Uma onda gigante tomou conta do Vaticano. Diluvium, do artista francês JR, é a primeira obra criada especialmente para a fachada da Biblioteca Apostólica Vaticana, a convite da instituição.
A obra faz parte da exposição AQVA, que explora a água como fonte de vida e força de destruição e, além de JR, reúne trabalhos do artista americano Bill Moran e do chef italiano Fulvio Pierangelini, em um encontro entre arte, gastronomia, livros raros e documentos históricos sobre enchentes — incluindo registros do alagamento da Biblioteca Nacional de Florença em 1966, há exatos 60 anos.
Esta é a primeira mostra do ciclo Catástrofe e Maravilha — uma série de cinco exposições que ao longo dos próximos anos vai explorar fogo, luz, insetos e intervenção humana. Inaugurada pelo Papa Leão XIV em 14 de setembro, no dia do seu aniversário de 71 anos, a exposição abre hoje ao público.
Uma fachada do século XVI que, até então, nunca tinha recebido uma obra contemporânea criada especialmente para o espaço simboliza um novo capítulo na relação do Vaticano com a arte contemporânea.

O Vaticano tem um dos mais importantes patrimônios artísticos e culturais do mundo. A Biblioteca Apostólica guarda mais de 80 mil manuscritos e 1,6 milhão de livros impressos, enquanto os Museus do Vaticano, criados em 1506, reúnem obras de Michelangelo, Rafael e Leonardo da Vinci .
Porém, a Igreja acabou se afastando da arte contemporânea depois do Concílio Vaticano II – uma assembleia convocada em 1962 pelo Papa João XXIII e concluída em 1965 pelo Papa Paulo VI que reuniu bispos católicos de todo o mundo para atualizar e modernizar a Igreja Católica.
Apesar do documento Sacrosanctum Concilium (1963) incentivar o diálogo com a arte do seu tempo, o que aconteceu depois disso, na prática, foi o oposto. A arte religiosa ficou mais simples e funcional, enquanto a arte caminhava em direção oposta — cada vez mais provocadora, conceitual e abstrata.
Artistas como Duchamp, Warhol e depois Damien Hirst criavam obras que muitas vezes chocavam os valores católicos. E esses dois mundos foram, naturalmente, se afastando.
Esta reaproximação simboliza o diálogo entre a arte do nosso tempo e os valores da Igreja, e o grande articulador desse movimento é o Cardeal José Tolentino de Mendonça. À frente do Dicastério para a Cultura e Educação, ele é uma das principais figuras da aproximação do Vaticano com a arte contemporânea e comissário do pavilhão da Santa Sé na Bienal de Veneza.
Em entrevista ao Page9, o cardeal explicou: “A pintura não está apenas interessada na imagem, mas em fazer com que a imagem nos leve a olhar aquilo que está para além dela.”
O artista francês JR, conhecido por sempre aparecer de óculos escuros e chapéu, é conhecido por instalações monumentais em fachadas ao redor do mundo. Já instalou imagens gigantes no Louvre, no muro entre EUA e México e em comunidades do Rio de Janeiro.

Diluvium fica em cartaz até 14 de maio de 2027. Para quem estiver em Roma, a onda já pode ser vista do Pátio do Belvedere, antes mesmo de entrar na exposição. JR, afinal, sempre soube que a melhor galeria é a rua.














