro como parte de um projeto arquitetônico não nasceu no Brasil. A ideia surgiu em Singapura, em 2012, quando o Hamilton Scotts se tornou o primeiro residencial do mundo a instalar elevadores que erguem o veículo até uma garagem de vidro ao lado da própria unidade, batizada de “en-suite sky garage”.
Quatro anos depois, a fórmula ganhou projeção internacional com a Porsche Design Tower, em Miami, cujo elevador, chamado Dezervator, leva morador e carro do térreo direto para a garagem junto ao apartamento. Vieram depois outros projetos assinados por marcas como Bentley, Aston Martin e Pagani — todos em Miami —, consolidando uma tendência que começa a chegar ao mercado brasileiro.














