Diário de uma man-eater: cap. 3

Diário de uma man-eater: cap. 3

Os relatos íntimos de uma recém-divorciada de 45 anos

One more cup of coffee for the road 

As saídas ficaram cada vez mais frequentes. Em pouco tempo, já conhecia todas as novidades da cidade. Bares, restaurantes da moda, exposições. Alguns nem tão novos, que havia salvado do Instagram de desconhecidos, mas nunca tinha ânimo ou companhia para conhecer. Ou achava que não tinha. Tinha?

Onde afinal eu havia me enfiado estes anos todos? Que raios de lugar é esse onde resolvi me esconder por tanto tempo?

Algumas coisas foram legais.

Os primeiros anos das crianças, as férias em família, as resenhas depois dos almoços intermináveis na casa dos meus pais. As vezes em que deixávamos Pedro e Joana com a minha mãe e você me levava para um lugar-surpresa no fim de semana. Ou que eu prometia cozinhar, mas a gente se empolgava com o vinho e terminávamos as noites às gargalhadas pedindo pizza pelo telefone. Eu lia poesia em voz alta e você dizia que me achava mais bonita falando palavrão.

Estes dias me peguei tentando lembrar em que momento exatamente paramos de transar escondido nas confraternizações do clube, trocar fotos de (quase) nudes no meio do trabalho, ter crises de riso por coisas bestas que só a gente achava graça. Em que momento trocamos beijos demorados por selinhos distraídos e paramos de flertar nas festas fingindo que não nos conhecíamos?

Ainda tenho medo de como vou reagir quando souber que você está saindo com outra pessoa. Será que ela vai pedir para botar Ramones na sala, girar o corpo até cair e fingir que está tonta e não consegue ir até o quarto andando? Será que vai cortar seu cabelo torto, implicar com seu melhor amigo e acabar com o doce de leite que você trouxe de Mendoza?

Tenho pensado em conhecer outras pessoas. Outros assuntos. Outros corpos, talvez.

Semana passada, baixei um aplicativo de namoro que as meninas adoram. Não contei para ninguém. Prefiro manter a linha "quero que as coisas aconteçam naturalmente”, “isso não faz meu estilo”. Mas baixei.

Primeiro, escolhi homens solteiros ou divorciados entre 45 e 60 anos. A ideia de ter alguém mais jovem, febre entre as amigas separadas, me assusta um pouco. Também não mudei tanto assim.

Até que apareceu um amigo do meu pai e entrei em pânico. Diminui a idade mínima.

Vai ver um homem um pouco mais novo consiga me lembrar da mulher que eu era antes de você.

Advertisement
Advertisement