Vendia ingresso, trabalhava de lanterninha, pintava parede e garimpava nos consulados as cópias em 35 milímetros que alimentavam a programação do Estação Botafogo.
Quatro décadas depois, Ilda Santiago continua atrás de boas histórias. Circula por Cannes, Veneza, Berlim, Toronto e Sundance com a mesma desenvoltura de quem toma um café no Estação, o endereço que ajudou a transformar em patrimônio carioca.
Diretora executiva e de programação do Festival do Rio, passa o ano assistindo a filmes, disputando títulos e abrindo caminhos para o cinema brasileiro no circuito internacional. O combustível para tanta estrada? "Paixão e muita energia," diz.
O cinema não era o plano original. “Comecei minha vida achando que ia ser cantora,” diz. Carioca da Zona Sul, foi estudar jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF), conhecida por seu curso de cinema, e mudou-se para Niterói, onde dividia apartamento com outras sete meninas.
“Já via muitos filmes, mas ali era uma avalanche,” diz. “E me apaixonei pelo processo de descobrir obras e ajudá-las a chegar a quem pudesse se interessar por elas.”
Até hoje, quando alguém diz que determinado título não tem público, rebate: “Pode ser maior ou menor, mas todos têm". Para ela, não existe filme ruim. “Isso é só uma percepção. O que é ruim para uns pode ser bom para outros.”
Ainda na universidade, fundou com Marcelo Mendes o Cineclube PEBA. Depois passou a frequentar as sessões do Cineclube Macunaíma, onde se aproximou de Adhemar Oliveira e Nelson Krumholz.
Ao lado deles, de Marcelo e Adriana Rattes, formaria o núcleo original do Estação. “Ilda já era muito cinéfila, tinha estudado Comunicação e sempre teve esse olhar,” diz Adriana, atualmente diretora executiva do Grupo Estação. “Foi ela quem tocou a [distribuidora] Filmes do Estação e assumiu a escolha dos títulos internacionais. Sempre disposta a viajar, se conectar com as pessoas e ir na frente.”
O momento ajudou. Uma nova safra de cineastas, como Pedro Almodóvar, Spike Lee e Jim Jarmusch, começava a aparecer, o Circo Voador movimentava a cena cultural carioca, praias e bares reuniam uma juventude ávida por música, teatro e filmes, disposta a discutir o que via e ouvia. “Foi uma geração que achou vários caminhos de expressão. O nosso era o cinema.”
O Estação cresceu. Passou da exibição à distribuição e entrou na organização de festivais. Em 1999, a Mostra Rio se uniu ao Rio Cine Festival para dar origem ao Festival do Rio. “A cidade merecia ter um grande festival internacional.”
A distribuição seguiria na trajetória de Ilda, à frente da Pagu Pictures, que lançou títulos como Aos Teus Olhos (2017), de Carolina Jabor, e Sequestro Relâmpago (2018), de Tata Amaral.
“Ilda é um pilar fundamental do cinema brasileiro,” diz Carolina. “Nos altos e baixos, ela está sempre presente, com um sorriso aberto, pronta para defender nossos filmes e dar a segurança de que precisamos para seguir em frente.”
Hoje, tudo o que chega à programação do Festival do Rio passa por ela. São dezenas de títulos e horas trancada na sala escura.
“Fazer um festival é como trabalhar em um roteiro. As histórias vão ocupando territórios específicos e, quando você vê, a programação está contando uma história.”
Em sua 28ª edição, o Festival do Rio acontece entre 1º e 11 de outubro.
Só a Première Brasil, principal vitrine da produção nacional, reúne 101 filmes escolhidos entre quase 1.500 inscritos. Desses, 45 concorrem ao Troféu Redentor e 15 longas terão estreia mundial.
Entre as novidades está a mostra Nova Geração, dedicada ao público jovem e às famílias.
Não podem faltar as produções mais aguardadas. Leia-se o que está nos grandes festivais do mundo, além dos títulos escolhidos por seus países para disputar uma vaga no Oscar. Mas é a descoberta que mais a interessa. “É uma oportunidade para as pessoas descobrirem coisas que nem sabem que gostam.”

Representante do Festival de Cannes para o cinema brasileiro, Ilda integra a Academia Ibero-Americana, ligada aos Prêmios Platino, e a Academy of Motion Picture Arts and Sciences (AMPAS), responsável pelo Oscar.
Depois de décadas ouvindo qual seria o próximo Central do Brasil, Cidade de Deus ou Tropa de Elite, percebe uma mudança. “Os produtores estrangeiros estão querendo saber que histórias o Brasil tem para contar.”
Em suas andanças, atua para romper imagens cristalizadas sobre o país. “O maior trabalho que posso fazer pela produção nacional não é posicionar um filme. É dizer que existe um cinema brasileiro que foge àquela forma como, muitas vezes, ainda somos vistos.”
Quando não está correndo de uma sessão para outra no Festival do Rio, trabalha no escritório, namora o marido e sonha com o dia em que terá tempo para rever as coleções de seus diretores favoritos. Entre os títulos que mais assistiu estão Era uma vez na América, Blade Runner e The Rocky Horror Picture Show. Alguns, calcula, umas 15 vezes.
Enquanto esse tempo não chega, o que ainda não viu é o que continua a movendo.
Mais de 40 anos depois, a dublê de lanterninha, bilheteira e programadora segue procurando o desconhecido com curiosidade e deslumbramento.
“O bom cinema tira você da zona de conforto.” Lugar que não tem nenhum interesse em se estabelecer.














