Por que hoje é tão difícil ter um encontro de verdade?

Por que hoje é tão difícil ter um encontro de verdade?

Em um mundo tomado por aplicativos, vale lembrar: o encontro genuíno mora na surpresa e no imprevisto

“Estou há dois anos nos aplicativos de relacionamento. Já tive vários encontros, com todos os tipos de pessoas. Aprendi a identificar os sinais, sei o que quero, tenho meu checklist. Mesmo assim, nada acontece. Por que hoje é tão difícil ter um encontro de verdade?”

Quando foi a última vez que você viu um casal se olhando como se o outro fosse um grande mistério? Não estou falando daquela paixão cinematográfica. Mas de algo mais simples: aquele momento em que duas pessoas esquecem o resto do mundo, ainda surpresas uma com a outra.

O enamoramento é um jogo de risco. Ele pede que a gente suporte não saber, não controlar. Basta olhar para os aplicativos de relacionamento: eles prometem eficiência onde antes havia surpresa, compatibilidade onde antes havia tensão, escolha infinita onde antes havia o acaso de um encontro que não estava previsto.

Será que ninguém mais quer o risco de ser transformado pelo outro? Parece que, em vez disso, buscamos no outro apenas uma confirmação. Ele deixou de ser um enigma a ser decifrado para se tornar um espelho. Mas o encontro genuíno mora na surpresa, no imprevisto. Onde não há risco de se perder, o encontro também não sobrevive.

Se por um lado as disputas de gênero apontam para questões legítimas e necessárias, elas trouxeram consigo uma desconfiança. O espaço entre dois amantes ficou tão monitorado, tão carregado de possíveis mal-entendidos, que a espontaneidade acabou comprometida. A aproximação virou campo minado. O flerte, um risco que muitos preferem não correr. E a sedução, que sempre viveu na ambiguidade, não sabe mais onde pisar.

O risco que corremos é o de encontros previsíveis e seguros demais, e por isso estéreis. A gente criou checklists para evitar o sofrimento, esquecendo que se relacionar nunca foi um refúgio de paz, mas um exercício de desamparo compartilhado.

Amar exige outra espécie de trabalho: curiosidade pelo outro, disponibilidade, atenção e paciência para atravessar os momentos em que o encanto inicial esmorece. Um encontro não depende apenas de encontrar a pessoa certa. Depende também de encontrar, em nós mesmos, a disposição para construir algo que nenhuma compatibilidade prévia pode garantir.

O que chamamos hoje de “relacionamento saudável” é, muitas vezes, apenas um pacto performático que nos protege do imprevisto, mas nos condena à esterilidade.

No fundo, temos medo do encontro porque ele nos obriga a abandonar esse controle. Mas será que o mundo hoje ainda nos permite a alegria de nos perder junto ao outro?

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